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24/11/2007

O ato de negar faz o mundo girar

The New York Times
Benedict Carey
Durante anos ela escondeu do marido as contas de cartões de crédito: o casaco bordado da Neiman Marcus de US$ 2.500. O cachecol adornado de US$ 900 da Blake, em Chicago. As botas Dries van Noten de US$ 600. Todos produtos muito bonitos, e que seriam perfeitamente acessíveis caso ela fosse gerente de um fundo hedge ou uma executiva do Google.

No início os amigos lhe deram dicas para que ela comprasse menos ou que redirecionasse os seus instintos criativos. A sua mãe ficou suficientemente preocupada para chegar a fazer perguntas diretas. Mas os vendedores das lojas continuavam ligando, com avisos antecipados a respeito das modas da próxima estação, e as estações se sucediam.

"A situação ficou tão ruim que à noite eu me sentava subitamente e ficava pensando que eu cometeria o erro e a coisa toda explodiria", conta a compradora sigilosa, Katharine Farrington, 46, uma escritora freelance de roteiros de filmes que mora em Washington, e que atualmente está livre de dívidas. "Não sei como pude permanecer em estado de negação quanto a isso por tanto tempo. Acho que era otimista, que achava que poderia pagar e que não estava prejudicando ninguém. Mas é claro que isso não era verdade".

Aditya Singh/AFP - 2.nov.2007 

Todo mundo está em estado de negação a respeito de algo; tente negar isso e veja os amigos fazerem uma lista das coisas que você denega. Para Freud, a negação era uma defesa contra realidades externas que ameaçam o ego, e atualmente muitos psicólogos argumentam que a negação poderia ser uma defesa frente a notícias insuportáveis, como um diagnóstico de câncer.

No vocabulário moderno, dizer que alguém está "em estado de negação" é aplicar uma seqüência brutal de golpes: um soco na barriga por trapacear, beber ou apresentar um mal comportamento, e um sopapo na cabeça pela auto-ilusão covarde ao fingir que isso não é um problema.

Mas estudos recentes de áreas tão diversas como a psicologia e a antropologia sugerem que a capacidade de olhar para o lado oposto, embora seja potencialmente destrutiva, é também criticamente importante para criar e alimentar relacionamentos estreitos. Os artifícios psicológicos usados pelas pessoas para ignorar problema em processo de agravamento nas suas próprias casas são os mesmos que elas necessitam para conviver com desonestidade e a traição humanas diárias, tanto delas quanto das outras pessoas. E, são essas capacidades altamente evoluídas, segundo sugerem as pesquisas, que proporcionam a base para o mais neutralizador dos pedidos humanos, o perdão.

Nesta visão emergente do problema, os cientistas sociais vêem a negação sob uma ótica mais ampla - da desatenção benigna, ao reconhecimento passivo, à cegueira voluntária -, por parte dos casais, grupos sociais e organizações, bem como dos indivíduos. Alguns cientistas argumentam que ver a negação dessa maneira ajuda a elucidar quando é de bom alvitre administrar uma pessoa ou situação pessoal difícil, ou quando isso ameaça transformar-se em uma espécie de transe infeccioso e silencioso capaz de fazer pessoas normalmente honestas tornarem-se hipócritas.

"Quando mais atentamente se examina, mais claramente se observa que a negação faz parte da difícil barganha que fazemos para sermos criaturas sociais", afirma Michael McCullough, psicólogo da Universidade de Miami e autor do livro "Beyond Revenge: The Evolution of the Forgiveness Instinct" ("Além da Vingança: A Evolução do Instinto de Perdão"), que está prestes a ser lançado. "Nós realmente desejamos ser pessoas moralmente corretas, mas o fato é que cortamos uns atalhos para obtermos vantagens individuais, e nos apoiamos no espaço que a negação nos confere para superarmos situações difíceis, para evitarmos as multas por excesso de velocidade, e perdoarmos os outros por fazerem o mesmo".

A capacidade de negação parece ter evoluído em parte para compensar a hipersensibilidade dos primeiros humanos às violações da confiança. Em pequenos grupos sociais, a identificação de mentirosos e de trapaceiros de duas faces era uma questão de sobrevivência. Alguns boatos maliciosos poderiam significar uma perda de status ou até mesmo a expulsão do grupo, o que equivaleria a uma sentença de morte.

