UOL Notícias Internacional
 

22/11/2007

A ascensão das finanças islâmicas

The New York Times
Wayne Arnold

Em Kuala Lampur, Malásia
A crescente riqueza do petróleo está erguendo o sistema bancário islâmico -um sistema bancário que segue as leis do Alcorão e sua proibição de cobrança de juros- até o mainstream financeiro.

Os grandes bancos, incluindo Citigroup, HSBC e Deutsche Bank, assim como capitais financeiras como Londres, Tóquio e Hong Kong, estão todos ingressando no ramo bancário islâmico. Cerca de 300 instituições financeiras islâmicas detêm pelo menos US$ 500 bilhões em ativos, e os depósitos estão crescendo em mais de 10% ao ano.

Além de empréstimos islâmicos, há títulos islâmicos, cartões de crédito islâmicos e até mesmo mercados derivativos islâmicos. Empréstimos e títulos de acordo com o Alcorão já estão disponíveis nos Estados Unidos. E Reino Unido, Japão e Tailândia estão contemplando a emissão de seus próprios títulos islâmicos.

Palani Mohan/The New York Times 
Malasianas conversam diante do prédio da Citibank em Kuala Lumpur

No sistema bancário islâmico, os financistas são obrigados a compartilhar os riscos dos tomadores, o que significa que os depositantes são tratados mais como acionistas, ganhando uma parte dos lucros. Acordos de financiamento lembram acordos de leasing, planos de parcelamento com entrega após a quitação, acordos de compra e venda conjunta ou parcerias.

"Este é um setor que passou de um nicho de mercado para um setor realmente global", disse Khawaja Mohammad Salman Younis, diretor administrativo para operações na Malásia para o Kuwait Finance House, o segundo maior banco islâmico do mundo atrás do Al-Rajhi Bank. "Nos próximos três a cinco anos você verá bancos islâmicos surgindo na Austrália, China, Japão e outras partes do mundo."

A corrida ao sistema financeiro islâmico é principalmente um esforço para explorar os cerca de US$ 1,5 trilhão em fundos parados ao redor do Oriente Médio, principalmente oriundos dos preços mais altos do petróleo. Antes de 11 de setembro de 2001 muito deste dinheiro do petróleo estava estacionado nos Estados Unidos, Reino Unido e Suíça, mas os banqueiros dizem que agora muitos árabes ricos estão investindo mais perto de casa, em parte para evitar o maior escrutínio. Ao mesmo tempo, muitos investidores do Oriente Médio estão ávidos em capitalizar em cima do crescimento vertiginoso da Ásia.

Segundo algumas estimativas, até US$ 800 bilhões em dinheiro árabe migraram dos Estados Unidos e Europa para outras regiões. Tais investimentos ajudaram a promover um renascimento econômico por todo o mundo muçulmano em um momento de maior conservadorismo religioso entre os 1,6 bilhão de fiéis do Islã.

O resultado é uma crescente demanda por serviços financeiros que sigam a lei islâmica, ou sharia.

"A classe média tem o luxo de tomar estas decisões entre islâmico ou não islâmico", disse Nordin Abdullah, que dirige a KasehDia, uma firma de Kuala Lumpur que presta consultoria para empresas sobre como estar de acordo com a sharia. "São pessoas instruídas e que possuem dinheiro."

No ano passado, o maior emprestador da Arábia Saudita, o National Commercial Bank, reformou todo seu setor de varejo para adequá-lo à sharia. Tunísia e Marrocos autorizaram seus primeiros bancos islâmicos neste ano.

E apesar dos maiores bancos islâmicos estarem nos ricos países do Golfo, os potenciais mercados mais atrativos estão na Turquia, no Norte da África e entre os muçulmanos da Europa. A Indonésia, o país muçulmano mais populoso, com mais de 190 milhões de muçulmanos, é o filão principal.

A Malásia, um país predominantemente muçulmano com um governo secular e uma economia em rápido crescimento movida pela exportação, despontou como um centro para o desenvolvimento do setor. Aqui, mesmo não muçulmanos estão tirando proveito da crescente diversidade de produtos islâmicos que oferecem retornos competitivos.

Por exemplo, David Ong-Yeoh, um executivo de relações públicas cansado de se preocupar com o aumento dos juros sobre o valor corrigível de sua hipoteca, refinanciou um empréstimo fixo de 30 anos junto a uma instituição financeira islâmica. Agora, ele paga prestações fixas que incluem uma margem de lucro predeterminada para o banco.

"Os termos são melhores do que os dos empréstimos convencionais", disse Ong-Yeoh, 41 anos.

O sistema financeiro islâmico também evita práticas proibidas segundo a sharia: os banqueiros islâmicos não podem receber ou fornecer fundos para qualquer coisa envolvendo álcool, jogo, pornografia, tabaco, armas ou carne de porco.

Os defensores do sistema bancário islâmico dizem que estes são limites que qualquer investidor socialmente consciente pode tolerar, muçulmano ou não. Eles também prevêem o grande apelo da proibição dos juros no sistema bancário islâmico, que deriva da proibição do Alcorão à usura.

Esta é uma visão que conta com longa tradição religiosa e histórica. A cobrança de altas taxas de juros para empréstimo de dinheiro é repetidamente condenada na Bíblia. O filósofo grego Aristóteles a criticava, os romanos a limitaram e a Igreja cristão primitiva a proibia.

Os teólogos ocidentais posteriormente distinguiram os juros da usura e eles foram reintroduzidos aos cristãos e muçulmanos por volta da Renascença.

