UOL Notícias Internacional
 

15/11/2007

O futuro da Geórgia parece-se cada vez mais com o passado

The New York Times
Clifford J. Levy
Em Tbilisi, na Geórgia
Educado nos Estados Unidos, fluente em quatro línguas e conhecedor dos valores das democracias de mercados livres, Mikhail Saakashvili deveria ser diferente. Quando foi eleito presidente da Geórgia após uma revolução sem derramamento de sangue, em 2003, ele parecia destinado a ser um salvador no cenário pós-soviético, como se fosse uma criatura conjurada por um comitê de organizações de pesquisas políticas de Washington ou grupos europeus de direitos humanos.

Mas, nesta semana, com a Geórgia sob estado de emergência depois que o seu governo reprimiu uma grande manifestação e fechou violentamente uma estação de TV da oposição, Saakashvili parecia, mesmo para alguns dos seus mais ferrenhos apoiadores, estar governando segundo a cartilha daqueles mesmos autocratas que ele outrora desdenhava. Estaria emergindo o seu verdadeiro temperamento, ou os contratempos e as realidades do governo de alguma forma o modificaram?

Nos últimos anos a Geórgia ganhou uma proeminência bem superior àquela que a sua pequena área territorial normalmente mereceria, em grande parte porque, sob o governo de Saakashvili, ela foi considerada um modelo para países que tentavam superar décadas de despotismo e decadência.

Irakli Gedenodze/AFP - 12.nov.2007 
O presidente Mikhail Saakashvili gesticula durante encontro com professores em Tbilisi

Agora, Saakashvili começou a ser comparado a um líder que escolheu um caminho diferente para soerguer a sua nação: o presidente Vladimir V. Putin, da Rússia, a vizinha e ex-controladora da Geórgia e, atualmente, uma adversária freqüente. O anúncio feito pelo governo georgiano na quarta-feira (14/11) de que cancelaria o estado de emergência na sexta-feira não pareceu ser capaz de remover a mancha na reputação de Saakashvili, que tem apenas 39 anos de idade e é conhecido como Misha.

"Penso que Misha se inclina para o autoritarismo", opina Scott Horton, um advogado norte-americano especializado em direitos humanos que foi professor de Saakashvili quando este era aluno da Escola de Direito da Universidade Columbia em meados da década de 1990, e que mais tarde arranjou um emprego para ele em uma firma de direito de Nova York, tendo permanecido amigo do atual presidente. "Eu colocaria as coisas da seguinte forma: existe uma similaridade marcante entre Misha e Putin, em termos de atitudes em relação à autoridade e às prerrogativas presidenciais", afirma Horton. Ele acrescenta que, assim como Putin, Saakashvili marginalizou o parlamento e menosprezou a oposição.

Horton diz não acreditar que a Geórgia - uma ex-república soviética localizada no Cáucaso, entre a Europa e a Ásia - esteja se transformando em uma ditadura, e nem que Saakashvili seja tão duro quanto Putin. Mesmo assim, em Tbilisi e no Ocidente, a questão que vem sendo discutida entre os aliados de Saakashvili é se ele tornou-se um novo ditador em uma região onde estes são comuns.

Matthew J. Bryza, um diplomata graduado norte-americano que esteve aqui nesta semana tentando persuadir Saakashvili a suspender o estado de emergência, disse aos jornalistas que entende as pressões que Saakashvili está tendo que suportar. Mas, a seguir, Bryza afirmou que o fato de Saakashvili ter fechado a estação de TV da oposição "enviou ondas de choque" a Washington.

Washington tem sido um lugar no qual Saakashvili prospera nos últimos anos, tendo se tornado um membro regular do circuito de palestras e dos salões do governo norte-americano. Saakashvili era tão popular entre as autoridades que desejavam ouvir as narrativas dos seus sucessos - a luta contra a corrupção, o forte crescimento econômico, a reforma judiciária -, que fez piadas, dizendo que quando andava pelo Congresso era capaz de atrair mais atenções do que Britney Spears.

Nos últimos dias, com uma ousadia característica, Saakashvili contra-atacou, alegando que uma frágil democracia georgiana vinha sendo gravemente ameaçada pelos protestos da oposição, que a Rússia estava tentando desestabilizar o país e que a rede de televisão que foi fechada procurava derrubar o governo. A estação, a Imedi, continua fechada, e autoridades do governo disseram na quarta-feira que um tribunal cassou a sua licença, atendendo aos pedidos dos promotores.

O presidente observou que pouco após ter declarado o estado de emergência, também anunciou eleições presidenciais antecipadas para janeiro, garantindo dessa maneira que a oposição tem uma oportunidade de defender as suas idéias.

"Antes que alguém comece a dizer como o presidente georgiano lembra um governante excêntrico, autoritário, ou, acima de tudo, ditatorial, eu gostaria de lembrar a vocês que eu sou o presidente da Geórgia que está reduzindo o seu próprio primeiro mandato presidencial por espontânea vontade", disse ele em um pronunciamento à nação. "E estou recorrendo àquilo que não tem precedentes na nossa região e na maior parte dos países".

Os assessores de Saakashvili dizem que as críticas do Ocidente são injustas, já que lá os políticos e os jornalistas de todas as tendências geralmente entendem a importância de se agir dentro de certos limites a fim de preservar a democracia. Segundo eles, nesta região áspera do mundo, a norma são os truques políticos sujos e a intriga (Saakashvili afirmou que a oposição o acusou de tudo, desde assassinato até "quase devorar bebês").

E além do mais, segundo os assessores, enquanto o governo enfrenta uma oposição irresponsável, ele também lida com duas regiões separatistas na fronteira russa que estão recebendo auxílio de Moscou e estão sempre à beira de explodir em um conflito armado. "É mais fácil ver as coisas de forma estereotipada", critica Giga Bokeria, membro do parlamento e aliado próximo do presidente. "Aqui está o presidente, ele não gosta de manifestações de protesto, portanto as reprimiu, e fechou as estações de TV que não apreciava. Este é o fim da democracia. Tal posição é confortável, mas não é a verdade".

A oposição diz que Saakashvili enganou os georgianos e os ocidentais, fazendo com que acreditassem que ele era um democrata. Salome Zourabichvili, ex-ministra das Relações Exteriores no governo Saakashvili, e que tornou-se uma líder oposicionista, diz que Saakashvili não suporta as críticas e que não tem a intenção de compartilhar poderes. "A atitude dele e seus aliados é: 'Somos a maioria e, portanto, sabemos quais são as boas decisões, e não precisamos explicar essas nossas decisões a ninguém", diz ela. "Essa é uma forma de pensar bastante bolchevista. Não estou dizendo que estamos vivendo em um país bolchevista, mas que esta é uma mentalidade antiga, e não a forma democrática de abordar as coisas. Pelo menos todos sabem o que Putin é, e ninguém se engana quanto a Putin".

Mas Bokeria chama esse tipo de opinião de absurda.

"Quando se observa o quadro de longe, com todas as máquinas de propaganda voltadas contra nós, a situação parece muito ruim", diz ele. "E demora algum tempo até que se entenda a seqüência de eventos, a dinâmica. Mas ele é o mesmo democrata que sempre foi". UOL

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