Em uma série de estudos recentes, uma equipe de pesquisadores liderada por Peter H. Kim, da Universidade do Sul da Califórnia, e por Donald L. Ferrin, da Universidade de Buffalo, e que agora está na Universidade de Administração de Cingapura, fez com que grupos de estudantes de negócios avaliassem a confiabilidade de um candidato a um emprego após serem informados de que o indivíduo cometeu uma infração em um emprego anterior. Os participantes assistiam a um filme de uma entrevista de emprego na qual o candidato se defrontava com o problema, e, ou o negava, ou pedia desculpas.

Quando a infração era descrita como um erro e o candidato pedia desculpas, os expectadores davam a ele o benefício da dúvida, e afirmavam que encarregariam o indivíduo das responsabilidades do emprego. Mas se a infração fosse descrita como uma fraude e a pessoa se desculpasse, a confiança dos avaliadores se evaporava - e mesmo a prova de que ele não agira de má-fé não restaurava inteiramente a confiança.

"Concluímos que existe um sistema distorcido de incentivos", diz Kim. "Se você é culpado de uma violação baseada na integridade e se desculpa, isso lhe prejudica mais do que se você é desonesto e nega tal fato".

O sistema é distorcido exatamente porque as pessoas nas quais confiamos e que prezamos são imperfeitas, assim como todo mundo, não sendo nem de perto tão moralmente íntegras ou confiáveis como esperam que os outros sejam. Se a evidência quanto a isso não fosse suficientemente abundante no cotidiano, ela despontou com destaque em um recente estudo liderado por Dan Ariely, economista comportamental do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).

Ariely e dois colegas, Nina Mazar e On Amir, submeteram 326 estudantes a um teste de conhecimentos gerais de múltipla escolha, prometendo a eles um pagamento por cada questão correta. Os estudantes foram instruídos a transferir as resposta, a fim de que estas fossem oficialmente compiladas, para um formulário com bolhas coloridas para cada uma das questões numeradas. Mas alguns dos estudantes tiveram a oportunidade de trapacear: eles receberam formulários de bolhas nos quais as questões corretas apareciam, de forma aparentemente acidental, em cor cinza. Comparados aos outros, modificaram cerca de 20% das suas respostas, e um estudo de acompanhamento demonstrou que eles não tinham consciência da magnitude da sua desonestidade.

"Concluímos que pessoas boas podem ser desonestas até aquele nível no qual a consciência aflora", diz Ariely, autor do livro "Predictably Irrational: The Hidden Forces that Shape Our Decisions" ("Previsivelmente Irracional: As Forças Ocultas que Modelam as Nossas Decisões"), que deverá ser publicado no ano que vem. "Que essencialmente somos capazes de enganar um pouco a nossa consciência e cometermos pequenas transgressões sem acordarmos para o fato. Tudo isso passa despercebido porque o indivíduo não está prestando muita atenção".

É um erro subestimar o poder da simples atenção. Os psicólogos descobriram que as pessoas podem ser intensamente conscientes daquilo no qual prestam atenção, e notavelmente cegas em relação ao que desprezam. É verdade que na vida real a negação casual de mal comportamento exige mais do que uma simples ginástica mental, mas a desatenção é um primeiro ingrediente básico.

O segundo ingrediente, ou segundo nível, é o reconhecimento passivo, quando as infrações são muito persistentes para passarem despercebidas. As pessoas criam diversas maneiras de lidar indiretamente com tais problemas. Um franzir de sobrancelhas, um meio sorriso ou um gesto com a cabeça podem significar ao mesmo tempo "Eu vi isso" e "Deixarei isso passar".

Há bons motivos para que o reconhecimento seja passivo: um confronto direto, com um ente querido ou com o próprio indivíduo, traz o risco de provocar uma grande ruptura ou uma mudança de vida que poderia ser mais temível do que a transgressão. E, de forma mais freqüente do que se imagina, um gesto sutil pode ser uma advertência suficiente para desencadear uma modificação de comportamento, até mesmo do próprio indivíduo.

Em uma tentativa de calcular exatamente com que freqüência as pessoas fingem não ver ou punem infrações cometidas dentro dos seus próprios grupos, uma equipe de antropólogos do Novo México e de Vancouver fez uma simulação de um jogo para medir graus de cooperação. Nesse jogo, os jogadores decidem se contribuem para um fundo mútuo de investimento, e podem retirar um parceiro, se acreditarem que a contribuição deste jogador é muito pequena. Os pesquisadores descobriram que assim que os jogadores criaram um relacionamento de confiança baseado em diversas interações - assim que, na verdade, os dois ingressaram no mesmo grupo -, eles mostraram-se dispostos a desprezar quatro ou cinco violações seguidas antes de retirar um colega do jogo. Já os desconhecidos foram eliminados após uma única infração.

