UOL Notícias Internacional
 

15/11/2007

EUA avaliam cenário de possível queda de Musharraf

The New York Times
Helene Cooper, Mark Mazzetti e David Rohde*

Em Washington
Passadas quase duas semanas desde o início da crise política no Paquistão, membros do governo Bush estão perdendo a esperança de que o presidente paquistanês, o general Pervez Musharraf, conseguirá se manter no cargo, e começaram a discutir ativamente o que poderá vir a seguir, segundo altos funcionários do governo.

Em reuniões na quarta-feira, autoridades da Casa Branca, Departamento de Estado e do Pentágono se uniram para decidir que mensagem o vice-secretário de Estado, John D. Negroponte, deveria transmitir a Musharraf -e talvez mais importante, aos generais do exército paquistanês- quando chegar a Islamabad na sexta-feira.

Funcionários do governo disseram que ainda têm esperança de que Negroponte possa salvar o fraturado casamento arranjado entre Musharraf e a ex-primeira-ministra Benazir Bhutto. Mas no Paquistão, diplomatas estrangeiros e assessores de ambos líderes dizem que as chances de um acordo entre eles estão evaporando 11 dias depois de Musharraf ter declarado o que na verdade representa uma lei marcial.

Naeem Ul Haq/EFE 
Policial observa manifestantes contra o estado de exceção em Karachi, Paquistão

Vários altos funcionários do governo disseram que a cada dia que passa, mais funcionários do governo estão passando a acreditar que os dias de Musharraf no poder estão contados e que os Estados Unidos devem começar a considerar planos de contingência, incluindo diálogo com os generais paquistaneses.

Mais de uma dúzia de diplomatas de vários países em Washington e Islamabad falaram sob condição de anonimato por causa da fragilidade da atual situação política do Paquistão. As dúvidas manifestadas pelas autoridades americanas sobre a sobrevivência de Musharraf foram mais acentuadas do que quaisquer declarações públicas do governo, sinalizando a diminuição da paciência americana às vésperas da viagem de Negroponte.

As autoridades envolvidas nas discussões em Washington disseram que o governo Bush permanece cauteloso devido à percepção de que os Estados Unidos estão fechando acordos nos bastidores para instalar o novo líder do Paquistão. "Ele não quer encorajar outro golpe militar, mas também começou a reconhecer que Musharraf se tornou parte do problema", disse um ex-funcionário com conhecimento dos debates que transcorrem dentro do governo Bush.

A mudança na percepção é significativa porque por seis anos Musharraf buscou se retratar, por interesse próprio, como a melhor alternativa do Ocidente diante de uma possível tomada do Paquistão por radicais islâmicos.

Apesar do Paquistão continuar sendo um paraíso para a Al Qaeda e outros militantes islâmicos, altos funcionários da Casa Branca, do Departamento de Estado e do Pentágono agora dizem que reconhecem que o exército paquistanês continua sendo uma poderosa força estabilizadora no Paquistão, e que há pouca perspectiva de uma tomada islâmica em caso de queda de Musharraf.

Se Musharraf fosse forçado a deixar o poder, eles dizem, provavelmente seria por uma pressão gentil de outros oficiais, que tentariam empossar um presidente civil e pressionar por eleições parlamentares para produzir o próximo primeiro-ministro, talvez até mesmo Bhutto, apesar das tensões entre ela e os militares no passado.

Muitos diplomatas ocidentais em Islamabad dizem acreditar que até mesmo um acordo falho como este seria melhor do que uma ditadura militar opressiva e impopular sob Musharraf.

Tal cenário seria um retorno para a difusa e às vezes desajeitada democracia experimentada pelo Paquistão nos anos 90, antes da tomada do poder por Musharraf em um golpe sem derramamento de sangue.

Mas os diplomatas também alertaram que a remoção do general poderia não ser tão fácil. Os generais do exército dificilmente agirão contra Musharraf a não ser que certos "limites" sejam cruzados, como protestos políticos por todo o país ou uma verdadeira ameaça de corte da ajuda militar americana ao Paquistão.

Desde que ele invocou poderes de emergência em 3 de novembro, Musharraf conseguiu com sucesso até o momento bloquear protestos em grande escala por meio de uma forte repressão de segurança.

O quadro dos generais de elite do Paquistão, chamado de corpo dos comandantes, há muito é "fazedor de reis" dentro do país. No topo de tal quadro se encontra o general Ashfaq Parvez Kayani, apontado como sucessor de Musharraf como chefe do exército. Kayani é um comandante de infantaria moderado, pró-americano, que é amplamente visto como alguém que conta com respeito dentro do exército e, dentro dos círculos ocidentais, como uma alternativa potencial a Musharraf.

