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30/11/2007

Crimes de guerra no Afeganistão põem à prova compromisso da Polônia

The New York Times
Nicholas Kulish
Em Varsóvia
A Polônia está enfrentando um raro processo relativo a crimes de guerra, naquilo que é um problema crucial tanto para o compromisso do recém-eleito governo com as operações militares no exterior quanto para a iniciativa de modernizar as forças armadas do país.

Sete soldados poloneses estão detidos em uma cadeia militar em Poznan, acusados de matar seis civis afegãos, incluindo mulheres e crianças, na vila de Nangarkhel, em agosto último. Ainda não se sabe se os disparos de morteiros que mataram os afegãos foram resultado de má pontaria, más ordens ou más intenções.

As acusações contra os soldados lançaram o país em um território desconhecido sob os pontos de vista legal, moral e político. O caso transformou-se em um teste para o estômago da população polonesa, no que se refere a enviar soldados para um campo de batalha distante em apoio a aliados.

A questão é especialmente perturbadora em um país que possui um forte vínculo com as suas forças armadas, um resultado de séculos de divisão e domínio por potências estrangeiras. A Polônia tende também a enxergar a si própria como uma perdedora lutando do lado certo, algo simbolizado pelo legendário ataque da cavalaria polonesa contra os tanques nazistas na Segunda Guerra Mundial.

"Nós estávamos convencidos de que a nossa contribuição era não só estável e militarmente significante, mas também que defendíamos a lei internacional e procurávamos atender às necessidades de ordem humanitária", diz Bodgan Klich, o ministro da Defesa. "Segundo essa ótica, aquilo que ocorreu no Afeganistão representa um choque para a opinião pública polonesa".

"O momento do incidente é particularmente difícil porque estamos em uma fase crítica de remodelamento da nossa participação em missões militares, incluindo planos para nos retirarmos do Iraque", afirma Klich.

A manchete de capa da edição polonesa da revista "Newsweek", depois que os soldados foram presos em 13 de novembro, diz sem rodeios: "Sangue no Uniforme". Na capa da "Polityka", uma respeitada revista semanal de notícias, a questão maior foi exposta no título da manchete: "Afeganistão: O Que Estamos Fazendo Lá?".

O país mantém 1.200 soldados na operação da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) no Afeganistão. A Polônia tem sido também um aliado significante dos Estados Unidos no Iraque, e conta com 900 soldados em território iraquiano. O país tem sido um contribuidor consistente para as missões internacionais.

Especialistas militares ocidentais têm apontado a Polônia como sendo uma história de sucesso em meio aos países que integravam o extinto Pacto de Varsóvia, e que ingressaram na Otan. O novo governo também declarou a sua intenção de abolir completamente o alistamento obrigatório até 2010, à medida que a Polônia dá continuidade ao seu projeto de vários anos de transformar o seu exército, que deixaria de ser uma instituição esclerosada da era comunista, e tornar-se-ia uma força moderna ágil voltada para missões distantes como as do Afeganistão e do Iraque.

Mas a guerra no Iraque já era impopular entre a população polonesa antes mesmo do início da invasão em 2003. O partido oposicionista, a Plataforma Cívica, disputou as eleições parlamentares desta primavera baseando-se em parte na promessa de trazer as tropas para casa.

No seu discurso de posse na semana passada, o novo primeiro-ministro, membro da Plataforma Cívica, Donald Tusk, afirmou que as tropas polonesas estarão fora do Iraque até o final do ano que vem.

Mas Tusk reafirmou o compromisso do país em manter as suas tropas no Afeganistão. A opinião pública também é contrária à missão afegã, segundo uma pesquisa recente de opinião conduzida aqui pelo jornal "Gazeta Polska".

"O derramamento do sangue dos nossos soldados não tem sentido", disse na segunda-feira Agnieszka Kwiatkowska, 32, enquanto aguardava um trem na estação principal de Poznan.

Wladyslaw Czysz, 80, um ex-soldado que mora em Poznan, afirmou: "Os acusados deveriam ser aqueles que prenderam os soldados". Ele se referia à fotografia publicada em um jornal mostrando as prisões dos soldados por policiais usando máscaras de esqui, imagens que inflamaram a opinião pública.

Aqui, muitos civis dizem ou que os soldados são inocentes, ou que eles pelo menos deveriam gozar do benefício da dúvida, e afirmam que as mortes foram provavelmente acidentais.

O departamento de promotoria militar afirmou que na manhã do ataque com morteiros, patrulhas polonesas e norte-americanas deixaram separadamente uma base compartilhada por ambas. Elas foram atacadas com dispositivos explosivos improvisados. Várias horas mais tarde, um outro grupo de soldados poloneses foi enviado como reforços para as patrulhas que aguardavam junto aos seus veículos danificados. Foram esses reforços que abriram fogo com seus morteiros, matando os civis.

Até o momento, não houve nenhuma sugestão de envolvimento norte-americano nas mortes dos civis.

No início, os soldados alegaram que estavam respondendo ao fogo inimigo. Mas o tenente-coronel Zbigniew Rzepa, da equipe de promotoria, disse na segunda-feira: "Nós já sabemos que isso não é verdade", embora não tenha explicado por que. É improvável que o julgamento tenha início antes de fevereiro, e pode começar bem mais tarde, disse Rzepa. O momento em que ocorreu o ataque, dois dias após o primeiro soldado polonês ter sido morto no Afeganistão, alimentou a especulação na mídia de que os assassinatos podem ter sido um ato de vingança, embora tais sugestões tenham deixado de aparecer nos noticiários.

"Ninguém acredita que aquilo tenha sido um ato intencional de vingança por parte dos soldados poloneses", afirma Jacek Relewicz, o advogado de um dos soldados presos.

Marek Sterlingow, repórter da "Gazeta Wyborcza", um importante jornal diário polonês, diz: "Creio ser bastante improvável que eles tenham feito aquilo de propósito". Sterlingow estava na base no dia após o ataque, e escreveu diversas reportagens sobre o episódio. "É mais provável que o que aconteceu tenha sido algum tipo de acidente, talvez um acidente provocado por uma tática não muito boa. Acho que as forças armadas polonesas ficaram em uma situação tão ruim devido ao seu instinto de encobrir os fatos".

Apesar da controvérsia, o novo governo diz que está comprometido com a missão no Afeganistão. "Temos que contribuir para as missões da Otan", afirma Klich, o ministro da Defesa. "Mesmo em se tratando de um lugar tão exótico para a opinião pública polonesa como o Afeganistão". UOL

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