UOL Notícias Internacional
 

16/11/2007

Militantes paquistaneses avançam apesar do decreto de Musharraf

The New York Times
Jane Perlez e Ismail Khan

Em Peshawar, Paquistão
O general Pervez Musharraf, o presidente do Paquistão, disse que declarou o estado de emergência para dispor de poderes adicionais que lhe permitiriam rechaçar os militantes que estabeleceram um mini-Estado nas áreas tribais do Paquistão.

Mas nos últimos dias, os militantes expandiram seu alcance, capturando mais território nas áreas habitadas do Paquistão e afugentando policiais assustados, disseram autoridades de governos locais.

Por mais insignificante que possa parecer em um país de 160 milhões de habitantes, a tomada da sede do pequeno distrito de Alpuri nesta semana foi considerada um embaraço particular para Musharraf. Ela mostrou como os militantes ainda podem fazer frente ao exército paquistanês.

De fato, disseram autoridades locais e diplomatas ocidentais, há pouca evidência de que os 12 dias de decreto de emergência deram alguma vantagem ao governo no combate aos militantes, ou que Musharraf os tenha usado para tomar qualquer medida extraordinária para combatê-los.

Em vez disso, segundo eles, o estado de emergência provou ser mais uma distração, forçando Musharraf a se concentrar em sua própria sobrevivência política, enquanto o exército está apenas iniciando sua primeira operação ofensiva desde o decreto de 3 de novembro.

O sucesso dos militantes em Swat causou nova preocupação em Washington com a capacidade e vontade das forças paquistanesas em combater os militantes, que agora voltam sua atenção diretamente ao governo paquistanês, e não apenas às forças da Otan e americanas do outro lado da fronteira, no Afeganistão, disseram autoridades ocidentais.

Após várias semanas de confrontos pesados, os militantes praticamente controlam Swat, a região montanhosa que possui algumas das paisagens mais belas do Paquistão, e estão avançando para Shangla, ao leste. Todas estas cidades se encontram país adentro, fora das áreas tribais ou da fronteira afegã, onde a Al Qaeda, o Taleban e vários militantes estrangeiros e tribais expandiram seu controle nos últimos anos.

Em Alpuri, a sede administrativa de Shangla, uma multidão de militantes tomou facilmente a delegacia de polícia, apesar do estado de emergência, disse o prefeito, Ibad Khan. "Eles seguiram diretamente para a delegacia de polícia, que estava vazia", ele disse em uma entrevista por telefone. O oficial da delegacia fugiu. "Eu estou à procura dele", disse Khan. Ao ser perguntado por que a delegacia estava vazia, ele disse: "Eu me faço a mesma pergunta".

O ataque com fogo de artilharia contra posições dos militantes em vários subdistritos de Swat, e na vizinha Shangla, nos últimos dias, representou a primeira ação significativa do exército paquistanês na área, disseram oficiais de defesa ocidentais.

Um diplomata ocidental disse que um briefing militar do governo em Islamabad, na quinta-feira, foi organizado para convencer os países estrangeiros da viabilidade da ofensiva do governo. Em vez disso, disse o diplomata, a apresentação apenas ressaltou a falta de capacidade do exército paquistanês no combate à insurreição enquanto tenta enfrentar cerca de 400 militantes bem treinados e munidos na região.

No passado, o governo contava com forças paramilitares, o Corpo da Fronteira e a força policial para controlar Swat, que faz parte da província da Fronteira Noroeste.

Mais de 2 mil soldados do exército paquistanês foram enviados para a província em julho, mas eles permaneceram praticamente inativos, intimidados pela capacidade dos militantes de capturá-los.

O exército disse na quinta-feira que mais de duas dúzias de militantes foram mortos em confrontos desde o início das operações há três dias.

Mas o general Waheed Arshad, um porta-voz do exército, disse que suas forças não liberaram a principal estrada em Alpuri até a noite de quinta-feira.

Os militantes locais em Swat são liderados por Maulana Fazlullah, um carismático clérigo islâmico, e são reforçados por combatentes islâmicos de origem uzbeque, tajique e tchetchena, disseram moradores. Eles afirmaram que apesar dos rostos dos estrangeiros estarem cobertos por máscaras, fica claro que eles não falam pashtu, a língua local.

