UOL Notícias Internacional
 

13/11/2007

Redesenhando uma camisinha para que as mulheres a usem

The New York Times
Donald G. McNeil Jr.
A camisinha feminina foi algo que nunca pegou nos Estados Unidos. Mas no mundo em desenvolvimento, onde ela foi lançada no final da década de 1990, os funcionários de saúde pública esperavam que a camisinha feminina revolucionasse a política do quarto de dormir, conferisse mais poder às mulheres e contivesse a epidemia da Aids. Isso não aconteceu. A camisinha feminina também não pegou no Terceiro Mundo.

Somente cerca de 12 milhões de camisinhas femininas são comercializadas a cada ano nos países em desenvolvimento, contra seis bilhões se camisinhas masculinas. Os casais reclamaram de que a versão feminina é estranha, feia, barulhenta e escorregadia - ou, conforme diz Mitchel Warren, um dos primeiros defensores desse produto, "o fator asco é um problema". Muitas mulheres tentaram usá-la, mas, no final, ela acabou sendo adotada principalmente por prostitutas.

Agora os cientistas estão tentando novamente. Um novo desenho - praticamente sem diferença em uma das extremidades, mas diferente na outra - foi desenvolvido, e os responsáveis por ele acreditam que a nova camisinha fará sucesso onde a outra fracassou.

"Durante 15 anos não houve concorrência real, nenhum produto de segunda geração", explica Michael J. Free, diretor de tecnologia do PATH, um grupo sem fins lucrativos com sede em Seattle que reformulou o desenho. "Interesse é o que não falta, mas assim mesmo estamos encalhados".

No entanto, o novo desenho não supera o grande problema que condenou o primeiro a ser um produto de nichos restritos: da mesma forma que a antiga, a nova camisinha também não pode ser usada secretamente. Por este motivo, as mulheres casadas, atualmente um dos grupos que correm mais alto risco de contrair o HIV no Terceiro Mundo, raramente a usam.

"Não quero que o meu marido saiba que estou usando uma camisinha", afirma Louis B. Chingandu, diretora do Safaids, uma organização anti-Aids de Zimbábue.

"As camisinhas se constituem em um tópico quase impossível de se discutir em um casamento na África", acrescenta ela. "É algo associado ao sexo casual. Se uma mulher usa uma camisinha, a mensagem que ela está transmitindo é a de que é infiel. Se ela sequer der início à discussão sobre isso, o desequilíbrio de poder fala mais alto. Os homens resistem bastante, e isso pode resultar em violência".

Mas para os casais que concordaram quanto à camisinha, e para os funcionários da área de saúde sexual cujos clientes cooperam, o novo desenho possui diversas vantagens. A camisinha feminina reformulada é feita de poliuretano mais suave e fino a fim de transmitir mais calor. A sua inserção é mais fácil. Uma das extremidades é dobrável, ficando pequena como um tampão, o que é um aperfeiçoamento em relação ao velho desenho, que lembra o rígido anel de borracha de um diafragma e que precisava ser dobrada em formato de oito para a inserção.

Durante o sexo, a nova camisinha feminina também apresenta movimentos mais semelhantes ao da vagina em relação ao modelo anterior, segundo casais de Seattle, Tailândia, México e África do Sul que testaram uma série de protótipos, afirma Joanie Robertson, diretora de projeto para a camisinha no PATH. O velho modelo ficava dependurado passivamente no anel de borracha, que podia se mover e às vezes provocava dor. O novo desenho tem pontos de espuma adesiva que aderem à parede vaginal, expandindo-se com esta durante o processo de excitação.

Segundo o PATH, mais de 90% dos casais mostraram-se satisfeitos com a facilidade de uso e o conforto proporcionados pela nova camisinha, e 98% acharam que a sensação do ato sexual feito com ela varia de "regular a muito satisfatória".

Não obstante, atualmente o progresso do projeto empacou.