Mas quando os britânicos se aproveitaram da crescente dívida externa do Egito em 1875 para comprar uma participação no Canal de Suez egípcio e ocupar o país, isso gerou uma revolta contra o sistema bancário tradicional no mundo muçulmano. A crença de que toda a cobrança de juros é injusta agora serve de base para o sistema financeiro islâmico.

"Se trata de respeitar os interesses das diferentes partes, evitando tirar proveito de qualquer situação de qualquer outra parte e implementar um tratamento justo", disse Rasheed Mohammed al-Maraj, presidente do banco central de Bahrein.

Entesouramento não é visto com bons olhos no Alcorão, de forma que a poupança não tem retorno a menos que tenha uso produtivo. "O dinheiro deve ser usado para criação de melhor valor no país ou na economia", disse Mara. "O dinheiro não pode gerar dinheiro."

Os bancos islâmicos não podem simplesmente negociar moeda. "No modelo financeiro islâmico, os bancos devem mobilizar fundos por meio do conceito de administração de fundos", disse Rafe Haneef, chefe de produtos e serviços bancários islâmicos na Ásia para o Citigroup.

De fato, o sistema bancário islâmico deve supostamente funcionar mais como firmas de private equity do que como bancos convencionais. "O private equity é um conceito islâmico", disse Haneef.

Os defensores do setor dizem que sua exigência de compartilhamento de risco ajuda a reduzir o tipo de abusos que levaram à confusão das hipotecas de alto risco (subprime). Os estudiosos consideram não-islâmico sobrecarregar um cliente de dívidas ou investir em uma empresa com dívida excessiva.

Mas esta abordagem conta com alguns problemas inerentes. Como as transações financeiras islâmicas devem contar com um ativo que as apóie, os banqueiros islâmicos tendem a ter uma alta exposição a imóveis e projetos de construção. Compensar tal exposição é difícil -apesar de existirem derivativos islâmicos, os estudiosos divergem sobre se são permitidos segundo o Alcorão.

"Há uma aceitação geral de que o risco precisa ser administrado e portanto alguma forma de instrumento financeiro precisa ser desenvolvido", disse Zeti Akhtar Aziz, presidente do banco central da Malásia. Mas "no sistema financeiro islâmico você não pode ter tal segurança", ele acrescentou. "Nós precisamos poder olhar para algumas das questões que giram em torno disto."

As instituições financeiras islâmicas dependem de seus próprios conselhos de estudiosos da sharia para aprovação de cada produto. Estudiosos da sharia são raros, e aqueles com entendimento financeiro são ainda mais raros, de forma que muitos estudiosos integram vários conselhos, ganhando até US$ 100 mil em honorários.

"Se estão se queixando de que há escassez, o que estão fazendo para resolver o problema?" perguntou Sheikh Nizam Yaquby, um estudioso em Bahrein que ocupa os conselhos do Citigroup, AIG e HSBC, entre outros. Ele notou que os estudiosos da sharia ainda ganham bem menos do que contadores ou advogados corporativos.

Como parte dos antigos esforços para desenvolver o setor, a Malásia criou bolsas e programas de treinamento. O pai de Zeti, Ungku Abdul Aziz, estabeleceu a primeira instituição financeira islâmica moderna, a Tabung Haji, em 1962 para ajudar os pobres malasianos a financiarem as peregrinações a Meca e para estimular a poupança rural.

Posteriormente, o governo malasiano criou bancos islâmicos como parte de uma plataforma reformista para promover o desenvolvimento nacional e conter o apelo dos rivais políticos islamitas fundamentalistas.

No início de 2001, o governo começou a oferecer incentivos fiscais visando converter pelo menos um quinto dos ativos do país para as finanças islâmicas até 2010. (Atualmente, eles correspondem a cerca de 12%.) Com a China desviando algumas oportunidades econômicas da Malásia, o sistema financeiro islâmico se tornou parte de um esforço mais amplo para atrair o turismo, comércio e investimento do Oriente Médio.

"Nós estamos tentando nos posicionar como sendo aceitáveis para o Oriente Médio, para os petrodólares", disse Wong Fook-Wah, executivo-chefe do RAM Rating Services em Kuala Lumpur. "Esperamos que eles financiem o crescimento econômico na Malásia."

No início dos anos 90, a Malásia concebeu seu primeiro título islâmico, ou sukuk, um feito que expandiu em 2002 emitindo o primeiro sukuk global, levantando US$ 600 milhões. Atualmente o mercado global de sukuk totaliza US$ 82,2 bilhões, com a Malásia responsável por dois terços dele.

Mas com o aumento dos preços do petróleo, o sistema financeiro islâmico está prosperando em toda parte.

A emissão de sukuk no Golfo deverá superar a da Malásia. O Reino Unido, que autorizou seu primeiro banco islâmico em 2004, planeja emitir seu próprio sukuk. O Banco de Cooperação Internacional do Japão planeja um sukuk de US$ 300 milhões. E em julho, uma companhia de petróleo com sede no Texas, a East Cameron Partners, emitiu o primeiro sukuk americano, levantando US$ 165,7 milhões.

Claramente, a fé não é a única coisa movendo o mercado. Na unidade malasiana do Kuwait Finance House, disse Younis, 40% dos depositantes e 60% dos tomadores são não-muçulmanos.

"Nós olhamos para estas coisas da mesma forma que a Apple ou Berkshire Hathaway", disse Elene Kee, uma advogada corporativa budista daqui, que presta consultoria para clientes sobre o uso dos empréstimos islâmicos para financiamento de projetos de construção.

Ong-Yeoh sente o mesmo. "Se trata apenas de tirar proveito do sistema", ele disse. Depois de tomar um empréstimo islâmico para sua casa, ele tomou outro para comprar seu carro. George El Khouri Andolfato

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