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29/11/2007

Musharraf tem o poder reduzido como presidente do Paquistão

The New York Times
Carlotta Gall e Jane Perlez

Em Islamabad, Paquistão
Um dia depois de renunciar como chefe do exército, Pervez Musharraf será empossado como presidente civil na quinta-feira, o deixando com poderes altamente reduzidos e Washington com um Paquistão muito mais complexo para lidar em sua luta contra a Al Qaeda e o Taleban.

Cedendo relutantemente à pressão doméstica e do exterior, Musharraf, 64 anos, abriu mão de seu papel militar em uma cerimônia sóbria na quarta-feira, colocando fim a oito anos de governo militar. Ele entregou o controle do exército ao general Ashfaq Parvez Kayani, 55 anos, um ex-chefe da principal agência de inteligência do Paquistão, os Interserviços de Inteligência.

A medida cria potencialmente centros de poder concorrentes no Paquistão, com um novo chefe do exército separado do presidente e o recente retorno do exílio de dois dos principais líderes de oposição do país. Isto provavelmente complicará a política antiterrorismo do governo Bush aqui, algo que as autoridades do governo em Washington esperavam evitar e um motivo para terem apoiado Musharraf por tanto tempo.

Aamir Qureshi/AFP - 27.nov.2007 
Presidente Pervez Musharraf passa em revista a guarda de honra do Paquistão

Altos comandantes do exército têm se queixado cada vez mais nos últimos meses de que Musharraf estava tão envolvido em sua própria sobrevivência política que se distraiu do combate à insurreição que se espalha pelo país, disseram oficiais militares ocidentais.

Apesar de finalmente renunciar ao posto de chefe do exército, ele provavelmente reterá grande parte de seu antigo poder como presidente civil, fortalecido por seu decreto de emergência de 3 de novembro e pelos seguidores leais que escolheu a dedo entre as altas patentes militares, segundo analistas paquistaneses.

Mas a curto prazo, Musharraf, que mergulhou o país em turbulência política com sua declaração de estado de emergência e que às vezes tem sido um parceiro frustrante na luta de Washington contra o terrorismo, se tornará uma figura menor, eles disseram, um presidente civil em um país onde tradicionalmente o poder fica nas mãos de um primeiro-ministro eleito ou dos chefes militares que os derrubam. Musharraf chegou ao poder em um desses golpes.

Apesar de Kayani ser considerado leal ao presidente, as verdadeiras alavancas do poder serão transferidas para ele, assim como acredita-se que ele seja favorável à remoção do exército do centro da política, eles disseram. "Kayani é leal a Musharraf, mas também ao Paquistão", disse um oficial militar ocidental. E por mais que Washington tenha apoiado Musharraf, ter um chefe do exército cuidando do cargo em tempo integral é uma mudança que provavelmente será bem-vinda. Funcionários do governo Bush já elogiaram Kayani como alguém com quem podem trabalhar.

Kayani, um comandante de infantaria e graduado pela Escola de Comando e Estado-Maior do Exército em Forte Leavenworth, no Kansas, que freqüentou em 1987 e 1988, é descrito por diplomatas e oficiais militares ocidentais como benquisto e o comandante mais capaz do Paquistão.

Ele já exerceu um papel proeminente na cooperação com os Estados Unidos. Ele foi promovido a general pleno e a vice-chefe do Estado Maior do exército em outubro. Ele visitou imediatamente as unidades que servem nas linhas de frente nas áreas tribais no Paquistão, e disse que resolver as dificuldades que atormentam o oeste do Paquistão era uma prioridade, disse um oficial militar ocidental.

Mesmo com sua nova posse, Musharraf enfrentará desafios políticos consideráveis. Antes de ceder seu posto militar, ele transferiu para a presidência o poder para suspender a lei marcial de fato em um decreto na semana passada, de forma que qualquer decisão de suspensão permanece firmemente em suas mãos.

Ele continua sob intensa pressão para rescindir o decreto, que suspendeu a Constituição e a Suprema Corte e é criticado pelos oponentes e diplomatas ocidentais como uma medida flagrante para ter sua eleição para presidente confirmada.

Musharraf também está sob pressão para libertar os importantes advogados e juízes que declararam seu decreto de emergência ilegal e que permanecem sob prisão domiciliar. Assim que forem libertados, eles provavelmente retomarão sua campanha contra ele.

Além disso, com as eleições parlamentares marcadas para 8 de janeiro, Musharraf também terá que lidar com dois oponentes políticos que acabaram de voltar do exílio, os ex-primeiros-ministros Benazir Bhutto e Nawaz Sharif, o homem que ele derrubou em um golpe em 1999.

Ambos os políticos pediram pela renúncia de Musharraf e por mudanças na Constituição, para reduzir os poderes do presidente em relação ao Parlamento. Como líderes dos maiores partidos políticos do Paquistão, eles poderiam chefiar o próximo governo na condição de primeiro-ministro, perpetuando suas disputas de poder com a presidência de Musharraf.

Apesar dos militares sob Kayani provavelmente apoiarem Musharraf como presidente, é improvável que intervenham para salvá-lo em futuras quedas de braço políticas, disse um ex-general e analista político, Talat Masood.

Um indício do sentimento está em uma carta que um grupo de 20 ex-generais, marechais-do-ar e almirantes, incluindo Masood, enviaram nesta semana para Musharraf pedindo que renunciasse como chefe de Estado assim como chefe do exército.

Eles pediram que suspendesse o estado de emergência e restaurasse a Constituição, retirasse as restrições à imprensa e a libertasse os presos políticos. A imposição do estado de emergência pelo chefe do exército estava dando má fama às forças armadas, eles disseram.

