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26/11/2007

China se entrega ao rock ocidental - e vice-versa

The New York Times
The New York Times
Ben Sisario
Pequim
Como faria em qualquer parte do mundo, Karen O, da insolente banda de rock nova-iorquina Yeah Yeah Yeahs, entrou com largas passadas no palco de um show em Pequim. Parecia um impetuoso arlequim futurista, com sua capa de asas prateadas e calças listradas de azul e verde. Aos berros, para os dez mil fãs encharcados de lama, que cantavam com ela junto a letra de suas músicas, ela agradeceu num mandarim ofegante: "Xie xie ni!" Alguns dias antes, o rapper do Brooklyn Talib Kweli esteve em uma das fulgurantes novas discotecas da cidade. E no dia 18 de novembro, o Linkin Park, um grupo de titãs do rap-rock com vendas mundiais de 45 milhões, tocou em um estádio de Shangai para uma multidão de 25 mil pessoas, com todos os ingressos vendidos.

Eles estão entre as mais recentes de uma série cada vez maior de apresentações de ocidentais que esperam fazer sucesso no imenso novo mercado de entretenimento da China. Antes bastante fechado à música estrangeira, o país gradualmente foi atenuando as restrições e - ao mesmo tempo em que continuam a despencar as vendas de discos no Ocidente, e novas fontes de receita tornaram-se essenciais - emergiu como um território decisivo no mapa global do pop.

"A China está na ponta da língua de todo mundo," disse Peter Grosslight, diretor mundial de música para a William Morris Agency. "Lá estão 1,3 bilhão de pessoas. É um lugar que cada vez fica mais rico. Como podemos ignorar isso?"

Para a indústria fonográfica ocidental, a China é uma mistura de novos desafios e frustrações conhecidas, com a feroz pirataria de CDs e uma infra-estrutura mínima para turnês. E muitos dos serviços tidos como certos em outros lugares, como a coleta e distribuição de direitos autorais por gravações, não estão totalmente estabelecidos. Mas apesar de tais obstáculos, o amplo potencial de comércio faz do país uma atração irresistível, com dinheiro a ser ganho com shows ao vivo, mercadorias e tecnologias tais como toques para celulares.

Há cinco anos, um concerto de Kenny G era uma grande novidade. Agora, as cidades chinesas são incluídas frequentemente nos itinerários de turnês para uma série de apresentações: este ano Beyoncé, Eric Clapton, Nine Inch Nails, Avril Lavigne e Sonic Youth tocaram na China, além de bandas de rock underground que viajam de trem para uma rede de abafadas discotecas em cidades menos importantes.

O Linkin Park já fez uma turnê pelo Sudeste da Ásia, mas o grupo encara seu primeiro concerto na China como uma oportunidade particularmente lucrativa. "Esse é o show que poderá abrir as portas de uma fronteira totalmente nova", disse Michael Arfin, agente da banda. O concerto deu um lucro bruto de US$ 750 mil, disse Arfin. Com base no preço por ingresso, isso é quase o equivalente aos resultados da banda em turnês recentes nos Estados Unidos.

Para os músicos, a emoção de tocar para multidões que podem estar vendo a sua primeira apresentação de uma banda estrangeira, é inebriante. Quando o Yeah Yeah Yeahs tocou no Modern Sky Festival, um evento de três dias no parque Haidian no setor oeste de Pequim, os fãs aguardaram em reverente silêncio pelas canções, mas houve uma explosão de entusiasmo assim que as músicas começaram a ser tocadas, com punhos para o alto e garotas aos gritos na frente. "Foi diferente de tudo que já fizemos antes", disse Karen O. "Desde o início, eles estavam ansiosos à nossa espera."

Mas a grande maioria desse público, que passa por uma veloz urbanização e com acesso a uma renda suplementar, pode não estar tão terrivelmente ansioso por música estrangeira. Comportados cantores pop de Taiwan e Hong Kong dominam as ondas sonoras e a imaginação popular, com uma atenção relativamente pequena dada ao rock.