Altos funcionários do governo em Washington disseram estar preocupados com a possibilidade de que quanto mais durar a crise institucional no Paquistão, mais a atenção do exército paquistanês se desviará da missão na qual os Estados Unidos desejam em que ele se concentre: combater o terrorismo nas áreas de fronteira do país.

Os funcionários disseram que há uma crescente preocupação em Washington de que a situação que se desenrola na região montanhosa de Swat, onde militantes islâmicos simpáticos ao Taleban e à Al Qaeda estão enfrentando o exército paquistanês, seja um sinal de que Musharraf e as forças armadas estejam mais ocupados prendendo adversários políticos do que combatendo os militantes.

Os funcionários do governo também disseram ter ficado desanimados com o fato de Musharraf ter libertado 25 militantes na semana passada em troca de 213 soldados capturados pelos militantes em agosto, além de ter concordado em retirar soldados de certas áreas do Waziristão do Sul.

Desde o primeiro semestre, cresce a preocupação nas forças armadas de que a batalha de Musharraf para permanecer no poder e seus recentes erros tenham lhe custado a popularidade junto ao público e também manchado a reputação das forças armadas, segundo analistas militares ocidentais e paquistaneses.

O desempenho ruim do exército no combate aos militantes nas áreas tribais escarpadas do país, no noroeste, também impôs enorme pressão sobre os militares. Centenas de soldados morreram, dezenas se renderam sem lutar e militantes têm realizado decapitações para desmoralizar a força.

"O exército está ficando cada vez mais preocupado e perturbado", disse Talat Masood, um general reformado e analista político. "Eles enfrentam um engajamento genuíno no cinturão tribal da Província da Fronteira e do Baluquistão", ele disse, se referindo a confrontos armados. "E agora enfrentam um grande confronto entre os setores militar e civil da sociedade, e as linhas estão ficando mais delineadas."

Apesar dos militares apoiarem o estado de emergência, eles o fazem com cautela, e há limites que o exército não ultrapassará, disseram oficiais militares ocidentais no Paquistão. "Kayani é leal a Musharraf", disse um oficial militar ocidental. "Mas também ao Paquistão."

Um limite que os militares provavelmente não estão preparados para cruzar seria se fossem ordenados a manter a segurança interna além das áreas de insurreição. Em caso de ocorrência de amplos protestos políticos, o exército poderia ser chamado para assegurar o cumprimento da lei e manter a ordem.

Apesar de nenhum protesto em grande escala ter ocorrido desde a declaração do estado de emergência, o aparente colapso na semana passada das negociações apoiadas pelos americanos para criação de uma divisão de poder entre Bhutto e Musharraf poderia levar a mais confrontos nas ruas, disseram os diplomatas.

Enquanto Musharraf se recusa a suspender o estado de emergência, legisladores em Washington aumentaram as ameaças de congelar a ajuda a Islamabad.

"Há uma ampla desaprovação destas ações no Congresso", disse a deputada Nita M. Lowey, democrata de Nova York, que faz parte do Comitê Orçamentário da Câmara. "Enquanto o estado de emergência prosseguir, eu não sei se poderemos fornecer assistência financeira direta ao governo Musharraf."

Mas outros líderes democratas se mantiveram cautelosos em relação ao endosso de cortes à ajuda, citando a preocupação de que poderiam minar os esforços para combate à Al Qaeda no Paquistão.

"Se eu fosse o general Kayani, eu me sentiria desconfortável com a imagem que Musharraf está passando", disse Teresita C. Schaffer, uma especialista em Paquistão do Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais. "Ele não parece um sujeito que está no controle das coisas."

Os especialistas disseram que a pressão poderá aumentar sobre Musharraf caso o corpo dos comandantes acredite que as ações do presidente ameacem os bilhões de dólares em ajuda anual de Washington, que se tornaram vitais para os militares paquistaneses.

Caso os generais sintam que a ajuda corre risco, disseram os especialistas, isto poderia mudar a posição de militares já desiludidos com Musharraf após anos de campanhas militares fracassadas nas áreas tribais.

"Os militares estão bastante desmoralizados no momento", disse Christine Fair, uma analista paquistanesa em Washington. "Mas o que mantém Musharraf na posição em que se encontra junto aos militares é a grande generosidade dos Estados Unidos."

*Carlotta Gall, em Islamabad, Paquistão, e Thom Shanker, em Washington, contribuíram com reportagem. George El Khouri Andolfato

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