UOL Notícias Internacional
 

13/11/2007

No cinturão agrícola dos EUA, usinas de etanol enfrentam resistência

The New York Times
Monica Davey

Em Sparta, Wisconsin
Quando foram anunciados planos para uma nova destilaria de etanol nos arredores desta cidade de 9 mil habitantes, os moradores se queixaram de que ela estragaria a vista do campo de golfe municipal. Eles reclamaram que suas emissões contaminariam os derivados de leite produzidos na vizinha Century Foods International, um dos maiores empregadores da comunidade. Eles até mesmo questionaram se a usina cheiraria a melaço queimado, pipoca queimada ou fermentação de cerveja.

As camisetas feitas pelos oponentes resumiam a história: "Boa idéia. Local ruim".

Por anos, a chegada de uma destilaria de etanol nas áreas rurais americanas era saudada principalmente com alegria, uma passagem para o futuro em locais atormentados por incerteza econômica. Mas no meio do país, o motor do território do etanol, o brilho está diminuindo.

 Andy Manis/The New York Times 
Memorial Park foi o local proposto para a instalação de uma nova destilaria de etanol

Em Kansas, Illinois, Indiana, Minnesota e até mesmo em Iowa, o maior produtor de milho e etanol do país, este combustível de nova geração se vê enfrentando o mais antigo dos obstáculos -a oposição de moradores que adoram a idéia de uma destilaria de etanol desde que seja em outro lugar.

"O que estão tentando vender nós não estamos interessados em comprar", disse Deb Moore, que é dona de uma lanchonete aqui.

As disputas deixaram algumas usinas propostas na espera, atoladas em processos; algumas poucas desistiram.

"Há uma espécie de campanha que está buscando desacelerar e preferivelmente acabar com o crescimento da indústria do etanol", disse Matt Hartwig, um porta-voz da Associação de Combustíveis Renováveis, um grupo setorial com sede em Washington. "Nós precisamos superar uma barragem de lama para transmitir nossa mensagem."

Estes não são os informados oponentes filosóficos do etanol, aqueles que questionam a eficiência do etanol de milho como fonte de energia, culpam o etanol pelo aumento dos preços dos alimentos ou discordam dos subsídios federais que há muito sustentam o setor.

Estas pessoas são agricultores. Ou conhecem uma fazenda. Ou seu avô foi um agricultor e, como acontece em muitas famílias rurais, o etanol visava ser uma nova esperança para cidades que dependiam das plantações de milho e que estavam desaparecendo. As principais queixas são como as que cercam propostas de usinas de papel e celulose, aterros sanitários, presídios e semelhantes: um aumento do barulho, trânsito, odor, emissões e a sobrecarga do sistema de água.

"Não, não, nós não somos contrários à produção de etanol", disse Lonnie Nation, que vive perto de New Castle, Indiana, onde ele e outros pregaram cartazes, entraram com processo na Justiça e foram de porta em porta neste mês para impedir a nova usina. "Mas se a construírem onde querem, nossos lares ficarão espremidos entre uma usina de etanol e um presídio. O que isto causará ao valor de nossos imóveis?"

Alguns especialistas dizem que os protestos locais refletem um novo sentimento antietanol provocado pela lenta mas constante atenção negativa dada ao setor. Por todo o Meio-Oeste, perguntas sobre o etanol foram levantadas por defensores do meio ambiente, pecuaristas se queixam do aumento do preço do milho para ração, e agricultores reclamam de quão caras algumas terras se tornaram.

"Aquela aura maravilhosa que as usinas de etanol tinham pode ter desgastado um pouco", disse Wallace E. Tyner, um economista agrícola da Universidade Purdue.

Defensores do setor minimizam o tamanho da oposição e sugerem que o aumento das objeções às novas usinas é simplesmente uma questão matemática; 131 usinas já estão em operação e mais de 70 outras estão em construção, com a grande maioria delas no Meio-Oeste.

Isto representa um aumento acentuado em comparação há três anos, quando o Congresso aprovou uma lei de energia que incluía a obrigatoriedade de adoção nacional de uma maior presença de combustível renovável na gasolina, o que provocou a corrida ao etanol. Em janeiro de 2005, mais de um quarto de século depois do início da indústria do etanol comercial, apenas 81 usinas estavam em operação.

