UOL Notícias Internacional
 

20/11/2007

Crise na Somália é a pior da África, dizem funcionários da ONU

The New York Times
Jeffrey Gettleman
Em Afgooye, Somália
A pior crise humanitária na África pode não estar ocorrendo em Darfur, mas sim aqui, ao longo de uma faixa de 32 quilômetros de asfalto quebrado, disseram vários funcionários da ONU.

Há um ano, a estrada entre a cidade-mercado de Afgooye e a capital Mogadício era apenas outra típica via secundária somali, margeada por cactos e um ocasional prédio crivado de balas. Agora é um corredor repleto de miséria, com 200 mil pessoas deslocadas, recentemente socadas em campos lotados, que estão ficando rapidamente sem comida.

 Mustafa Abdi/AFP -10.nov.2007 
Mulher é carregada em carrinho ao fugir de conflitos na capital Mogadício

Natheefa Ali, que percorreu a pé esta estrada há uma semana para escapar do banho de sangue em que Mogadício se transformou, disse na segunda-feira que sua filha de 10 meses estava tão desnutrida que não conseguia engolir.

"Veja", disse Natheefa, apontando para as pernas cheias de nódoas de sua filha, "a pele dela também está desprendendo".

Altos funcionários da ONU que trabalham na Somália disseram que o país apresenta índices maiores de desnutrição, mais derramamento de sangue em andamento e menos trabalhadores humanitários do que em Darfur, que freqüentemente é divulgada como a crise humanitária mais urgente do mundo e obteve prioridade em termos de recebimento de ajuda de forças de paz e dinheiro.

O implacável combate urbano em Mogadício, entre o impopular governo transitório -instalado em parte com ajuda americana- e uma insurreição islâmica determinada, lançou ondas de pessoas desesperadas pela estrada de Afgooye, onde mais de 70 campos de tendas de galhos e plástico surgiram como que da noite para o dia.

As pessoas aqui estão com fome, expostas, doentes e morrendo. E as poucas organizações de ajuda dispostas a enfrentar o ambiente notoriamente sem lei e perigoso não conseguem atender suas necessidades, como fornecer leite para os milhares de bebês com batimento cardíaco fraco e olhos esbugalhados. "Muitas destas crianças vão morrer", disse Eric Laroche, o chefe de operações humanitárias da ONU na Somália. "Nós não temos capacidade de chegar até elas."

Ele acrescentou: "Se isto estivesse acontecendo em Darfur, haveria um grande estardalhaço. Mas a Somália há anos é uma emergência esquecida".

Os funcionários que trabalham na Somália estão tentando atrair mais atenção para a situação do país, que sentem estar à sombra de Darfur. Eles organizaram recentemente várias viagens, incluindo uma na segunda-feira, para jornalistas.

"A situação na Somália é a pior no continente", disse Ahmedou Ould-Abdallah, o mais alto funcionário da ONU para a Somália.

A situação inclui enchentes, secas, pragas de gafanhotos, homens-bomba, bombas de estrada e assassinatos quase diários.

Os funcionários da ONU disseram que a recente série de pragas, naturais ou provocadas pelo homem, somada ao caos residual que consome a Somália há mais de uma década, deixou o país à beira da fome. Nas áreas mais atingidas, como Afgooye, pesquisas recentes indicam que a taxa de desnutrição é de 19%, em comparação a cerca de 13% em Darfur; 15% é considerado o limiar de emergência.

Os funcionários, ao fazerem a comparação, não estão tentando diminuir os problemas em Darfur, onde mais de 200 mil pessoas morreram de doenças ou violência desde 2003. Mas eles disseram estar preocupados com o fato de a crise aqui ser cada vez mais urgente.

Diferente de Darfur, onde o sofrimento está sendo minimizado por uma operação de ajuda bilionária e que conta com mais de 10 mil trabalhadores humanitários, a Somália ainda é considerada em grande parte uma zona proibida. Apenas na semana passada, um trabalhador humanitário somali e um guarda foram mortos a tiros em um centro de distribuição de ajuda em Afgooye. Funcionários da ONU estimam que o total em ajuda de emergência seja de menos de US$ 200 milhões (cerca de R$ 353 milhões), em parte por ser muito difícil conseguir a entrada de alimento no país.