O rock'n' roll teve uma breve e instável história na China. Depois de um esplendor inicial na década de 1980, tornou-se undergound após o massacre da Praça da Paz Celestial em 1989. Durante a maior parte da década de 1990, o único rock ocidental a chegar aos ouvidos dos chineses veio na forma de encalhes de CDs de distribuidores estrangeiros, e os músicos se frustraram ao descobrir que sua música enfrentava um excesso de barreiras culturais para pode se enraizar.

"Havia uma grande dose de idealismo na época, mas nós tivemos uma vida breve", disse Kaiser Kuo,membro fundador da Tang Dynasty, uma das maiores bandas de rock dos anos 1990. "Percebemos que estávamos fadados a não sermos assimilados."

O rock chinês conseguiu uma segunda vida com a chegada da Internet, que trouxe para a juventude do país uma abundância de músicas novas. Um pequeno, mas vibrante, panorama se desenvolveu, com pontos de referência algumas vezes surpreendentemente atuais. Este ano, duas bandas chinesas viajaram para o festival South by Southwest em Austin, no Texas: Rebuinding the Rights of Statues, sósia da fundamental pós-punk Gang of Four, e a Lonely China Day, que tomaram para si a grandeza cinematográfica do Sigur Ros. Das 120 bandas no Modern Sky, no máximo dez eram chinesas.

Para explorar esse mercado emergente, os setores fonográfico e de turnês instalaram-se recentemente na China. William Morris abriu um escritório em Shangai em 2004. Este ano, a Ticketmaster comprou uma participação majoritária na Emma Entertainment, um serviço chinês de promoções e venda de ingressos que apresentou o show do Linkin Park.

O que funciona na China, porém, às vezes pode entrar em conflito com metas de maior alcance das empresas ocidentais. O Linkin Park está entre as maiores bandas estrangeiras na China, mas seu selo, Warner Brothers, não lançou lá seu mais recente CD. E apesar das turnês recentes de Nine Inch Nails, Sonic Youth e Yeah Yeah Yeahs, a divisão chinesa da Universal também não lançou suas gravações. As empresas dizem que a pirataria torna infrutífera a iniciativa.

A Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI, na sigla em inglês), um grupo empresarial, calcula que 85% dos CDs vendidos na China são falsificados. Leong Mayseey, diretor regional da federação para a Ásia, diz que a taxa de pirataria para o download de músicas está próxima dos 100%.

Quando Jeff Antebi, agente da dupla de R&B Gnarls Barkley, estava fazendo uma verificação nos extratos contábeis mundiais, ficou perplexo ao ver que a canção "Crazy", do grupo, uma das 10 músicas mais tocadas em todo o mundo, não registrava nenhuma venda na China. Era um "buraco negro", ele diz. Frustrado quando a selo, Warner Brothers, culpou apenas a pirataria, Antebi decidiu abrir um escritório no país para proteger seus interesses. "As grandes companhias fonográficas têm duas opções em lugares como a China", ele disse. "Adaptar-se ou morrer."

Mas muitos selos chineses, ágeis e sem regulamentação por tradição, adaptaram-se a esse mercado vicioso, de uma forma que traz grandes dificuldades para as empresas ocidentais. Considerando os CDs como líder em perdas, elas têm como rotina firmar contratos com grupos que abrangem tudo, permitindo que a empresa participe das receitas vindas das turnês, mercadorias e endossos. "Um dia, o setor fonográfico chinês será modelo para a indústria mundial da música," disse Shen Lihui, fundador da Modern Sky, uma pequena companhia que lançou cerca de 100 álbuns - a maior parte dos quais com prejuízo, disse Shen - mas também uma série de empresas adicionais, produzindo livros, vídeos e sites da Web.
Circulando pelas áreas onde são realizados os espetáculos, Shen, com uma camisa Burberry lilás e sapatos brancos, chama atenção para os muitos patrocinadores: Motorola, Levi´s, jeans Diesel. Esses acordos trazem o dinheiro necessário para realizar o evento, ele afirma, e o público não tem restrições quanto à publicidade. Ao lado do palco principal, com telas laterais gigantes da marca Motorola, um jovem acenava com uma grande bandeira vermelha onde estava escrito em dialeto de Pequim, "I rock!"

