UOL Notícias Internacional
 

15/11/2007

História antiga atualizada: viver melhor por meio de pílulas

The New York Times
Keith Wailoo*
Atletas tomando drogas para melhorar seu desempenho. Crescente preocupação com a dependência de pílulas para alívio da dor, estresse e ansiedade. Líderes médicos alarmados com as drogas da moda, pedindo aos médicos para que exerçam moderação ao prescrevê-las.

Manchetes de 2007? Tente 1957. Hoje, as drogas são OxyContin, esteróides e ritalina. Há cinqüenta anos, eram tranqüilizantes, sedativos e anfetaminas: os Estados Unidos eram um país em meio à Guerra Fria precisando tanto de estímulo quanto de alívio.

E apesar do contexto ser diferente hoje (nós temos uma quantidade maior e mais complexa de drogas), as questões por trás permanecem as mesmas: americanos, atletas ou não, lidando tanto naquela época quanto agora com o devido papel dos medicamentos em suas vidas.

Em 1957, a Associação Médica Americana (AMA) deu início a uma investigação sobre as "pílulas estimulantes" no esporte. Apenas no atletismo, uma dúzia de corredores correu a milha em menos de 4 minutos nos três anos desde que Roger Bannister foi o primeiro a conseguir. Os médicos quiseram saber: como aquilo era possível sem drogas estimulantes? Os atletas estavam usando anfetaminas para estimular o sistema nervoso, reduzir a fadiga e melhorar o desempenho?

Para aumentar a suspeita, alguns atletas reconheceram ter se voltado para as drogas em busca de estímulo adicional. Bruno Banducci, um atacante dos San Francisco 49ers nos anos 50, reconheceu o uso da anfetamina benzedrina para manter sua resistência. "Nós jogadores fazíamos isto por conta própria", ele disse, isentando os médicos da equipe.

Uma dúvida semelhante pairou sobre os nadadores olímpicos australianos; até mesmo atletas colegiais estavam sob suspeita. Para outros, a meta era o alívio e a tranqüilidade depois de um forte esforço. Al Aber, um arremessador do Detroit Tigers, e outros colegas disseram que o médico da equipe prescrevia tranqüilizantes para aliviar a tensão muscular e nervosa.

O problema, é claro, não estava restrito a atletas. Uma vida melhor por meio da química foi um fenômeno de consumo dos anos 50. Os americanos procuravam os médicos e as chamadas drogas milagrosas não apenas para combater infecções, mas cada vez mais para estimulá-los durante o dia e acalmá-los durante a noite. As prescrições de benzedrina e sua droga irmã, dexedrina, eram feitas para motivos como depressão, fadiga e redução do apetite.

As vendas de pílulas estimulantes estavam inchando, empurrando as fronteiras do bem-estar químico e do alívio medicado. E desde que foram introduzidos em 1954, os tranqüilizantes se tornaram uma indústria de US$ 200 milhões. As drogas eram promovidas por fabricantes, psiquiatras, enfermeiros e psicólogos como a verdadeira resposta para doença mental, psicose, neurose, estresse e ansiedade comum.

Em 1957, as falhas no uso de drogas para navegar pelas frustrações do trabalho e da vida, da busca tanto por estímulo quanto por tranqüilidade, estavam se tornando evidentes. O Exército, que abraçou o uso de tranqüilizantes para seus pilotos, estava reconsiderando a prática.

A controvérsia da milha em 4 minutos não produziu escândalos históricos duradouros -nenhuma confissão como a do recente livro de memórias do jogador de beisebol Jose Canseco, e nenhuma controvérsia persistente como a saga de Barry Bonds. A suspeita sobre o feito de Bannister se dissipou rapidamente; ele rebateu as acusações como ridículas e depois seguiu uma carreira médica com distinção. Em 1959, o estudo da AMA concluiu que havia pouca evidência para corroborar as alegações.

Mas a sombra em torno das drogas e a melhora do desempenho não diminuiria. A nuvem -o uso de substâncias para o ganho de uma vantagem adicional, para superar barreiras ou para apenas suportar o dia ou relaxar e se recuperar à noite- paira não apenas sobre um esporte em particular, mas sobre toda a sociedade.

Em 1957, a maré começou a mudar para uma era de drogas maravilhosas não controladas. Havia crescente preocupação com os efeitos colaterais e as práticas de prescrição, discussões legislativas sobre a necessidade de rótulos de alerta e maior controle da propaganda farmacêutica, assim como pedidos frustrados para maior regulação federal.

A inovação farmacêutica, é claro, não cessou. E assim o cenário das drogas e suas controvérsias igualmente cresceram. O valium estava despontando, assim como o escândalo que levaria a uma supervisão governamental mais vigorosa -o caso da talidomida, no qual bebês malformados nasceram de mães grávidas (a maioria na Europa) que tomaram o novo sedativo.

Os anos 60 se tornariam outra década distinta para as drogas. Com sua inclinação para a psicodelia e experimentação, a geração mais jovem retomou do ponto onde muitos pais e mães tinham parado. O ano de 1957 também marcou o nascimento da ritalina, comercializada como um estimulante semelhante à anfetamina. Levaria décadas para esta droga encontrar seu espaço no cenário americano, estimulada em parte pelas tensões de pais e filhos em torno da hiperatividade e déficit de atenção, que eram mal conhecidos na época.

E 1957 produziu momentos lúcidos que repercutem meio século depois. O secretário de saúde, Leroy E. Burney, avaliando o quadro americano de prescrições, disse na época que "os problemas do dia a dia não podem ser resolvidos com uma pílula". Naquela época como agora, muitos americanos acreditam e praticam o oposto.

*O dr. Keith Wailoo é professor de história e política de saúde da Rutgers e diretor de seu Centro para Raça e Etnia. George El Khouri Andolfato

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