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23/11/2007

Crescimento econômico revela um novo mundo para as mulheres indianas

The New York Times
Somini Sengupta

Em Bangalore, Índia
Há não muito tempo, uma mulher indiana, mesmo uma mulher indiana que trabalhava, quase sempre se mudava da casa de seus pais para a dos pais de seu marido. Sua única liberdade talvez seria durante a faculdade, quando poderia viver no campus ou morar em um quarto por um ano ou dois no que é conhecido aqui como albergue para mulheres que trabalham.

Tal trajetória começou a mudar à medida que o crescimento econômico cria novos empregos, leva jovens profissionais a saírem da casa de seus pais e viverem em suas próprias e talvez lentamente, não intencionalmente, leva uma sociedade tradicional a aceitar novas liberdades para as mulheres.

As novas aberturas não eliminaram as antigas restrições. À medida que lidam com as novas incertezas e novas escolhas, muitas mulheres jovens indianas estão abraçando as mudanças de forma experimental, as conciliando por ora com os hábitos do passado.

. Adam Huggins/The New York Times 
Mulheres trabalham em escritório de publicidade em Bangalore, Índia

As mudanças são mais profundas nas vidas de mulheres que encontraram apoio na nova economia e que são na maioria de classe média, profissionais com ensino superior explorando empregos que simplesmente não existiam há uma geração.

Trabalhadores de alta tecnologia e estilistas de moda, professoras de aeróbica e DJs de rádio, estas mulheres na faixa dos 20 anos estão vivendo de forma independente pela primeira vez, longe de suas famílias. Muitas estão adiando o casamento por um ano ou dois, talvez mais, enquanto ganham dinheiro e vivem vidas que a maioria de suas mães nem podia sonhar.

Bangalore, também conhecida como Bengaluru, a capital do setor de tecnologia e administração e suporte, é o centro de tais mudanças. Antes uma cidade tranqüila e arborizada preferida por aposentados, mais da metade de seus 4,3 milhões de habitantes tem menos de 30 anos, segundo um censo de 2001.

Cartazes anunciam quartos para homens e mulheres solteiros. Os cafés e bares ficam lotados ao anoitecer. Os vendedores de hortifrutigranjeiros encerram seu expediente tarde da noite.

Então quando Shubha Khaddar, 23 anos, caminha do trabalho para casa e para comprar algo para o jantar, ela raramente se vê sozinha. "Você encontra 10 outras garotas como eu voltando com compras", disse Khaddar.

Enquanto ela partia em uma manhã recente para a empresa de relações públicas onde trabalha, suas palavras de despedida para Pallavi Maddala, 23 anos, sua colega de quarto e engenheira de software, foram para trazer alguns idlis, ou bolos de arroz cozidos, para o jantar. Ela chegaria tarde em casa. Além disso, idlis seriam uma opção de baixa gordura.

Khaddar está de dieta, em parte pressionada por sua mãe, que do outro lado do país, em Nova Déli, está tentando melhorar suas perspectivas de casamento. Na geladeira, ela colocou um bilhete amarelo para si mesma: "Perca peso, sua porca gorda".

Em novembro, Khaddar deu o aviso prévio no trabalho, porque não conseguia mais suportá-lo. Ela disse que estava estressada com a perspectiva de não encontrar nada em Bangalore e ter que retornar à vida com seus pais em Nova Déli. "Eu não acho que estou preparada para voltar para casa", ela disse.

Ambas as mulheres estavam tentando se esquivar da intervenção de suas mães no departamento de casamento, apesar de não totalmente. Khaddar está saindo com alguém mas ainda não contou aos seus pais, assim como também não fechou completamente a porta para os planos de sua mãe.

Maddala, por sua vez, aceita a perspectiva de ter um marido escolhido para ela, mas não agora, e não os indianos do exterior pelos quais sua mãe tem afinidade.

Há não muito tempo, Maddala mostrou a Khaddar uma foto de um desses candidatos, um jovem vivendo nos Estados Unidos. "A foto me apavorou", lembrou Khaddar, enquanto se arrumava para o trabalho. "Eu disse: 'Amiga, você não vai se casar com isto'."

Maddala riu com a lembrança. Ela concordou que ele era grande e alto demais para o gosto dela. Dois meses depois, outro candidato não deu certo porque a família do jovem exigia um grande dote que fez Maddala recuar.

Mais do que qualquer outra coisa, disse Maddala, ela deseja saborear sua independência um pouco mais. Ela se mudou para cá vinda de Hyderabad, a cerca de 480 quilômetros de distância, no início deste ano. Ela descreveu as lições de liberdade desta forma: "Quem sou eu? O que consigo fazer? A gente vem para cá e percebe que é forte".

"Confiança", ela prosseguiu. "Realmente é uma necessidade para a mulher atual."

Nesta sociedade profundamente tradicional, acostumada a absorver influências de todo tipo ao longo dos séculos, as mudanças ocorrem lentamente, se é que ocorrem. Assim, a nova economia e o novo estilo de vida que criou não eliminaram os antigos valores, particularmente em respeito ao casamento.

As pesquisas de opinião pública nos últimos anos rotineiramente revelam que os jovens, homens e mulheres, ainda se agarram à idéia de virgindade antes do casamento e um grande número diz preferir se casar dentro de sua própria casta e comunidade. O grande casamento indiano está maior do que nunca. O dote -e mortes pelas mãos de parentes por casamento que consideram os dotes inadequados- predomina.

Mas para mulheres como estas, a liberdade trouxe novas opções, novos problemas e como Khaddar colocou, nova culpa.

