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18/11/2007

Repensando o que causou a última extinção em massa de animais

The New York Times
John Noble Wilford
Em Freehold, Nova Jersey
Enlameados na travessia de um riacho na região suburbana de Nova Jersey, paleontólogos reconstituíram o mundo de 65 milhões de anos atrás, ao tempo da última extinção em massa de espécies animais, notável por ter provocado o desaparecimento dos dinossauros.

O riacho corre sobre sedimentos depositados ao final do período geológico conhecido como Cretáceo. A argila ao nível da água contém significativos vestígios de irídio, elemento químico mais comum em asteróides e outros objetos extraterrestres do que na Terra. Na expedição ninguém pôde resistir à tentação de colocar o dedo no barro, como se aquilo fosse uma evidência da viagem pelo tempo.

Cientistas associam a anômala presença do irídio ao impacto ou impactos com asteróide, o que teria deflagrado a extinção das espécies. A fina camada, que foi detectada em todo o mundo, também é considerada um marco que estabelece o final do Cretáceo e início do período Terciário, e a camada é conhecida como a fronteira K-T.

Na época, os níveis do mar eram mais elevados e Nova Jersey era uma região mais quente. As águas proto-atlânticas chegavam à região central de Nova Jersey atingindo mais de 20 metros de profundidade, no mesmo local onde num dia recente paleontólogos caminhavam pelo córrego com água pelos tornozelos. Eles olhavam atentamente os sedimentos na camada do banco de areia que estava logo acima do barro com irídio. Eles a chamam de camada Pinna.

Em visitas anteriores, eles tinham encontrado na mistura de rocha e terra da camada Pinna uma incidência surpreendente de fósseis marinhos, incluindo pequenos moluscos, caranguejos e ouriços do mar. Havia uma abundância de amonitas, organismos considerados como indicadores da evidência do ambiente Cretáceo Superior. De alguma forma, pelo menos aqui, a vida parece que não apenas persistiu, mas que também floresceu por dezenas de anos, talvez centenas de anos, após o suposto impacto com o asteróide.

"A descoberta realmente está colocando Nova Jersey no mapa da chamada fronteira K-T", segundo o dr. Neil H. Landman, paleontólogo de invertebrados no Museu Americano de História Natural, que está dirigindo a nova expedição na bacia do rio Manasquan.

A descoberta da emergente comunidade de sobreviventes do fim do Cretáceo está levando alguns cientistas a uma revisão de suas teorias sobre causas e efeitos da extinção. Alguns questionam a explicação convencional, de que um único grande impacto teria envolvido a Terra em uma nuvem de poeira e quase instantaneamente deflagrado um mortal inverno global. Eles alegam que esta pode ser uma simplificação exagerada, e que a verdadeira história por trás da catástrofe que exterminou os dinossauros é mais complicada e ainda está para ser esclarecida.

"É inegável que o registro de irídio na base da camada Pinna foi produzido pelo impacto", segundo Landman. "É surpreendente, e isso torna mais difícil explicar a abundância de amonita que encontrarmos acima da anômala incidência de irídio."

A dra. Gerta Keller, paleontóloga e professora de geociências na universidade de Princeton, disse que a investigação feita por Landman e sua equipe "mostra a complexidade do evento da extinção e a dificuldade que temos em explicá-lo pela teoria mais popular do momento, a do (único) impacto."

A dra. Keller, que não participou da descoberta de Nova Jersey, investigou a camada "fronteira K-T" que existe no Brasil, no México e no Texas, encontrando evidências que segundo a cientista indicam múltiplos impactos provocados por asteróides que teriam ocorrido no final do Cretáceo. Ela chegou a relatar que o impacto que atingiu a cratera Chicxulub num dos pontos extremos da Península de Yucatan, no México, considerado o principal suspeito da extinção, desceu à Terra pelo menos 300 mil anos antes da extinção dos dinossauros.

Numa reunião da Sociedade Geológica Norte-Americana, na semana passada, Keller relatou a existência de fósseis marinhos como provas ligadas à extinção generalizada das espécies, teoria relacionada ao fato de que esses fósseis surgiram de erupções vulcânicas que varreram a região da Índia no fim do Cretáceo.

Em outras palavras, o ecossistema global foi submetido a impactos amplos e generalizados por um longo tempo. As extinções em massa das espécies pode ter tido múltiplas causas e etapas - não necessariamente ocorreram num único impacto de asteróide com morte quase instantânea, como surgiu numa hipótese em 1980, após a detecção da camada global de irídio.

Assim que foram relatadas as descobertas dos fósseis em Nova Jersey, os paleontólogos agiram com precaução. Após analisarem 37 amostras de sedimentos provenientes de três sítios arqueológicos no córrego e de outros locais da bacia, os geólogos concluíram que as amostras continham uma notável concentração de irídio na camada Pinna. Ainda assim Landman acreditava que possivelmente o irídio teria se deslocado ao longo do tempo, o que sempre confunde a cronologia.

