UOL Notícias Internacional
 

28/11/2007

Israelenses e palestinos estabelecem como meta um tratado em 2008

The New York Times
Steven Lee Myers e Helene Cooper
Em Annapolis, Maryland
Na terça-feira (27/11) os líderes israelenses e palestinos comprometeram-se em negociar um tratado de paz até o final de 2008, estabelecendo um prazo para o fim de um conflito que já dura seis décadas.

O acordo não chegou a se constituir na criação do termo de negociações que os palestinos esperavam, mas ele ressuscitou um processo de paz que os Estados Unidos mantiveram em estado de dormência durante sete anos.

Segundo ambos os lados, o sucesso do acordo dependerá de até que ponto o presidente Bush pressionar palestinos e israelenses para a resolução de questões centrais que confundem os negociadores da paz desde 1979: o desmantelamento dos assentamentos israelenses no território ocupado da Cisjordânia, as fronteiras de um Estado palestino, o status de Jerusalém e o destino dos refugiados palestinos que fugiram, ou foram forçados a fugir, das suas casas em Israel.

Doug Mills/ The New York Times 
Presidente Bush (c) com Ehud Olmert (e), de Israel, e o presidente palestino Mahmoud Abbas

Ao anunciar o acordo em uma conferência de paz patrocinada pelos norte-americanos aqui, Bush reinseriu os Estados Unidos no papel de mediador da paz árabe-israelense - uma abordagem que ele anteriormente desprezou - em um momento no qual as guerras no Iraque e no Afeganistão contribuíram para que a imagem norte-americana no mundo árabe atingisse os patamares históricos mais baixos.

"Nós nos reunimos para criar a base para o estabelecimento de uma nova nação: um Estado palestino democrático que coexistirá lado a lado com Israel em paz e em segurança", disse Bush ao grupo de representantes de 49 países na Academia Naval dos Estados Unidos.

Ladeado pelo primeiro-ministro israelense Ehud Olmert e pelo presidente palestino Mahmoud Abbas, Bush apresentou a paz entre israelenses e palestinos como parte de uma luta mais ampla contra o extremismo no Oriente Médio.

Foi um momento de teatro diplomático, endossado pela presença de um membro da família real saudita e orquestrado por Bush, que prometeu que os Estados Unidos "monitorarão e julgarão o cumprimento do compromisso dos dois lados". O acordo, apresentado como "um entendimento conjunto" entre israelenses e palestinos, ficou distante do documento detalhado de cinco páginas que as autoridades palestinas desejavam. Mas ele foi um pouco além do que queriam os israelenses, já que pede um início imediato de conversações abrangentes com o objetivo de se chegar a um acordo final de paz dentro de 13 meses.

"Nós concordamos em dar início imediatamente e de boa-fé a negociações bilaterais a fim de concluir um tratado de paz, resolvendo todas as questões de destaque, incluindo todas aquelas centrais, sem exceções, conforme especificado em acordos anteriores", disse o texto de entendimento conjunto. "Concordamos em nos engajarmos em negociações vigorosas, progressivas e contínuas, e faremos todos os esforços para concluir um acordo antes do final de 2008".

Não se sabia se os israelenses e os palestinos haviam concordado quanto a qualquer coisa, até que Bush, Olmert e Abbas subiram no pódio no salão ornamentado de afrescos Memorial Hall, na Academia Naval dos Estados Unidos, perto de uma réplica do estandarte de batalha da Guerra de 1812, que traz a declaração "Não Desistam do Navio".

Na manhã da terça-feira, Bush manteve conversações de última hora com Olmert e Abbas, enquanto do lado de fora da sala a secretária de Estado Condoleezza Rice conversava com os principais negociadores israelense e palestino, o ministro das Relações Exteriores Tzipi Livni, de Israel, e Ahmed Khoury, ex-primeiro-ministro palestino, a fim de conseguir um assentimento mútuo quanto ao texto do acordo.

Ao fazer o anúncio, Bush leu em voz alta o entendimento conjunto, usando óculos, o que sugeriu que não houve tempo suficiente para preparar uma versão do documento em fontes grandes para o seu discurso.

Abbas apertou a mão de Olmert e de Bush, e a seguir, de forma objetiva e emocionada, mencionou sem rodeios as questões mais polêmicas que estão no centro das conversações marcadas para começar em 12 de dezembro.

"Não estou exagerando, senhor presidente, se digo que a nossa região encontra-se em uma encruzilhada que separa duas fases históricas: a fase pré-Annapolis e a fase pós-Annapolis", disse Abbas. "Afirmo que esta oportunidade pode não se repetir. E se tiver que se repetir, ela poderá não contar com a mesma unanimidade e ímpeto".

