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16/11/2007

Islâmicos da Jordânia buscam cargos que o islã desdenha

The New York Times
Thanassis Cambanis
Em Zarqa, Jordânia
Esta favela apertada de blocos de moradia de concreto de quatro andares deu à Jordânia algumas de suas maiores dores de cabeça: é o reduto da oposição, da Frente de Ação Islâmica e lar de Abu Musab Al Zarqawi, que saiu daqui para dirigir o grupo insurgente iraquiano Al Qaeda na Mesopotâmia.

Os islâmicos políticos da Jordânia têm seu poder mais concentrado aqui, nesta cidade industrial de 834.000 habitantes, a 15 minutos de distância da capital, Amã.

A Frente de Ação Islâmica, ala política da Fraternidade Muçulmana, tem o apoio quase unânime entre os moradores desta cidade que se dão ao trabalho de votar nas eleições parlamentares da Jordânia, amplamente vista por islâmicos como manipulada em favor do governo secular.

Os políticos islâmicos da Jordânia buscam um equilíbrio delicado, que aflige a maior parte dos partidos islâmicos na região que escolhem participar dos sistemas políticos seculares. Isso fica evidente no esforço de campanha aqui, quando os candidatos tentam inspirar sua base eleitoral enquanto chamam de inútil o próprio sistema político ao qual se uniram.

Hayat Massimi, 45, farmacêutica e parlamentar da Frente de Ação Islâmica, vem cruzando os bairros apinhados de Zarqa, fazendo reuniões de campanha nas casas, mesquitas e comícios.

Com três assessores, Massimi corre de evento a evento, responde a perguntas apaixonadas e às vezes irritadas de eleitores que compartilham suas convicções políticas, mas questionam se os islâmicos dedicados devem se sujar se envolvendo em política. Se o islã é a solução, como proclama o slogan do partido, e o sistema político é corrupto, alguns eleitores religiosos se perguntam por que o bloco islâmico deve tomar parte nas eleições.

"De qualquer forma, haverá um Parlamento, e, se você não tiver ninguém o representando, o Parlamento não fará nada além de irritá-las", disse Massimi em um apelo a cerca de duas dúzias de eleitoras em uma casa aqui em Zarqa, menos de duas semanas antes das eleições do dia 20 de novembro. "Qualquer um que diga que manterá os preços baixos, está mentindo, porque o Parlamento não tem poder de parar a inflação."

Ela enfrentava um público difícil. As mulheres cobertas bebiam Pepsi e comiam uma sobremesa de xarope feita de trigo e queijo, mas não eram recatadas. Queriam saber o que a Frente de Ação Islâmica poderia fazer no Parlamento nas questões que as afetavam -preços crescentes de farinha e combustível, salários congelados, inflação crescente e alto desemprego.

"Você não pode nos prover nenhum serviço", disse Asmaa Said Al Assi, 38. "Por que deveria votar em você?"

"O Parlamento não fornece serviços, fornece leis", disse Massimi.

Assi não ficou impressionada: "O ponto é mudar as leis!"

Em outro diálogo repleto de irritação sobre a corrupção pública, Massimi criticou os eleitores por seu papel em promover o suborno e o nepotismo: "Vocês também são responsáveis, quando vêm e pedem ao seu parlamentar para contratar seus parentes."

Os candidatos islâmicos decidiram concorrer, apesar da liderança da Frente de Ação Islâmica querer boicotar as eleições, alegando que o governo alterava as eleições para minimizar a representação islâmica.

No atual Parlamento, o bloco islâmico detém 17 de 110 assentos e deve reter a mesma proporção nas eleições que o governo controla com a manipulação da divisão dos distritos.

Massimi, mãe de cinco filhos, é um exemplo de política da Frente de Ação Islâmica: profissional, bilíngüe, é capaz tanto de fazer um discurso político contido quanto de se engajar em discussão religiosa apaixonada. Ela é refugiada palestina, que foi de Nablus para a Jordânia em 1967, e conquistou seu primeiro mandato em 2003, para um dos seis assentos reservados às mulheres.

Como os outros 22 candidatos islâmicos, ela nunca pede diretamente que as pessoas votem nela, o que seria considerado falta de modéstia.

Acima de tudo, os islâmicos fazem campanha em uma plataforma anticorrupção. Os líderes islâmicos dirigem carros simples e recusam-se a trocar sua posição parlamentar por vantagens e propinas, argumenta o partido, em um sistema lavado por presentes, propinas e outras oportunidades de enriquecer rápida e ilegalmente. "Não somos corruptíveis, e não estamos à venda", disse Massimi.

Diferentemente dos candidatos da oposição secular, os islâmicos são críticos declarados do governo. Mas essa franqueza limitou o impacto sobre as eleitoras de Zarqa, que continuaram pressionando Massimi sobre as perspectivas de reforma econômica.

Os militantes são profundamente respeitados em Zarqa. Quando as forças americanas mataram Al Zarqawi no Iraque, milhares compareceram ao seu funeral aqui, inclusive membros da Frente de Ação Islâmica do Parlamento, que depois foram presos. No que concerne à política, porém, as preocupações de Zarqa são prosaicas. Bairros de construções precárias se misturam a campos de refugiados palestinos, com ruas estreitas e mal conservadas. O cheiro de esgoto cobre a cidade, porque o governo não melhora o sistema de drenagem insuficiente.

Mesmo assim, eles parecem dispostos a colocar suas frustrações diárias de lado para votar em um grupo de candidatos islâmicos que às vezes criticam por não serem radicais o suficiente.

Uma eleitora assim é Maysoon Al Medhoon, 28, que esperou quase três horas no apartamento de uma amiga em Zarqa pela oportunidade de questionar a candidata.

Medhooon apóia a Frente de Ação Islâmica, mas apenas como remédio temporário até que a Jordânia e o resto do mundo muçulmano testemunhem uma revolução religiosa que resolverá os problemas do povo. "O islã é a única verdadeira força de mudança", disse ela. "O islã é a solução para tudo." Deborah Weinberg

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