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18/11/2007

Amor moderno: um motor a diesel redespertou nosso casamento

The New York Times
De Melanie Gideon*
Sempre que meu marido diz casualmente "Querida, venha dar uma olhada neste site", eu sei que isto me custará caro. Todas as nossas maiores compras foram precedidas pela minha convocação ao seu computador desta forma. Há três anos, quando ele disse isso poucas semanas antes do seu 40º aniversário, eu soube que realmente me custaria caro, e não apenas financeiramente.

"Dê uma olhada nisto", ele disse apontando. "Não é legal?"

David Chelsea/The New York Times 
Tração 4x4, vidros escuros, teto solar e outras razões que poderiam acabar com casamentos

Eu olhei para o Ford E-350 na sua tela. Parecia o tipo de veículo que transporta aposentados até o shopping center local. "Mais ou menos", respondi.

Ele franziu a testa e disse: "Não é apenas uma van velha qualquer. É para acampar. Seria perfeita para nós. Você disse que queria conhecer o oeste."

Eu queria conhecer o oeste, ao menos em teoria. Na verdade, aquele foi um dos motivos para termos nos mudado com nosso filho pequeno para a Califórnia. Mas viajar exige muito planejamento e à medida que estou ficando mais velha eu estou cada vez menos disposta a tolerar desconforto: as multidões, o trânsito, todo mundo tentando chegar ao mesmo lugar ao mesmo tempo.

Os dedos dele continuam teclando. "Tem assentos de capitão."

"O que é um assento de capitão?"

"Significa que são muito, muito confortáveis."

"Legal", eu disse, voltando para meu livro.

Dez minutos depois ele disse: "Vou comprar uma para nós".

"Nós?" eu perguntei.

"Sim, nós. Sabe como é, eu e você."

Subentendo: você não tem sorte de estar casada com um homem que deseja comprar uma van para família como veículo para sua crise de meia-idade em vez de um Porsche Carrera GT?

A boa notícia é que ele encontrou uma van usada. A má notícia: era em Dakota do Sul. Então ele pagou alguém para voar até Dakota do Sul, pegar a van e trazê-la dirigindo.

"Foi um negócio excelente", ele me disse. "Ela só tem 24 mil quilômetros rodados e a mulher é uma pessoa interessada em vender rapidamente."

Assim que a van estava a caminho, meu marido me contou o que soube por meio do representante de vendas que intermediou o negócio pelo site. A mulher não era a proprietária original: era o filho dela. Ele comprou a van para praticar caiaque em lugares remotos. Mas um dia ele saiu com sua embarcação e nunca retornou. Aquela van o levou para sua morte. E agora sua mãe de coração partido a vendeu para nós.

"Você precisa devolver", eu lhe disse. "Ele morreu nela."

"Ele não morreu nela. Ele morreu no caiaque."

"Ora, também poderia ter morrido na van", eu disse. "Ele estava na van pouco antes de morrer."

Meu marido suspirou.

Eu queria que ele ficasse feliz para que ficássemos felizes. Parece que todo dia tomamos conhecimento de que outro casal jogou a toalha. Com mais freqüência do nunca, a esposa é quem deixa o marido.

Em conversas sobre divórcio com estas mulheres —mães, com eu, de filhos pequenos— falávamos de uma forma estenográfica que ricocheteava pela minha cabeça como rimas do "dr. Porsche Carrera".

Elas diziam: Sensação de morto. Morto na cama. Ronco demais. Deve haver mais.

Eu dizia: Vire a cabeça. Sua cabeça na cama. Você não terá mais. Não roncará mais.

Agora há uma abundância de motivos para acabar um casamento, mas toda vez que ouço sobre um novo divórcio eu não consigo deixar de reavaliar nosso próprio casamento. Eu quero mais? Será que ele quer? E o que fazer se o que eu tiver for suficiente?

Quando a van finalmente chegou, eu percebi que não era igual àquela que vi no site. Esta não era uma van comum para transporte de idosos. Era uma versão Rock Crawler com tração nas quatro rodas, vidros escurecidos, teto solar e prolongado que abre para cima. Feita para escalar desfiladeiros rochosos e atravessar rios, nossa van também contava com um dispositivo mata-burro portátil no pára-choque que deve ser útil para atravessar manadas de gnus em Serengeti, mas supostamente desnecessário nos subúrbios.

Enquanto contornava a van, tentando esconder meu choque, o simpático casal vizinho passou em seu Taurus. O homem esticou o pescoço para fora da janela, deu um soco no ar para meu marido e um grito de solidariedade. A mulher deu de ombros para mim, com seu rosto comprimido, como se pensasse: "Como isto afetará o valor da nossa propriedade?" O veículo preto era tão grande que não cabia no passeio de nossa garagem e sobrava um pedaço na rua.

"É mais uma caminhonete do que uma van", meu marido reconheceu.

"É sim", eu disse.

"Vamos dar a ela uma chance", ele disse.

Eu me senti virada do avesso, mas era as entranhas dele que estavam no meu exterior. Toda vez que saia pela porta, lá estava: 4.500 quilos de metal, mecânica e hidráulica anunciando para todo o bairro que alguém nesta casa estava tendo uma crise de meia-idade.

Ele tentou me seduzir com os encantos da van, que ele achou que me seduziriam: o chuveiro, o sanitário portátil, o motor diesel.

O motor diesel! Eles podem rodar milhões de quilômetros, ele alegou, e em um aperto eles podem rodar biodiesel de milho e batata.

