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28/11/2007

Distúrbios nos subúrbios da França são mais ameaçadores do que os de 2005

The New York Times
Elaine Sciolino*

Em Paris
Dois anos após os subúrbios imigrantes da França terem explodido em fúria, os rituais e atos de ressentimento reapareceram com uma semelhança assustadora: gangues entrando em confronto com as tropas de choque da polícia, o governo apelando por calma, os moradores se queixando de que são ignorados.

E apesar da escala da agitação dos últimos dias ainda não se comparar com as três semanas de convulsão em centenas de bairros e cidades em 2005, um novo fator preocupante a torna, de certa forma, muito mais ameaçadora. Os antigos arremessadores de pedras e incendiários de carros se armaram com espingardas de caça e as usaram contra a polícia.

Jorge Silva/Reuters -21.nov.2007 
Pessoas passam diante de vitrine quebrada em Villiers-le-Bel, subúrbio de Paris

Mais de 100 policiais foram feridos, vários gravemente, disse a polícia. Trinta deles foram atingidos pelo chumbo das espingardas e um foi ferido com uma bala usada para matar animais grandes, disse Patrice Ribeiro, um porta-voz da polícia, em uma entrevista por telefone. Um oficial perdeu um olho; o ombro de outro foi despedaçado pelos tiros. É legal a posse de espingardas na França -desde que o proprietário tenha licença- e corriam rumores nos círculos policiais de que os bandos de jovens estavam à procura de mais espingardas.

"É uma verdadeira guerra de guerrilha", disse Ribeiro à rádio "RTL", alertando que a polícia, que lutou para evitar o uso excessivo de força, não receberá fogo indefinidamente sem reagir.

Os eventos dos últimos dias deixam claro que as causas por trás da frustração e raiva -particularmente entre os jovens desempregados, com menor educação, a maioria filhos de imigrantes árabes e africanos- continuam as mesmas.

"Nós ouvimos promessas e mais promessas, mas nada foi feito nos subúrbios desde os últimos distúrbios, nada", disse em uma entrevista François Pupponi, o prefeito socialista de Sarcelles, que foi atingida pela violência. "Os subúrbios são altamente inflamáveis. Há pessoas em circunstâncias sociais terríveis, mais toda a raiva, todo o ódio, mais todos os rumores, e tudo o que é preciso é uma faísca para incendiá-los."

Na terça-feira, ocorreram os primeiros sinais de que a violência estava se espalhando além da região de Paris, quando uma dúzia de carros foi incendiada em Toulouse, uma cidade do sul.

Após os distúrbios de 2005, o governo do então presidente Jacques Chirac (que contava com Nicolas Sarkozy, o atual presidente, como um ministro do interior severo em lei e ordem) anunciou medidas para melhorar a vida nos subúrbios, incluindo dinheiro adicional para moradias, escolas e associações de bairro, assim como orientação e treinamento profissional para os jovens desempregados. Nada foi muito longe.

Naquela ocasião, Sarkozy alienou um grande número de habitantes dos bolsões étnicos problemáticos da França, mas depois adotou uma postura discreta, que ele manteve desde então. Durante sua campanha presidencial, ele permaneceu longe dos subúrbios problemáticos, ciente de que sua presença poderia incitar a opinião pública contra ele.

Em seus seis meses na presidência, ele tem se concentrado em injetar vida nova na flácida economia francesa por meio da criação de empregos e redução dos impostos e preços ao consumidor.

Sua iniciativa mais notável para lidar com a criminalidade juvenil é punitiva: a aprovação de uma lei em julho passado que exige uma sentença mínima para infratores reincidentes e que, em muitos casos, permite que menores com idades entre 16 e 18 anos sejam julgados e sentenciados como adultos.

Desde setembro, Fadela Amara, sua ministra encarregada de elaborar uma política para os subúrbios, realiza reuniões em prefeituras por toda a França preparando o que será um "Plano Marshall" para os subúrbios. A previsão é de que as propostas dela serão divulgadas em janeiro.

"Nós falamos sobre um Plano Marshall para os subúrbios desde o início dos anos 90", disse Adil Jazouli, um sociólogo que se dedica aos subúrbios. "Nós não precisamos de poesia. Nós não precisamos de reflexão. Nós precisamos de dinheiro."

Após voltar da China na quarta-feira, Sarkozy planeja uma visita ao policial gravemente ferido em um hospital perto do subúrbio de Villiers-le-Bel, ao norte de Paris.

Foi em Villiers-le-Bel, na tarde de domingo, que ocorreram as mortes de dois adolescentes identificados como Moushin, 15 anos, e Larimi, 16 anos, o evento que detonou os mais recentes tumultos. Os adolescentes estavam pilotando sem capacetes uma minimoto que colidiu contra um carro da polícia.

O acidente lembrou as mortes de dois adolescentes eletrocutados em outro bairro de Paris, em outubro de 2005, que segundo alguns relatos estavam fugindo da polícia. Aquele evento provocou os piores distúrbios civis na França em quatro décadas, lançando o país no que Chirac chamou de "mal-estar profundo".

Mas Sarkozy, ainda se recuperando da enorme greve dos transportes e protestos estudantis por toda a França neste mês, dificilmente usará os distúrbios atuais como veículo para se tornar introspectivo ou expressar sua revolta alto demais contra aqueles que certa vez chamou de "lixo".

Em 2005, ele prometeu limpar os jovens encrenqueiros de um subúrbio de Paris com uma Karcher, a marca de uma mangueira de pressão usada para lavar pichações; quando prometeu em um subúrbio naquele ano livrar os bairros suburbanos de seu "lixo", ele foi atacado com pedras e garrafas.

Na terça-feira, o primeiro-ministro François Fillon disse ao Parlamento que os confrontos eram "inaceitáveis, intoleráveis, incompreensíveis", prometendo punição aos infratores. "Aqueles que atiraram contra os policiais, aqueles que espancaram um policial quase até a morte, são criminosos e devem ser tratados como tais", ele disse. "Nós faremos de tudo para que nesta noite haja uma presença máxima de segurança."

Sob segurança pesada, Fillon visitou Villiers-le-Bel no que chamou de demonstração de apoio aos policiais e bombeiros. Cerca de 1.000 policiais foram empregados.

Os críticos do governo Sarkozy se queixam de que muitas áreas suburbanas não contam com presença policial e que o único momento em que há exibição de segurança é depois que a violência estoura.

"Sarkozy prometeu enviar mais policiais aos subúrbios, mas em muitos lugares há menos policiais do que havia há dois anos", disse Mohamed Hamidi, o fundador francês do Bondy Blog, um popular blog político criado no bairro parisiense de Bondy depois da violência de 2005. "Ele não cumpriu sua palavra. Quem sofre com toda a violência e carros queimados? As pessoas que vivem nestes bairros."

Em Villiers-le-Bel na tarde de terça-feira, o clima era tenso, com caminhões da polícia e tropas de choque posicionados nas ruas. Cerca de 300 pessoas, incluindo crianças, marcharam silenciosamente em memória dos dois adolescentes mortos.

Em uma padaria em uma pequena praça da cidade, Habib Friaa, o padeiro, lamentou suas mortes, especialmente a de Larimi, que tinha iniciado seu aprendizado lá há dois meses. "O trabalho de padeiro era sua paixão", disse Friaa. "Ele era um jovem corajoso, alguém que tinha esperança."

* Ariane Bernard, em Paris, e Basil Katz, em Villiers-le-Bel, contribuíram com reportagem adicional. George El Khouri Andolfato

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