UOL Notícias Internacional
 

24/11/2007

José Padilha: um cineasta e um desafiador da consciência do Brasil

The New York Times
Alexei Barrionuevo
No Rio de Janeiro
José Padilha brinca dizendo que o seu próximo filme incluirá uma bibliografia no final, para remeter a platéia à vasta pesquisa que ele faz à cada projeto. "Nós fazemos filmes que geram muitas perguntas que não podem ser respondidas", diz ele. "Como é que se resolve a violência urbana no Rio? Eu não tenho todas as respostas".

Em uma carreira relativamente curta, Padilha, 40, fez filmes que provocaram ecos profundos na consciência social do país. O seu último trabalho, "Tropa de Elite", uma visão violenta das guerras em torno das drogas no Rio de Janeiro sob a perspectiva de uma tropa policial de elite, colocou-o no centro de um furioso debate a respeito da violência policial e do uso de drogas pela classe média, e tornou-se o filme mais comentado por aqui desde "Cidade de Deus", em 2002.

Os críticos aplicaram todos os rótulos a Padilha, desde extremista de esquerda a direitista-fascista.

Baseado nas experiências da vida real de policiais do Rio de Janeiro, "Tropa de Elite" foi o primeiro filme de ficção de Padilha, seguindo-se a alguns documentários de sucesso. Mas o retrato áspero do sistema policial fez dele o alvo da polícia militar do Rio, que exigiu saber que policiais revelaram ao diretor os métodos de tortura utilizados pela instituição. Enquanto isso, grupos de direitos humanos, acusaram-no de glorificar o principal personagem do filme, o problemático capitão Roberto Nascimento, que à noite tortura e mata narcotraficantes, e de dia tenta inutilmente lidar com a sua vida violenta.
Douglas Engle/The New York Times
O cineasta José Padilha com a imagem do personagem capitão Nascimento ao fundo
CRÍTICA DO NYT


"Algo de realmente incrível aconteceu", disse Padilha, recentemente, da sua casa no Rio, na qual ele e o seu parceiro comercial, Marcos Prado, administram a Zazen Produções, uma companhia cinematográfica composta por seis pessoas. "Este pequena companhia que fez o filme provocou uma febre. Eu não sei o que isso significa, mas nunca esperei criar este grande fenômeno social".

Mesmo assim, Padilha afirma que o seu filme foi grosseiramente mal-entendido por alguns, especialmente no Brasil. Aqueles que o acusaram de apresentar a abordagem da tortura policial como excessiva, mas necessária, não captaram a mensagem do filme, diz ele. Segundo o cineasta, a idéia era denunciar a polícia como injustificadamente brutal e corrupta. Ele diz que, na sua opinião, o personagem Nascimento termina como um "completo anti-herói".

Mas nada disso impediu que bancas de jornais em todo o Rio exibissem o personagem Nascimento, representado pelo ator Wagner Moura, com uma boina preta, nas capas de revista, proclamando-o "o novo herói brasileiro".

Para Padilha, que cresceu em uma família privilegiada que conta com cientistas e artistas, o cinema não era uma trilha óbvia. O seu pai foi um cientista com pós-graduação em engenharia química pela Universidade de Houston. Padilha alimentou por um tempo a idéia de tornar-se jogador profissional de tênis. Ele formou-se em física e trabalhou por um breve período para uma corretora de investimentos.

Mas o mundo dos negócios o entediava, e não demorou muito para que ele se aliasse a Prado, um amigo e famoso fotógrafo brasileiro, para fazer um documentário.

Em 1998, Padilha e Prado viajaram a Nova York e procuraram Nigel Noble, um diretor de documentários e ganhador do Oscar, na Escola de Artes Tisch da Universidade de Nova York. Eles o persuadiram a vir ao Brasil e dirigir um documentário com eles sobre trabalhadores que cortam árvores na Floresta Amazônica para produzir carvão para a indústria brasileira de aço.

O filme resultante, "Os Carvoeiros", foi selecionado para exibição no Festival de Cinema Sundance, um golpe de sorte que colocou os dois companheiros cineastas na rota do sucesso.