Para a maior parte dos shows, o patrocínio é necessário. As despesas de viagem e a necessidade de ingressos baratos - qualquer coisa acima de US$ 6 ou US$ 7 é proibitivamente cara para muitos jovens chineses - indicam que muitos dos shows dariam prejuízo, a menos que os patrocinadores ficassem com a tarefa que ninguém quer assumir.

Os anunciantes podem emprestar uma indispensável identificação de marca a apresentações menos prestigiadas na China, diz P.T. Black, sócio da Jugsaw International, uma agência de pesquisas de mercado de Shangai."Nos Estados Unidos, um artista se torna grande e então uma marca se liga a ele para pegar carona na sua credibilidade," diz Black. "Aqui, virtualmente não existem artistas com maior credibilidade que as marcas. Coca-Cola é uma marca muito mais transada que qualquer músico novo hoje na China."

Muitas das ações do ocidente que chegam às praias da China operam bem abaixo do alcance do radar das corporações multinacionais. Uma década de sondagens, de grupos punk e metal, abriu caminho para apresentações em discotecas em uma dúzia ou mais de cidades, e músicos econômicos - que viajam de trem por causa das caras e pouco confiáveis viagens pelas rodovias - podem equilibrar receita e despesas em uma turnê.
Mesmo bandas americanas pouco conhecidas podem conciliar uma breve turnê pela China. Em outubro, o Birthday Boyz, um quarteto do Brooklyn que descreve seu som como "muito lúgubre, dinâmico, metálico post-hardcore" e toca em pequenos clubes em seu país, aventurou-se durante duas semanas de shows na China. Desviando-se dos outros passageiros da segunda classe no corredor de um trem de Changsha a Wuhan, duas cidades interioranas sufocadas pela mistura de fumaça e neblina com forte presença punk, Jeff Bobula, um dos guitarristas do Birthday Boyz, descreveu o choque cultural: "A base de uma turnê nos Estados Unidos é embarcar em uma van ou num carro, dirigir o dia todo, depois tocar e com sorte, dormir em algum lugar; depois acordar e ir para o próximo show. Na China, a viagem toda é muito pública."

As bandas pequenas podem não atrair a atenção do governo chinês, mas qualquer banda que se apresente um pouquinho acima do nível de uma discoteca irá inevitavelmente cruzar com o Ministério da Cultura e seus censores. Cada uma das letras de um CD programado para uma apresentação ao vivo deve ser aprovada para obter os alvarás necessários para um concerto ou o lançamento de um álbum no varejo. A aprovação pode demorar meses, e o ministério tem o seu jeito de sabotar os mais bem arquitetados projetos de campanhas promocionais globais. "A maioria das faixas rejeitadas são grandes sucessos no mercado internacional",disse Danny Sim, diretor de marketing para repertório internacional na Universal Music China. "As faixas 'Smack That' e 'I Wanna Love You' de Akon foram rejeitadas pelo governo. Eram o primeiro e o segundo single do álbum."

A censura pode se apresentar de formas menos óbvias. Quando o Sonic Youth tocou em Pequim em abril, a abertura, especialmente escolhida, com uma banda chinesa chamada Carsick Cars, foi retirada do programa no último minuto. Não foi dada nenhuma explicação, mas Thurston Moore, um dos guitarristas do Sonic Youth, disse suspeitar que o governo tivesse sido alertado sobre a participação daquela banda nos Concertos pela Liberdade no Tibet, nos Estados Unidos, na década de 1990 e a estava punindo indiretamente.

"Com quem se pode discutir?" disse Moore, depois de voltar aos Estados Unidos. "Não se discute. Se o fizer, você será preso."

As bandas em turnê pela China enfrentam também obstáculos bem mais prosaicos. Quando o Yeah Yeah Yeahs estava se preparando para tocar no Modern Sky, sua checagem de som levou muito mais tempo que o normal - "10, 12, 15 horas," disse Karen O, lastimando-se - porque os padrões profissionais da equipe local eram baixos.
Mas depois do concerto a banda comemorou em uma discoteca cavernosa, considerando o show um sucesso. Nick Zinner, o guitarrista, disse que tocar na China era algo que a banda queria fazer há anos. Quando lhe perguntaram por quê, Zinner esbugalhou os olhos e olhou para a multidão de jovens chineses bem vestidos.
"É o futuro," disse. Claudia Dall'Antonia

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