Usando um programa de computador, os antropólogos reproduziram a simulação no decorrer de diversas gerações, na verdade acelerando o registro evolutivo para essa sociedade de jogadores. E o índice de desprezo às violações se manteve. Ou seja, esse padrão de comportamento perdoador definiu grupos estáveis que maximizaram a sobrevivência e a aptidão evolucionária dos indivíduos.

"Existem muitas formas de se pensar a respeito disso", diz o principal autor, Daniel J. Hruschka, do Instituto de Santa Fé, um grupo de pesquisa especializado em sistemas complexos. "Uma delas é imaginar que você está se mudando e realmente necessita de ajuda, mas o seu amigo não retorna a sua ligação. Bem, talvez ele esteja fora da cidade, e isso não é, de jeito nenhum, uma deserção. A capacidade de desprezar as infrações ou de perdoar é uma maneira de superar as vicissitudes da vida diária".

Em nenhuma situação as pessoas utilizam mais as suas habilidades para a negação do que com um cônjuge ou parceiro amoroso. Em uma série de estudos, Sandra Murray, da Universidade de Buffalo, e John Holmes, da Universidade de Waterloo, em Ontário, no Canadá, demonstraram que as pessoas freqüentemente idealizam os seus parceiros, superestimando as suas virtudes e subestimando as suas fraquezas.

Isso envolve tipicamente uma mistura de negação e trabalho de retoque - por exemplo, vendo o ciúme como paixão, ou a teimosia como um forte senso de certo e errado. Mas os estudos revelaram que parceiros que se idealizam mutuamente dessa forma têm mais probabilidade de ficarem juntos e de afirmarem estar satisfeitos no relacionamento do que aqueles que não agem dessa maneira.

"A evidência sugere que se você enxerga as outras pessoas dessa forma idealizada, e as tratas de forma condizente com essa visão, elas também começam a se enxergar da mesma maneira", diz Murray. "Isso estimula tais comportamentos mais positivos".

Ao se depararem com o odor da perfídia real, as pessoas que não têm disposição de arriscar uma ruptura distorcem a sua percepção da realidade de forma mais proposital. Uma forma comum de fazer tal coisa é rotular nítidas infrações morais de erros, tropeços e lapsos de competência - porque estes são mais toleráveis, afirma Kim, da Universidade do Sul da Califórnia. "De fato, as pessoas remodelam a violação ética, passando a vê-la como uma violação de competência".

Ela não o estava traindo - apenas perdeu um pouco o rumo. Ele não ocultou as perdas no crédito imobiliário de alto risco - mas errou nos cálculos.

Essa remodelação ativa dos fatos, baseada nas mesmas ferramentas psicológicas da desatenção e do reconhecimento passivo, é o ponto no qual o reaarranjo do relacionamento pode começar a se transformar na proposital auto-ilusão do tipo que assume vida própria. Todos sabem como é isso: você não pode falar a respeito daquele caso amoroso, e não pode falar sobre não falar sobre ele. Logo, você não pode falar sobre qualquer assunto remotamente relacionado àquilo.

E as expectativas sociais não declaradas muitas vezes reforçam a conspiração, não importa qual seja a sua fonte, afirma Eviatar Zerubavel, sociólogo da Universidade Rutgers e autor do livro "The Elephant in the Room: Silence and Denial in Everyday Life".

"Tato, decoro, polidez, tabu - tudo isso limita aquilo que pode ser dito nos domínios sociais", afirma Zerubavel. "Nunca vi tato e tabu discutido no mesmo contexto, mas um é apenas uma versão mais dura do outro, e não está claro onde é que as pessoas traçam a linha entre as suas preocupações particulares e esses limites sociais".

Em suma, as normas sociais muitas vezes funcionam para reduzir o espaço no qual uma conspiração do silêncio pode ser rompida: não no trabalho, não em público, não na mesa de jantar, não aqui. É necessária uma crise externa para romper essa negação, e ninguém precisa de um estudo psicológico para saber como isso termina.

No caso de Farrington, o fato foi uma mudança do país devido ao emprego do marido. Incapaz de ganhar muito dinheiro com o seu próprio trabalho, ela continuou comprando, mas sem maneiras de cobrir as contas dos cartões de crédito.

"Basicamente, tive que confessar. Foi terrível, mas confessei ao meu marido, à minha mãe e a uma outra amiga que estava recebendo as contas enquanto eu estava fora. Era uma rede enorme de intriga, que no final tinha que desmoronar". Ela agora procura pechinchas melhores no eBay. UOL

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