Fazlullah lidera o Movimento pela Implementação das Leis Islâmicas, um grupo ao estilo Taleban que forçou o fechamento de escolas para meninas e locadoras de vídeo. Ele divulga sua mensagem por rádio FM, uma técnica que o governo não coibiu. Os civis na área disseram que a chegada do exército há três dias não foi tranqüilizadora.

"O exército se deslocou para a área, mas até agora eu não vi nenhuma medida prática para resolver esta crise", disse Sher Muhammad, um advogado, em uma entrevista por telefone de Swat. "Nós estamos apenas aguardando. A situação está pior do que há 10 dias."

Civis já foram mortos, disseram moradores locais por telefone.

Em Kanju, uma cidade sob controle dos militantes, o exército disparou tiros de canhão sobre uma casa, matando quatro pessoas, disse Walyat Ali Khan, um advogado.

"O exército controla o aeroporto", disse Khan. "Mas os militantes controlam abertamente a estrada de um quilômetro do aeroporto até Kanju." Os militantes também controlam o trecho de 24 quilômetros de Kanju até Matta, uma cidade ao norte.

Em Koza Bani, outro distrito controlado pelos militantes, o exército sofreu mais baixas que os militantes, disse Amina Khan, que trabalha com uma organização local não-governamental. "Eu telefonei para o prefeito e ele disse que oito soldados morreram, com apenas três talebans mortos", disse Khan.

Em Kabal, Fazal Wahab, um farmacêutico, disse que o exército e as forças paramilitares do governo agora controlam a estrada principal. Três civis, incluindo um menino de 9 anos, foram mortos na quarta-feira por fogo de artilharia do governo, e com o toque de recolher do governo mantendo as pessoas dentro de casa na quarta-feira, estava difícil obter comida, ele disse.

Vários eventos nos 12 dias de lei marcial ilustram quão pouco impacto tiveram os maiores poderes de Musharraf sobre a expansão da insurreição.

Em 4 de novembro, um dia depois da declaração, Musharraf aprovou a libertação de 213 soldados que eram mantidos cativos por Baitullah Mehsud, um dos comandantes militantes mais poderosos nas áreas tribais, em troca de 25 militantes capturados em agosto.

Musharraf reconheceu em uma entrevista nesta semana que alguns dos militantes devolvidos a Mehsud foram treinados como homens-bomba, e um dos militantes tinha sido acusado de envolvimento em um ataque suicida.

O general disse que não ficou contente com o acordo, mas que o Paquistão precisava da volta dos soldados.

Um ataque suicida contra uma autoridade do governo em Peshawar, na semana passada, mostrou como os militantes passaram a visar as autoridades aliadas a Musharraf.

Amir Muqam, o ministro dos assuntos políticos nas áreas tribais, sobreviveu a um ataque suicida contra sua casa. Seu primo, que também era funcionário do governo, morreu na explosão.

O atentado contra Muqam provocou calafrios no governo. Ele foi cuidadosamente escolhido. Ele era membro da aliança de um partido religioso que nutria simpatia pelos militantes, depois mudou de posição e se juntou ao partido político do general, a Liga Muçulmana Paquistanesa, há vários anos.

Musharraf parecia apreciar tanto Muqam que o saudou em uma cerimônia pública como um amigo especial e lhe deu uma pistola de presente.

Apesar do número de militantes se limitar a centenas, eles causarão "dificuldades para o exército e custarão caro ao exército", disse Hasan-Askari Rizvi, um analista militar em Lahore.

Ele disse que os militares provavelmente conseguirão expulsar os militantes das cidades e aldeias. Mas os militantes se abrigariam nas montanhas e poderiam sobreviver ao inverno ilesos.

Os soldados, quase todos de fora da região e que se sentem forasteiros ali, não estão preparados para o que poderia ser uma guerra de guerrilha, ele disse.

Outro problema é a enxurrada de propaganda por parte dos clérigos religiosos na região. Estas mensagens que exortam os soldados a não travarem uma "guerra de estrangeiros", o que significa uma guerra em prol dos Estados Unidos, minaram o moral das forças paramilitares do governo que lideravam a luta, ele disse.

Tais mensagens podem facilmente ser voltadas contra o exército, disse Rizvi. "O exército nunca antes enfrentou um desafio tão sério nas áreas tribais ou em Swat." George El Khouri Andolfato

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