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19/11/2007

Reino Unido quer organizar o terceiro Dia Sem Música

The New York Times
De Michael White
Em Londres
A vida sem música seria um erro, afirmou Nietzsche sem rodeios. Mas esse é um erro que muita gente no Reino Unido está preparada para cometer, pelo menos durante 24 horas na próxima quarta-feira, quando será pedido à nação que faça o seu terceiro e anual Dia Sem Música.

Segundo o website oficial (www.nomusicday.com), "iPods serão deixados em casa", "bandas de rock não tocarão", "garotos de coral calarão a boca", "os jingles não soarão". Tudo isso, é claro, não passa de um desejo impossível, já que o "No Music Day" não tem nenhum valor legal. É simplesmente a idéia de um homem: o escritor rebelde, pensador, artista conceitual e ex-astro de rock Bill Drummond, cuja história como um dos membros da banda KLF, do início da década de 1990, confere a ele uma certa autoridade quando a questão é a auto-negação artística.

No auge do seu considerável sucesso, a KLF deixou abruptamente de tocar, apagou o seu catálogo inteiro e —sem nenhuma boa razão da qual Drummond atualmente se recorde— queimou publicamente o último milhão de libras esterlinas (o equivalente, em valores atuais, a mais de US$ 2 milhões ou quase R$ 3,5 milhões) de seus rendimentos. Desde então Drummond dirigiu os seus interesses para as atividades avant-garde e passou a pensar sobre a vida sem a fama. Mas, de maneira mais ampla, ele tem pensado na vida sem música, estimulado, segundo o artista, "pela sensação de que a música não estava tendo o efeito que eu desejava que ela tivesse sobre mim".

"Lembro-me de ir até lojas de discos e concluir que havia música demais. Daí, passei a pensar em como seria ficar sem música por um ano, um mês, uma semana, e nada disso pareceu prático. Assim, um dia decidi fazer algo. E foi dessa forma que a coisa começou: uma iniciativa inteiramente pessoal, cujo objetivo nunca foi ser uma cruzada, mas que, não obstante, teria caráter público".

Ele escolheu o 21 de novembro, porque 22 de novembro é o dia de Santa Cecília, a padroeira da música, e fazer uma manifestação na véspera dessa data seria algo coerente com tradições como a de comemorar o Mardi Gras, o equivalente ao Carnaval de lá, antes do início da Quaresma.

A coisa toda pode soar como uma das idéias conceituais de Drummond, ou, pior ainda, como um ato de exibicionismo. Mas nos três anos anteriores o No Music Day já trouxe conseqüências práticas. Neste ano, por exemplo, não haverá música na Rádio BBC Escócia, e milhares de pessoas que visitaram o website do No Music Day prometeram fazer silêncio.

Nem todos os comentários no website são de aprovação. Mas a maioria das pessoas que o visitam prometem "cortar as cordas das guitarras dos músicos de rua", ou, mais pacificamente, "fazer as minhas atividades no esplendor do silêncio".

"O que temos não é mais música", argumenta uma das mensagens similares. "Trata-se de ruído de fundo. É uma jogada para atingir um grupo demográfico, um público alvo".

E aqui temos a questão resumida. As pessoas apreciam a idéia do dia sem música porque acreditam que a comercialização da música atingiu um ponto de saturação: música demais, à qual se tem acesso de maneira muito fácil.

A argumentação não é nova. E historicamente ela foi feita por músicos famosos. Quando Benjamin Britten recebeu o primeiro Prêmio Aspen para o avanço da cultura em 1964, ele dedicou uma parte do seu discurso de aceitação do prêmio à condenação da música gravada e instantaneamente disponível. "O auto-falante é o principal inimigo da música" disse ele, tomando o cuidado de acrescentar que reconhecia que esse equipamento é importante "como um meio de educação e estudo".

Não dá para saber como —se seguíssemos os conselhos de Britten— teríamos lidado com a era dos aparelhos estereofônicos pessoais, iPods e similares. E existe um elemento de paradoxo nas palavras de Britten, vindas de um homem que passou grande parte da sua vida em estúdios de gravação, promovendo a disseminação dos seus próprios trabalhos para tirar vantagem disso. E, além do mais, o mundo claramente beneficiou-se do fato de contar com o acesso fácil aos trabalhos não só de Britten, mas também de Bach, Mozart e Beethoven.

Mas a reclamação por trás do No Music Day também leva em conta as músicas que não escolhemos: a música —ou, para usar um termo mais apropriado, Muzak (música de fundo)— que agride os nossos ouvidos desprotegidos a partir de auto-falantes e aparelhos de televisão instalados em restaurantes, bares, lojas, saguões de hotel e no local de trabalho. Os músicos profissionais tendem a desprezar a Muzak, e no ano passado juntou-se à legião desses profissionais insatisfeitos com o fenômeno o pianista e maestro Daniel Barenboim, que abordou a questão, enfurecido, nas suas Palestras Reith, divulgadas internacionalmente.