"As ações que ele está tomando realmente prejudicam o Estado", disse Masood, que segundo ele fizeram o Paquistão perder prestígio internacional. Eles encorajaram outros países a interferirem nos assuntos do Paquistão, especificamente a Arábia Saudita e os Estados Unidos, de forma como nunca fizeram antes. Ele também criticou Musharraf por sugerir que as armas nucleares do Paquistão não estariam seguras caso ele não estivesse no poder, o que ele disse não ser verdade.

Uma das coisas mais difíceis para Musharraf agora poderá ser parar de dar ordens.

"Ele é aquele que deseja se sentar ao volante", disse Pervaiz Elahi, que serviu como ministro-chefe do Punjab sob Musharraf. "Como comandante-em-chefe e presidente eu ainda vejo ele controlando o exército por cinco anos", ele disse.

Ele acrescentou que não acredita que Kayani buscará mudar algo. "Kayani é uma pessoa que apenas segue as regras", ele disse.

Apesar de não mais estar no controle do exército, Musharraf manterá certa influência dentro das forças armadas e dos serviços de inteligência, como devido ao seu relacionamento pessoal com o general Nadeem Taj, o chefe dos Interserviços de Inteligência, disseram funcionários.

Mas outros disseram que mesmo com os poderes adicionais dados ao presidente nos últimos anos, como a presidência do Conselho de Segurança Nacional, o verdadeiro poder está com o chefe do exército. Diferente do sistema americano, o presidente civil do Paquistão é chefe das forças armadas por virtude do cargo.

"Pela lei da inércia ele continuará tendo algum comando do exército", disse I.A. Rehman, diretor da Comissão de Direitos Humanos do Paquistão. Mas ele previu que durante os próximos meses a influência de Musharraf diminuirá. "Ele ainda conta com ouvidos no exército, mas não poderá mais lhe ditar ordens", disse Rehman.

Muito dependerá de quem formar um governo após as eleições parlamentares, porque as nomeações militares, entre outras coisas, cabem tecnicamente ao primeiro-ministro, disse Najam Sethi, editor do "Daily Times".

Em uma recente entrevista, Musharraf indicou que espera que seus simpatizantes na coalizão de governo anterior consigam novamente uma maioria, mas alguns destes membros se queixam de que os erros dele nos últimos nove meses prejudicaram suas chances nas urnas.

Uma série de ações de mão pesada transformaram Musharraf de uma figura doméstica popular e uma espécie de troféu para Washington -ele se candidatou a combater o terrorismo imediatamente após o 11 de Setembro- a um líder sitiado em casa e um embaraço cada vez maior para o governo Bush.

Em uma entrevista para Wolf Blitzer no programa "The Situation Room" da CNN, o presidente Bush disse que apreciou o fato de Musharraf ter "mantido sua palavra" e renunciado como chefe militar.

"Eu também espero que isto aumente a democracia paquistanesa, o fato de retirar sua farda é um forte primeiro passo", ele disse. "E a realização das eleições apesar da lei de emergência seria um sinal claro de que está colocando o Paquistão de volta ao rumo."

Tanto amigos quanto críticos de Musharraf apontam que sua decisão de afastar o ministro-chefe da Suprema Corte, Iftikhar Mohammed Chaudry, no início de março, como sendo seu maior erro, um que levou à imposição do estado de emergência em 3 de novembro.

"Ele perdeu a cabeça e tentou demitir o ministro-chefe", disse Humayan Gauhar, um amigo e escritor fantasma das memórias de Musharraf, "Na Linha de Fogo".

Musharraf se deixou levar pelo medo de que a Suprema Corte, cada vez mais independente sob Chaudhry, decidiria contra ele em seu esforço para se reeleger presidente mantendo ao mesmo tempo o posto de chefe do exército, disse Gauher.

Devido à sua mentalidade militar, Musharraf fracassou em calcular que o ministro-chefe armaria um movimento popular de advogados para incitar a oposição latente ao presidente, disse Gauher.

"Pedir ao ministro-chefe para que se aposentasse foi um comando", disse Gauher. "Eu não acho que a recusa estivesse em seus planos. Um civil sempre manteria tal possibilidade em mente."

A demissão do ministro-chefe trouxe à tona uma insatisfação pública latente com o governo militar. A recusa de Musharraf em abrir mão de seu posto militar se tornou foco da oposição e obscureceu muitas de suas realizações anteriores, disseram seus simpatizantes.

Quando tomou o poder em 1999 e derrubou Sharif, o ex-primeiro-ministro que retornou ao Paquistão no último fim de semana, Musharraf era visto como um recém-chegado bem-vindo com capacidade para limpar a corrupção que predominava na política paquistanesa. Ele se descrevia como um modernizador. Ele encorajou a abertura de emissoras de televisão independentes e libertou a economia estatista.

Nascido na Índia em 1943, ele veio para o Paquistão como refugiado na divisão dos países em 1947. Tal status o tornou um forasteiro na sociedade feudal que produziu grande parte dos governantes do país.

No início de seu governo, ele agiu rapidamente contra a corrupção, disse Farook Adam Khan, que atuava na época como procurador-geral para o Birô Nacional de Prestação de Contas. Mas após um ano o general mudou de marcha, disse Khan, deixou de perseguir os casos de corrupção e cedeu aos partidos religiosos de sua coalizão em vários esforços de reformas.

Os simpatizantes de Musharraf disseram que a remoção da farda pode ter ocorrido a tempo do presidente reconquistar parte de seu prestígio.

"Como um presidente sem farda ele nos ajudará nas próximas eleições", disse Elahi, o ex-ministro que é considerado o provável primeiro-ministro caso seu partido pró-Musharraf mantenha a maioria. George El Khouri Andolfato

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