O PATH está tentando obter a aprovação da Administração de Alimentos e Remédios (FDA) para que a camisinha possa ser vendida nos Estados Unidos. E, com a aprovação da agência de medicamentos, seria mais fácil obter a licença para o uso da nova camisinha no Terceiro Mundo, ou conseguir a aprovação da Organização Mundial de Saúde. Embora a FDA classifique as camisinhas masculinas como dispositivos médicos Classe 2 - significando que elas só necessitam passar por testes de vazamento e rompimento -, a instituição coloca as camisinhas femininas na Classe 3, a mesma categoria que engloba marca-passos, válvulas cardíacas e implantes de silicone para os seios.

Essa decisão foi tomada em 1999 - após muita polêmica, e bem depois de a camisinha ter começado a ser usada no exterior - porque não havia dados clínicos a respeito da eficiência da camisinha feminina, e um fracasso poderia significar risco de morte caso o parceiro da mulher tivesse Aids. Uma comissão de consulta sugeriu que sequer se chamasse o dispositivo de "camisinha", e em vez disso que ela fosse rotulada de "bolsa intravaginal", mas a agência rejeitou o conselho.

Independente dos nomes, a categoria Classe 3 significa que qualquer novo desenho com esta classificação precisas passar por testes clínicos, que custariam entre US$ 3 milhões e US$ 6 milhões.

"Esse é um impedimento enorme, uma barreira de quase 100%, porque ninguém está disposto a investir tal dinheiro", afirma Free.

A Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (Usaid), a Fundação Bill & Melinda Gates, a Fundação Lemelson e outras instituições financiaram os custos do desenho e dos protótipos, mas não estão dispostas a pagar pelos testes clínicos e pela construção de uma fábrica. Os investidores privados também hesitaram porque os mercados europeu e norte-americano para o desenho original acabaram mostrando-se menores do que o previsto.

O fracasso do modelo original - feito pela Female Health Company, de Chicago, e comercializado no mundo inteiro com nomes como FC1, Reality, Dominique, Femy e Protectiv - é algo que ainda incomoda os especialistas em Aids.

"O uso dessas camisinhas foi muito baixo, de forma frustrante e trágica", declara Peter Piot, diretor executivo da UNAids, a agência das Nações Unidas para a Aids.

Na década de 1990, Warren, ex-diretor de operações internacionais da Female Health Company, visitou 24 países tentando promover a aceitação da camisinha feminina. O Brasil, a África do Sul e o Zimbábue foram os países mais receptivos, conta Warren, que atualmente trabalha em pesquisas para a descoberta de vacinas contra a Aids. "Houve alguns elementos de sucesso, mas a camisinha feminina não foi aquele sucesso de vendas que a companhia esperava".

Mas conforme observa Chingandu, até mesmo em Zimbábue, após uma inicial onda de empolgação por parte das mulheres, a camisinha feminina passou a ocupar um nicho restrito: uma ferramenta do sexo como comércio.

Segundo Warren, o fato de a camisinha ser um sucesso ou um fracasso em determinado país foi algo determinado acima de tudo pela forma como se deu o lançamento do produto. As encomendas iniciais no Brasil chegaram a um milhão de unidades. Em Bangladesh, por outro lado, a tentativa de lançamento foi feita com apenas 20 mil produtos. E Uganda comprou um milhão de camisinhas femininas, mas a seguir fez pouco trabalho de marketing e não promoveu nenhum treinamento para ensinar a usá-las.

"As pessoas dizem que essa camisinha fracassou", diz Warren. "Bem, ela não fracassou. O que aconteceu foi que simplesmente não estava disponível, ou a sua introdução foi feita por meio de um programa ruim. As pessoas precisam primeiro praticar antes de virarem usuárias".

Ele chamou o novo desenho de "uma ratoeira melhor", mas diz que a nova camisinha ainda enfrenta um problema que prejudicou a primeira: ela é cara quando comparada à camisinha masculina.

Enquanto estas últimas são feitas com a simples inserção de moldes em látex, a camisinha feminina usa uma complexa camada fina de poliuretano. A tecnologia mais próxima a isso é aquela utilizada na fabricação de sacolas de sangue, de forma que o PATH está visitando companhias que fazem tais sacolas.

Mas, conforme observa Robertson, as companhias que fabricam sacolas de sangue têm pouco conhecimento sobre marketing de produtos sexuais. UOL

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