Os piratas que espreitam a costa da Somália atacaram mais de 20 navios neste ano, incluindo dois que transportavam alimentos da ONU. As milícias que mandam nas ruas -geralmente adolescentes armados usando óculos escuros e sandálias de tiras- aumentaram os pedágios nos bloqueios de estrada para US$ 400 (R$ 706) por caminhão. O governo transitório prendeu no mês passado um alto funcionário do programa de alimento da ONU na Somália, o acusando de ajudar os terroristas, apesar de posteriormente ele ter sido solto.

Os funcionários da ONU reconhecem que o país estava melhor durante o breve governo do movimento islâmico no ano passado. "Estava mais pacífico e muito mais fácil para trabalharmos", disse Laroche. "Os islamitas não nos causavam nenhum problema."

Ould-Abdallah chamou aqueles seis meses, que basicamente foram o único período de paz que a maioria dos somalis provou em anos, de a "era de ouro" da Somália.

Os males da Somália sempre vieram em ondas, começando em 1991, quando milícias baseadas em clãs derrubaram o governo central, lançando o país na anarquia. Aquele combate, como o atual, afetou os mercados, impediu a chegada dos carregamentos de ajuda e levou a uma rápida inflação do preço dos alimentos. Como resultado, centenas de milhares de pessoas passaram fome.

Os Estados Unidos tentaram ajudar em 1992, enviando milhares de soldados para a Somália para dar assistência às operações humanitárias.

Mas as tropas americanas foram retiradas abruptamente depois que milicianos somalis derrubaram dois helicópteros Black Hawk em Mogadício, em outubro de 1993.

Depois daquilo, os Estados Unidos -e grande parte do restante do mundo- basicamente deram suas costas à Somália. Mas em meados de 2006, o mundo começou novamente a prestar atenção depois que um movimento islâmico popular surgiu em meio ao caos dos clãs e tomou o controle de grande parte do país.

Os Estados Unidos e a Etiópia, a vizinha e rival da Somália, rapidamente rotularam os islamitas de ameaça e os acusaram de abrigarem terroristas da Al Qaeda.

Dentro da Somália, os islamitas eram muito populares, pelo menos inicialmente. Mas então superestimaram suas próprias cartas e declararam uma guerra santa contra a Etiópia em dezembro de 2006, o que provocou uma resposta etíope esmagadora. Os comandantes militares americanos forneceram imagens chave por satélite para as tropas etíopes enquanto cruzavam a fronteira somali; aviões americanos bombardearam os islamitas em fuga. Um funcionário americano disse que a operação foi considerada um sucesso antiterrorismo.

O governo transitório chegou a Mogadício no final de dezembro. Desde então ele luta contra uma insurreição que é uma mistura de combatentes islâmicos, clãs rivais e aproveitadores que fizeram fortuna com a anarquia, seja importando alimentos para bebês com validade vencida ou arrendando terras do governo.

"Esses criminosos são nosso maior problema", disse Abdi Awaleh Jama, um embaixador do governo transitório.

A União Africana prometeu enviar uma força de paz com 8 mil soldados para ajudar. Mas devido ao foco na formação de uma força de 26 mil soldados para Darfur, apenas 1.600 ugandenses chegaram. Claramente, alguns dos problemas da Somália não são culpa do governo. Nem o ciclo de enchentes e secas que deixou uma camada impenetrável de sedimentos duros como rocha sobre os campos da Somália, causando a pior safra de cereais em 13 anos.

Mas a maioria dos diplomatas ocidentais concorda que a menos que o governo transitório dialogue com os elementos islamitas e se torne mais inclusivo, ele fracassará -como os 13 governos transitórios que o precederam.

"Este governo não controla um palmo do território da fronteira queniana até Mogadício" disse um diplomata ocidental, que falou sob a condição de anonimato, citando o protocolo diplomático.

Abdullahi Yusuf Ahmed, o senhor da guerra que se transformou em presidente transitório, forçou recentemente a queda do primeiro-ministro e está procurando substituí-lo por um líder capaz de superar as divisões entre os clãs.

"Esta é basicamente a última chance", disse o diplomata ocidental.

Mas as pessoas nos campos de Afgooye não têm muita fé. "Nós queremos a volta dos islamitas", disse Mohammed Ahmed, um enrugado motorista de táxi aposentado de 80 anos.

Mohammed disse não ser particularmente religioso. "Mas ao menos tínhamos comida." George El Khouri Andolfato

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