Quando Olmert discursou, ele também falou de forma emotiva e altamente pessoal. "Nós queremos paz", afirmou. "Exigimos um fim do terror, um fim do incitamento e do ódio. Estamos preparados para assumir um compromisso doloroso, repleto de riscos, a fim de concretizar essas aspirações", disse ele.
PAZ NO ORIENTE MÉDIO
Doug Mills/ The New York Times
Cúpula em Annapolis reúne palestinos e israelenses
EXTREMISMO E IRÃ


A reunião fez com que ocorresse o mais alto nível de contato oficial entre Israel e Arábia Saudita, que não mantêm relações diplomáticas.

Sentado do outro lado da sala, espremido entre os delegados de Senegal e Qatar, o príncipe Saud al-Faisal, o ministro das Relações Exteriores da Arábia Saudita, tomou notas das declarações de Olmert, com a cabeça ligeiramente inclinada. Quando chegou em Washington na segunda-feira para a conferência, o príncipe Saud jurou que não apertaria a mão de Olmert.

Olmert olhou diretamente para o príncipe Saud, no extremo oposto da sala, e disse que Israel deseja a "normalização" com o mundo árabe.

"Existem muitas coisas que nos separam", disse Olmert. "No entanto, também há muita coisa que compartilhamos. Assim como nós, vocês sabem que o fanatismo religioso e o extremismo nacionalista são uma receita perfeita para instabilidade e violência domésticas, para ressentimento e, finalmente, para a desintegração das próprias bases de coexistência baseadas na tolerância e na aceitação mútuas".

Quando o líder israelense concluiu o seu discurso, o príncipe saudita aplaudiu educadamente. Mais tarde, durante observações aos ministros das Relações Exteriores, o príncipe Saud afirmou que "chegou o momento para que Israel deposite a sua confiança na paz, após ter apostado sem sucesso na guerra durante tantas décadas". Ele pediu a Israel que retire-se da Cisjordânia.

"Israel e o mundo precisam entender que a paz e a retenção dos territórios árabes ocupados são incompatíveis e impossíveis de se reconciliar e alcançar", afirmou o saudita.

Autoridades palestinas disseram que um obstáculo à declaração conjunta foi a recusa de Israel de incluir uma referência da Liga Árabe à iniciativa de paz. Essa iniciativa, que foi reafirmada pelos países árabes no início deste ano, pede a israelenses e palestinos que cheguem a uma resolução "concordada" referente à questão dos refugiados palestinos.

As autoridades israelenses não gostaram dos termos e têm insistido em que os refugiados palestinos possuem o direito de retornar somente para um futuro Estado palestino, e não para Israel. Eles temem que a inclusão da linguagem da Liga Árabe na declaração conjunta possa manietá-los em um período posterior das negociações. Os dois lados resolveram a questão deixando a menção à iniciativa da Liga Árabe de fora do entendimento conjunto. Mas tanto Abbas quanto Olmert mencionaram-na durante os seus discursos.

Bush apresentou as negociações revigoradas como um momento histórico, uma oportunidade para promover a democracia em uma região cindida por conflitos, com os Estados Unidos e as suas tropas intrincadamente emaranhados na situação. "E quando a liberdade fincar raízes no solo pedregoso da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, isso inspirará milhões de pessoas em todo o Oriente Médio que desejam as suas sociedades construídas com base na liberdade, na paz e na esperança", disse Bush.

O significado que ele deu à superação do conflito israelense-palestino ecoa a importância que o presidente atribuiu anteriormente às suas iniciativas no Iraque. Este país e a guerra norte-americana que lá é travada não foram mencionados nas declarações de Bush na terça-feira, embora ele tenha mencionado as aspirações do Líbano de paz e independência da influência síria.

O Iraque também não esteve entre os países árabes que participaram da conferência aqui. Segundo o porta-voz do Departamento de Estado norte-americano, Sean McCormack, o governo iraquiano foi convidado, mas declinou o convite.

A Casa Branca declarou que o papel de Bush será o de mediador, usando a sua influência nas negociações quando necessário, mas deixando os detalhes relativos à diplomacia norte-americana para a sua secretária de Estado, Condoleezza Rice.

"A secretária Rice fará muito trabalho pesado, no que diz respeito a viajar à região e ajudá-los, como já vem fazendo", disse a porta-voz da Casa Branca, Dana Perino, descrevendo a diplomacia difícil que há pela frente. "Mas o que o presidente disse hoje aos líderes foi que ele está a apenas um telefonema de distância".

Os especialistas em Oriente Médio dizem que talvez o melhor resultado da conferência de Annapolis seja o fato de ela ter feito com que Bush, Olmert e Abbas se comprometessem publicamente a promover a paz.

"Annapolis significa que todos agora têm muito mais coisas investidas", afirma Daniel Levy, um ex-negociador israelense. Mas, ele acrescentou: "Só que agora também há muito mais a se perder". UOL

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