"As brigas eram raras e às vezes se limitavam a apenas 11 pessoas em uma cidade de 5 mil ou 6 mil", disse Monte Shaw, diretor executivo da Associação de Combustíveis Renováveis de Iowa, uma entidade setorial. Em Iowa, que possui mais destilarias de etanol do que qualquer outro Estado, as pessoas que moram perto de Grinnell estão tentando bloquear na Justiça a construção de uma usina de etanol. "Há algumas pessoas que prefeririam ver a cidade murchar e ou ser destruída do que uma mudança no status quo", disse Shaw. O conflito local coincide com o que já é um momento de tumulto para o setor do etanol. Nos últimos meses, uma enorme oferta de etanol saturou o mercado, derrubando seu preço e causando calafrios em meio ao "boom" do etanol.

Pelo menos três usinas propostas tiveram recentemente sua construção suspensa, disseram representantes do setor, incluindo uma em Reynolds, Indiana. Há apenas dois anos, Mitch Daniels, o governador de Indiana, exibia a cidade como símbolo da mudança para fontes renováveis de energia e a apelidou de a BioCidade americana.

Em outubro, os donos de pelo menos uma antiga usina -inaugurada em 1983 em Grafton, Dakota do Norte, e que produzia quase 40 milhões de litros por ano- anunciaram que a fechariam temporariamente, graças às forças do mercado.

Os especialistas debatem se a atual abundância de etanol significa o começo do fim da corrida ao etanol de milho ou apenas uma correção temporária, à medida que linhas de transporte são desenvolvidas do Meio-Oeste aos maiores mercados localizados na costa. De qualquer forma, as queixas dos moradores com as usinas propostas apenas se somam à enxurrada de más notícias para o etanol.

"É como o setor pontocom", disse Anne Yoder, que está buscando deter os planos de uma usina de etanol nos arredores de Topeka, Kansas. Ela se descreve como sendo "nem um pouco" como uma ativista, "mas como uma mãe comum".

"Quando o etanol chegou havia muita promessa", ela disse. "Talvez isto esteja começando a secar." Neste ano, quando Yoder começou a bater de porta em porta para descrever suas preocupações com a usina proposta, ela esperava ser desprezada pelos muitos agricultores de seu condado rural, que supostamente se beneficiariam com a proximidade da usina para vender seu milho.

"Mas fiquei chocada com o que ouvi", ela disse. "Eles também não a queriam aqui. Os agricultores estão no ramo há centenas de anos e me disseram que não contam com um suprimento ilimitado de água para produzir mais milho. Este não é o quadro bonito que todos querem pintar."

Yoder, que disse que atualmente passa várias horas por dia nesta batalha e que ajudou a reunir mais de 500 nomes em uma petição, troca e-mails com os organizadores de comunidades em outros Estados que lutam contra as usinas de etanol.

A rede livre de oponentes está crescendo. Em junho, autoridades de Portsmouth, Virgínia, visitaram três usinas de etanol em Wisconsin, se encontrando com vizinhos e anotando as observações sobre os odores ("como cerveja, mas com algo metálico misturado", alertaram os moradores em Wisconsin às autoridades da Virgínia, por exemplo).

"Nós apenas trocamos informações e conversamos sobre que táticas adotadas funcionaram", disse Yoder.

Ainda não se sabe como estes protestos afetarão o setor.

Em Sparta, foram as autoridades municipais que procuraram a Coulee Area Renewable Energy para que considerasse se mudar para lá, disse Michael B. Van Sicklen, um advogado da produtora de etanol. Os projetos das usinas estavam tramitando por meses pelos processos de zoneamento e anexação, ele disse.

Então surgiram as queixas dos líderes da Century Foods International, que fica próxima do local da usina proposta. Os moradores assinaram petições. Eles passaram a exigir reuniões. Eles impetraram processos.

Em outubro, a produtora de etanol e a Century Foods International anunciaram que tinham chegado a um acordo -tão provisório e confidencial que representantes de ambos os lados se recusaram a falar a respeito. Ninguém em nenhum lado diz se agora a instalação da usina é certa, apenas que não será à vista do campo de golfe. George El Khouri Andolfato

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