A resposta ao ataque feito por Barenboim foi tamanha que a BBC decidiu promover uma pesquisa a respeito. A rádio solicitou aos ouvintes que estes mantivessem um diário das músicas que surgiam, por escolha deles ou não, em suas vidas em um período de 24 horas, incluindo desde o canto dos pássaros até as baladas comerciais de rádio e as melodias eletrônicas dos telefones celulares.

O resultado revelou uma média de duas horas e 46 minutos de música escolhida pelo ouvinte, contra uma hora e 16 minutos de música não solicitada. E as reações às músicas não solicitadas foram 38% negativas, 28% positivas e 34% neutras: uma conclusão ambígua que potencialmente apoiou tanto o lobby favorável quanto o contrário à Muzak. Nem todos disseram detestar a música de elevador— a maioria das pessoa não se opôs ativamente a ela—, mas o maior grupo distinto mostrou-se hostil a esse tipo de música.

Alguns entrevistados disseram que apreciam a descoberta acidental de novas músicas que surgem em um rádio permanentemente ligado. Muitos afirmaram gostar dos músicos de rua, mas condenaram o hábito de cantar no trabalho. E os psicólogos não perderam tempo em enfatizar a relação comprovada entre a audição de música e a elevação do estado de espírito.

Bastante contundente foi a posição de um grupo chamado Pipedown International, que há 15 anos faz campanha no Reino Unido (e que agora conta com a companhia de um ramo norte-americano) contra a Muzak em todas as suas formas. O grupo argumenta que, como a apreciação musical é uma questão de gosto, a imposição tende a irritar um número de pessoas pelo menos tão grande quanto o das que se sentem positivamente estimuladas.

"Pensem no sofrimento dos funcionários de lojas que são obrigados a ouvir a mesma fita sem parar, especialmente nas temporadas de festas", diz Nigel Rodgers, o fundador do Pipedown. "Segundo o Real Instituto Nacional para Deficientes Auditivos, um funcionário médio de uma loja ouve "Jingle Bells' 300 vezes nos dias que antecedem o Natal —o que é suficiente para enlouquecer uma pessoa. E o mesmo ocorre em restaurantes e hotéis: é ruim para os fregueses, e ainda pior para os funcionários".

Um grupo pequeno, mas poderoso, o Pipedown inclui entre os seus membros o maestro Simon Rattle e o violoncelista Julian Lloyd Webber, que é bem direto em relação àquilo que ele chama de "o câncer disseminado da música de fundo por toda parte: uma poluição auditiva tão nefasta quanto a fumaça de cigarros".

No nível individual, os membros do Pipedown levam consigo cartões impressos que são fornecidos a gerentes de lojas e restaurantes. Os cartões são classificados em ordem de aprovação desde o "Obrigado por não colocar música" até o "A sua música fez com que você perdesse este freguês". De forma mais ampla, o grupo existe para fazer lobby junto ao parlamento britânico (onde o Pipedown está atualmente apoiando um projeto de lei para banir a Muzak dos hospitais) e para apresentar a sua posição aos diretores das grandes lojas.

"Conseguimos persuadir duas grandes redes de supermercados, a Tesco e a Sainsbury, a não reproduzir música nos seus corredores" diz Rodgers. "E suponho que a nossa maior vitória até o momento tenha sido a de persuadir o Aeroporto Gatwick a não desistir depois que uma pesquisa revelou que 43% dos passageiros não gostam desse tipo de música, 34% gostam e o restante é neutro. Mas perdemos outras batalhas, incluindo a da Marks & Spencer's, de forma que há um longo caminho a trilhar. E é por isso que apoiamos o No Music Day, embora, para nós, um dia por ano não seja suficiente".

Mas este único dia será significante neste ano na Escócia, com a decisão da Rádio BBC de não transmitir música. O produtor responsável, David McGuinness, diz que isso significa que "não haverá músicas, bandas ou orquestras".

"Mas quer dizer também que não haverá músicas para a introdução de noticiários, o que fará uma diferença qualitativa no que fiz respeito aos aparelhos de som que compõem uma estação de rádio", diz ele. "Estamos também fechando por um dia o website de música da BBC Escócia, que é um grande portal de música. E, para levar a mensagem às ruas, estamos despachando um esquadrão do No Music Day para simular a prisão de cidadãos que estiverem usando fones de ouvido".

Ou seja, jogada exibicionista.

"Não, não é nada disso", retruca McGuinness. "É claro que há um elemento de diversão, ou eu espero que haja. Mas também existe uma declaração muito séria embutida nessa ação. Queremos que as pessoas entendam como a música tornou-se onipresente, como ela invade as nossas vidas de maneira que não percebemos, e desejamos desafiá-las a parar e pensar no que isso significa, a ponderar como poderiam ser mais informadas nas suas escolhas. Essas são ações importantes. Não são de forma alguma brincadeiras teatrais".

Enquanto isso, Bill Drummond tem ambições para o futuro do No Music Day. "No ano que vem quero organizar uma busca nacional por filmes sem trilha sonora", diz ele. "E no ano seguinte espero fazer com que o iTunes deixe de funcionar por 24 horas. Isso será um desafio. Mas estou cheio de disposição". UOL

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