Ela às vezes se pergunta se deve permanecer aqui e desfrutar de sua independência o máximo que puder. Ou se deve voltar para casa em Déli, encontrar um emprego e permitir que seus pais arrumem um pretendente de uma família brâmane do norte, como a sua?

Ela está em transição, ela disse, entre estar "completamente independente" e "uma garota do lar".

Khaddar sabe o que seus pais acham e isto a deixa nervosa: que encontrar um noivo para uma mulher como ela será difícil, uma estudante de filosofia, que pensa de forma independente, vive longe de seus pais e gosta de classic rock.

Um grande temor, ela confessou, é não conseguir se casar.

"Eu estou dividida com toda esta coisa de independência", disse Khaddar.

As mulheres indianas estão se casando mais tarde, apesar de ainda relativamente jovens em comparação ao Ocidente. A idade média de casamento passou de 17,7 anos em 1999 para 18,3 anos em 2001, segundo o censo, e 22,6 anos para jovens com ensino superior.

Quase um terço da força de trabalho é do sexo feminino, com as mulheres rurais empregadas em sua maioria na agricultura e as mulheres urbanas no setor de serviços. Apesar de suas fileiras serem minúsculas nos altos escalões da Índia corporativa, é comum ver mulheres em empregos que não existiam há uma geração ou que raramente eram ocupados por mulheres, seja como frentista de posto de gasolina ou atendentes de bar, editoras de revistas ou programadoras de software.

De vez em quando, um crime contra uma mulher leva a novos protestos e disputas em torno de mulheres trabalharem à noite. Mas as mulheres jovens que trabalham e vivem por conta própria já fazem firmemente parte do cenário urbano.

Apartamentos são mais fáceis de alugar, diferente de quando as acomodações eram limitadas a um quarto em uma casa de um senhoria intrometida que rangeria os dentes caso um namorado passasse a noite, e talk shows de rádio exibem ouvintes que falam sobre os prós e contras de viver com um namorado.

"Eu acho que é uma mudança significativa", disse Urvashi Butalia, editora da Zubaan Books, com sede em Nova Déli, que promove o trabalho de escritoras. "Isto sinaliza um tipo de mudança e aceitabilidade. Testemunha o desejo das mulheres de serem economicamente independentes, de serem capazes de interagir em espaço público e estar no mesmo mundo que os homens."

Igualmente importante, ela disse, é o ajuste de postura entre os mais velhos. "Para as famílias aceitarem que mulheres permaneçam solteiras, que vivam por conta própria, que trabalhem e adiem o casamento, é uma mudança muito, muito significativa", ela disse. "Mesmo sendo muito pequena, está começando a acontecer em uma sociedade onde antes, se fizesse isso você estaria em apuros."

Butalia, 55 anos, passou pelos apuros. Há 30 anos, ela ingressou em uma editora de Nova Déli onde lembra lhe terem dito que mulheres não eram bem-vindas nos cargos executivos porque inevitavelmente se casariam e deixariam o emprego. Mas ela permaneceu solteira e se tornou uma das figuras mais conhecidas no setor editorial indiano.

Mulheres da geração mais nova, como Cauvery Cariappa, ainda se vêem enfrentando seus pais na questão de viverem sozinhas. Ela deu a notícia aos seus pais depois de se formar em uma faculdade de Bangalore, em 2000, de que não voltaria para casa em Ooty, a cerca de 290 quilômetros de distância. Em vez disso, ela trabalharia e alugaria um lugar aqui.

"As pessoas vão falar", foi a primeira reação dos pais dela. Eles a coagiram a voltar para casa. Depois deram início ao que chamou de "chantagem emocional". Então pediram que se encontrasse com noivos potenciais. Ela se recusou.

"A tendência é que assim que você completa 21 anos, assim que se forma, se não estiver fazendo nada produtivo, você se casa", ela disse. "´Produtivo' para seus pais difere muito dos seus termos. Para eles, significa ser uma médica ou alguma outra profissão conhecida."

Cariappa, 28 anos, passou por uma série de empregos, todos frutos da nova economia: primeiro em uma agência de publicidade, depois em uma central de atendimento, um banco e finalmente ela decidiu que experimentaria sua mão como estilista de moda.

O apartamento que ela divide com duas colegas é quase vazio, com uma prateleira lotada de sapatos em um canto, almofadões no chão e garrafas vazia de bebida alcoólica enfileiradas espertamente em uma beirada, o que assustou sua mãe em sua primeira visita. Cariappa disse que tranqüilizou sua mãe de que não foram todas consumidas de uma só vez.

Aqui, o namorado dela pode ir e vir sem que ninguém faça perguntas. Ela pode sair com os amigos. Por segurança, ela carrega um spray como substituto para um bastão. Uma de suas colegas carrega uma longa corrente de cachorro, que já teve que usar uma vez para repelir um homem.

"Eu vivo como eu quero", ela disse. "Não há ninguém que me diga que não posso."

Mas depois de lutar tão arduamente por sua independência, mesmo ela não conseguiu resistir à atração da tradição. Em novembro, Cariappa anunciou que seus dias de liberdade estavam chegando ao fim.

Ela e seu namorado há sete anos decidiram se casar. Isto também foi uma ruptura com a tradição, porque ele é de outra comunidade, de outra parte do país.

Em breve ela deixará o apartamento. "Sim, no final a maioria de nós chega lá!" ela disse em uma mensagem de texto. "A mesma coisa aconteceu com minhas duas colegas, daí a mensagem. Você ou algumas amigas estão procurando por um lugar para ficar? George El Khouri Andolfato

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