O lado negativo do diesel é que mal conseguimos ouvir um ao outro em meio ao barulho do motor, e a comunicação com nosso filho, que parece estar a 2,5 metros atrás de nós no banco traseiro, é impossível.

Então desenvolvemos uma linguagem de sinais primitiva que consistia de gestos exagerados. Colher imaginária à boca: está como fome? Dedo apontado para a virilha: precisa ir ao banheiro? Cabeça da mãe abaixada entre as mãos: por que não olhei o site mais atentamente?

Meu marido tentou pedir minha opinião: "Vamos conversar sobre aonde ir em nossa primeira viagem de camping".

"Que tal o Oregon?" nosso filho sugeriu.

"Baja?" disse meu marido.

"San Francisco?" eu disse, que fica a oito quilômetros de distância.

Meu marido encomendou mapas. Traçou rotas. Conversou sobre o tempo e estratégias para mudança de marcha. Ele ainda não tinha percebido que eu não tinha intenção de ir a lugar algum naquela coisa. Ela cheirava a mofo e meu marido confessou que era preciso esvaziar o sanitário à mão.

"Qual é o sentido de um Porta Potti (sanitário portátil) se é preciso limpá-lo toda vez que o usa?" eu perguntei, tentando não gaguejar.

"É para emergências. Para quando estiver preso na estrada em uma nevasca."

"Por que estaríamos presos na estrada em uma nevasca?"

"Este é o sentido. Nós poderíamos ficar presos em uma nevasca. Não seria divertido? Nós seríamos os únicos na estrada aquecidos e em aconchego."

Porque todas as demais pessoas, ele deixou de acrescentar, teriam ouvido a previsão do tempo e ficado em casa.

No final eu precisei confessar para ele: "Eu não vou fazer uma viagem de camping".

"Você quer que a gente vá sem você? Sério?"

"Sim." O que na verdade eu queria dizer era: "Não, eu não quero que vocês vão sem mim, mas não quero ir para onde vocês estão indo".

Meu marido e filho continuaram discutindo a viagem sem mim. Eles decidiram que a primeira viagem de camping deles consistiria de uma noite de sábado em Point Reyes, a cerca de 80 quilômetros de nossa casa. Um último convite foi feito, mas eu educadamente recusei. Finalmente eu estava livre da obrigação.

Na manhã da expedição deles eu subi na van para carregá-la com os pedidos de jantar: cachorros-quentes, balas de goma e leite de soja sabor chocolate. Revirando a cabine, eu descobri algo socado no fundo. Era um mapa do Grande Rio Sioux em Dakota do Sul, deixado para trás pelo jovem que morreu.

Eu me senti estranhamente deslocada enquanto traçava os afluentes azuis com meus dedos. Eu o imaginei olhando para o mapa em seu último dia e perguntando a si mesmo: "Para onde irei a seguir?" Ele não poderia saber que "a seguir" para ele não seria um local muito bom. Mas que escolha ele tinha? Ficar em casa?

Seu zelo pela vida (ou mais propriamente, minha falta de zelo) me surpreendeu. Era possível que fosse eu quem estivesse tendo a crise de meia-idade?

Eu costumava ter menos medo. Nos primeiros anos de nosso casamento, meu marido e eu escalávamos montanhas, praticávamos canoagem em corredeiras classe 3 e acampávamos ao longo do caminho. Em noites chuvosas nós dormíamos em uma barraca, em noites estreladas dormíamos ao ar livre. Nós tínhamos 20 e poucos anos; nossas necessidades eram simples.

Nós vivíamos perigosamente, o que significa dizer que estávamos prontos para tudo. Nós não pensávamos quanto as coisas custariam. Nós apenas pensávamos no custo de não fazer as coisas. Exatamente o motivo para meu marido ter nos comprado a van, percebi repentinamente.

E então, de forma igualmente repentina, a notícia de um jogo remarcado do torneio de futebol do meu filho colocou um fim à excursão. Por ora, pelo menos. Mas nada deteria meus garotos: eles decidiram apenas acampar na entrada de casa.

Pela janela, eu os vi partirem. Meu filho estava fora de si em empolgação, agarrado ao seu travesseiro, com seu Nintendo DS pressionado contra o peito como uma Bíblia. Parecia até que ele estava indo para a Lua. Eles acenaram para mim enquanto subiam a bordo. Logo eu ouvi o barulho de música e as gargalhadas —eles estavam dando uma festa.

Eu quase nunca tive uma noite para mim mesma desde que meu filho nasceu. Em casa eu me servi uma taça de vinho e comi minha refeição birmanesa para viagem. Mais tarde, esticada na cama, cercada por pilhas de livros e revistas, eu me deleitei em meu conforto. Mas à medida que as horas passavam, um vago desconforto tomou conta de mim, um estranho sentimento de claustrofobia que não envolvia o espaço físico em que estava, mas a vida protegida que estava vivendo.

Pouco depois da meia-noite, eu finalmente empurre as cobertas, agarrei meu travesseiro e deixei nossa cama quente. Do lado de fora, o ar frio cheirava a eucalipto e marshmallows assados. Ao longe, uma coruja piava. Eu sabia que os colchonetes seriam duros, o espaço apertado e que provavelmente não dormiria. Mas eu abri a porta da van e entrei assim mesmo. As duas pessoas que eu mais amava no mundo estavam lá, juntamente com a promessa de uma vida mais rica e aventurosa.

Isto é, assim que deixássemos o passeio de casa.

*Melanie Gideon, autora de três romances, vive em Oakland, Califórnia George El Khouri Andolfato

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