A fim de conseguir verbas, Padilha e Prado filmaram alguns documentários para a televisão antes de passarem a produzir documentários independentes. Até "Tropa de Elite", a obra mais notável de Padilha era a história do seqüestro de um ônibus municipal no Rio de Janeiro, uma notícia que foi transmitida ao vivo e ininterruptamente na televisão. O seu documentário sobre o episódio, chamado "Ônibus 174", ganhou um Emmy nos Estados Unidos na categoria Noticiário e Documentários.

Esse sucesso mudou a vida do diretor. Ele foi indicado para a Directors Guild e ganhou um prêmio Peabody, e ele e Prado contrataram um advogado para representá-los nos Estados Unidos, e um agente em Los Angeles.

E, o mais importante, o sucesso de "Ônibus 174" possibilitou a Padilha financiar "Tropa de Elite". Ele juntou-se a Rodrigo Pimentel, um ex-capitão da tropa de elite policial - uma espécie de Swat brasileira - do Rio de Janeiro, chamada de Bope no Brasil, para escrever um roteiro que contaria a história da violência urbana segundo os olhos da polícia, um fato inédito no Brasil.

Pimentel, que saiu do Bope depois de desiludir-se com a sua missão de prender e matar traficantes de drogas, disse em uma entrevista que Padilha logo percebeu que a sua vida correria risco caso tentasse fazer um documentário sobre o tema.

Assim, eles decidiram fazer uma obra ficcional, mergulhando em pesquisas por quase três anos, conversando com cerca de 20 policiais e médicos que trabalharam com a polícia, e finalmente criando o capitão Nascimento.

O filme se passa durante a "Operação Papa", a operação realizada em 1997 pelo Bope para erradicar uma quadrilha de narcotraficantes em uma favela meses antes da visita de dois dias do papa João Paulo 2° à área, uma operação que Padilha classificou de "absurda".

"'Tropa de Elite' é uma espécie de vingança pelas vítimas da brutalidade e dos assassinatos policiais. De certa forma, ao ver o filme a platéia está se vingando da polícia. Sabe o que quero dizer? Especialmente nas favelas", diz Padilha.

Mas tal atitude gerou uma forte reação da polícia, que, depois que uma versão pirateada foi assistida por milhões de pessoas, tentou na Justiça impedir a exibição do filme. Depois os policiais procuraram Padilha, tentando persuadi-lo a revelar as identidades dos policiais que o ajudaram a realizar o trabalho. O governador do Rio apoiou o diretor, dizendo a ele que ignorasse tais solicitações feitas pela polícia. Padilha finalmente concordou em dar um pequeno depoimento no escritório do seu advogado, mas disse que se recusa a divulgar qualquer nome.

No início o financiamento foi difícil. A Globo, o conglomerado brasileiro de mídia, recusou-se a contribuir porque os diretores não garantiriam um final feliz, conta Padilha. "Você nunca irá chocar a platéia dessa forma", diz ele. "A nossa idéia é fazer filmes sem maquiagens".

No final, Padilha atraiu o interesse de Eduardo F. Constantini, filho do milionário argentino, que levou o projeto até a companhia de produção cinematográfica de Harvey Weinstein, em Nova York, que logo assinou um contrato para financiar o projeto.

Enquanto o roteiro passava pelas suas 12 fases, Pimentel uniu-se ao autor Luiz Eduardo Soares para produzir um livro, também intitulado "Tropa de Elite". O processo de emparelhar livros e filmes se encaixa na visão de Padilha, segundo a qual a ciência é mais bem explorada em livros, mas que os filmes são fundamentais para atrair atenção para os personagens.

"Todos os filmes que havíamos feito até então eram um punhado de peças científicas e inspiraram trabalhos nas universidades", diz ele. "Se você publica um trabalho acadêmico científico, é muito difícil dar início a um debate de âmbito nacional sobre qualquer coisa. Mas se você faz um filme, dá para desencadear tal debate. Gostamos de criar uma ponte entre esses dois mundos - cinema e ciência".

Atualmente Padilha está editando dois documentários, um sobre a fome, e um outro, filmado principalmente em inglês, sobre o debate entre antropólogos norte-americanos a respeito dos índios ianomami na Venezuela, que foram descritos no livro "Darkness in El Dorado" ("Trevas no Eldorado"), por Patrick Tierney.

"Não sei quantas páginas li sobre esse assunto", diz ele a respeito do seu projeto relativo à Venezuela. "Mas já é algo da ordem de milhares". UOL

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