Mas após as descobertas, Landman foi se convencendo que a camada de irídio no córrego permaneceu onde foi depositada. A camada é provavelmente um verdadeiro marco histórico do impacto de um asteróide com repercussões globais, e que isso embaralha ainda mais a compreensão da extinção em massa das espécies. Surgem questões como, por exemplo, por que no córrego não há provas da destruição pós-impacto quase imediata, como seria de se supor pela teoria vigente?

Pois foi uma obra de engenharia que levou cientistas a descoberta. Escavações para uma nova ponte, há três anos, deixaram exposta uma seção de rochas que remontam à fronteira K-T. Num relatório técnico divulgado este ano, Landman e seu grupo de pesquisadores escreveram que a seção de rochas continha "a mais abundante e diversificada junção de invertebrados já descoberta nessa faixa de profundidade em Nova Jersey".

As primeiras investigações começaram com Ralph O. Johnson, paleontólogo em grande parte autodidata mas que é considerado um perito, que vive na região de West Long Branch. Os estudos revelaram vestígios de um estrato rico em fósseis detectados em afloramentos (seções) intactos ao longo deste córrego. O riacho não tem nome em mapas, mas os cientistas, considerando os arbustos espinhentos e as parreiras entrelaçadas da região, resolveram batizá-lo de Riacho da Agonia (Agony Creek).
"Você não precisa ir à Mongólia para descobrir fósseis importantes", segundo Johnson. "Esses afloramentos estão situados no meio dos subúrbios, a quatro quilômetros de minha casa. Como é que não foram descobertos até agora?"

Caminhando rio abaixo, Landman, Johnson e Matthew P. Garb, estudante do doutorado em geologia do Brooklyn College, chegaram a um lugar que parecia bom para a prospecção. Molhados e sujos, começaram a trabalhar - homens crescidos acampados ali à beira de um córrego, aparentemente apenas fazendo montinhos de lama.

Na verdade, eles estavam cortando as arestas da camada Pinna e, portando picaretas, facas e pincéis, extraíam e analisavam os restos de supostos sobreviventes que permaneceram no rescaldo da extinção em massa do período K-T. Pelo menos 110 espécies de organismos marinhos que viviam perto da costa foram identificados na camada Pinna, Landman explicou. Esta foi uma comunidade resistente, que viveu durante um curto período de tempo em termos geológicos, talvez várias dezenas de anos. Mas a camada Pinna fica um tanto truncada em seu topo, o que segundo os cientistas leva à conclusão de que ocorreu um período ainda maior, de centenas de anos.

Mais tarde, de volta ao seu museu laboratório em Manhattan, Landman exibiu tabuleiros de amonitas, sua especialidade científica. Estes organismos apareceram pela primeira vez no período Devônico, há cerca de 410 milhões de anos. Verificaram-se 30 espécies conhecidas ao final do Cretáceo, e após as extinções em massa, já não havia nenhuma. Parentes próximos das amonitas, os nautilóides sobrevivem, talvez por serem necrófagos, animais que se alimentam de restos de orgânicos e que vão comer quase de tudo.

Nos tabuleiros estava uma coleção de espécimes oriunda do córrego. Dez espécies de amonitas foram recuperadas da camada Pinna, presumivelmente surgida após o impacto. Uma delas, a Discoscaphites jerseyensis, é exclusivamente procedente de Nova Jersey.

Segundo Landman, depois do evento que produziu os resíduos de irídio, e da ocorrência de qualquer outra eventual catástrofe conexa, as extinções não aconteceram de imediato em toda a parte, e certamente não ocorreram entre os organismos marinhos na costa de Nova Jersey.

"Isto é o que eu imagino ter acontecido", diz o cientista. "Tempestades de proporções bíblicas e uma violenta sucessão de inundações podem ter enterrado os sedimentos rapidamente. Comunidades marinhas podem ter florescido imediatamente após esses eventos, como resultado da acumulação de uma grande quantidade de material orgânico, como o plâncton, que morreu e ficou depositado nas profundezas, sendo consumido pelos tais seres marinhos."

Alguns outros paleontólogos também têm dúvidas sobre o cronograma da extinção em massa e sobre a ocorrência súbita de apenas um único impacto destruidor. A idéia de um impacto fulminante, que se tornou a teoria-padrão, foi proposta em 1980, com base em vestígios de irídio; ganhou ampla aceitação, após a descoberta, em 1991, da cratera fulminada no México. Mas em alguns outros locais o registro de fósseis de dinossauros parece desaparecer um pouco antes da consolidação do depósito de irídio. Geólogos encontraram vários outros elementos remanescentes de crateras que poderiam ter sido provocados por asteróides e também descobriram vulcões "suspeitos" na Índia.

Landman diz não estar certo sobre a duração do tempo em que as amonitas de Nova Jersey viveram acima da marca do irídio, mas acredita que "não poderiam ter sobrevivido 300 mil anos", como sustenta a dra. Heller de Princeton.

No sítio arqueológico do "Riacho da Agonia", acima dos fósseis da camada Pinna, a Formação de Hornerstown conserva um registro de vida incipiente, que começou algumas centenas de anos após o evento ou os eventos da extinção em massa. Ali foram encontradas não só pequenas conchas com ostras de uma certa espécie, como também algo mais... Marcelo Godoy

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