UOL Notícias Internacional
 

30/11/2007

Venezuelanos protestam contra plano para expandir poderes de Chávez

The New York Times
Simon Romero
Em Caracas
Três dias antes de um referendo que poderá expandir enormemente os poderes do presidente Hugo Chávez, as ruas desta cidade foram tomadas, na quinta-feira (29/11) por dezenas de milhares de indivíduos que se opõem às mudanças. Os protestos são um sinal de que os venezuelanos podem estar se recusando a colocar tamanha autoridade nas mãos de um único homem.

Até mesmo alguns dos mais fervorosos apoiadores de Chávez estão começando a mostrar sinais de hesitação quanto a apoiar as mudanças constitucionais que o presidente está promovendo, que acabariam com um limite para o número de mandatos presidenciais e centralizariam bastante a sua autoridade. Outras medidas aumentariam os programas de segurança social para os pobres e reduziriam a jornada diária de trabalho.

Novas fissuras estão emergindo em meio àqueles que antes formavam um bloco coeso de aliados, o que indica que Chávez enfrentará um teste duro nas urnas nos seus nove anos na presidência.

David Rochkind/The New York Times 
Protestantes antigoverno fazem passeata em rua de Caracas, na Venezuela

Nas favelas da capital, onde alguns dos mais fiéis apoiadores de Chávez moram em casebres de bloquetes, o debate a respeito das mudanças aumentou de intensidade nos últimos dias.

"Chávez está delirando se acha que nós o seguiremos como carneiros", diz Ivone Torrealba, 29, uma cabeleireira do pedregoso distrito de Coche, que apoiou Chávez em todas as eleições, desde a sua primeira campanha presidencial em 1998. "Se este governo é incapaz de me fornecer leite, ou asfalto para as nossas estradas, como é que ele dará uma pensão à minha mãe?".

Tanto Chávez, um autodescrito socialista que venceu eleições anteriores com ampla vantagem sobre os adversários, como os seus críticos dizem que as pesquisas de opinião demonstram que vencerão, o que sugere um resultado altamente disputado. Mas, rompendo com a prática adotada na eleição presidencial do ano passado, a Venezuela não convidou observadores eleitorais da Organização dos Estados Americanos (OEA) e da União Européia (UE), o que poderá deixar o governo vulnerável a acusações de fraude caso Chávez ganhe.

A polarização intensificada modificou a aparência de Caracas, com os grafites de "Si" dos apoiadores do presidente competindo por espaço com os de "No". Uma passeata pró-Chávez está marcada para esta sexta-feira em Caracas, antes do fim da campanha frenética em torno do plebiscito. As urnas deverão ser fechadas às 17h do domingo, e espera-se que os resultados já estejam disponíveis algumas horas depois.

"Estou aqui porque quero que os meus filhos vivam em um país governado por um presidente, e não um rei", afirmou Alexander Davila, 42, um gerente de banco que participava de uma passeata na quinta-feira, carregando um cartaz com os dizeres, "O socialismo é a filosofia do fracasso". "Tudo o que desejo é que os venezuelanos vivam em paz", acrescentou Davila.

A violência já marcou as semanas que precederam a votação. Dois estudantes que participavam de protestos antigovernamentais alegaram ter sido seqüestrados e torturados nesta semana por homens mascarados em Barquisimeto, uma cidade do interior. E, em Valencia, uma outra cidade venezuelana, um simpatizante de Chávez foi morto nesta semana em um tiroteio ocorrido durante uma passeata de protesto.

A tensão também foi intensificada por raras críticas à reforma constitucional feitas por um partido que rompeu com a coalizão chavista na Assembléia Nacional e por ex-confidentes do presidente; o governo reagiu a essa dissidência, chamando-a de "traição".

Algumas das críticas mais duras dos últimos dias foram feitas por Marisabel Rodriguez, a ex-mulher de Chávez e ex-primeira-dama do país. Em uma entrevista nesta semana à Rádio Caracol da Colômbia, Rodriguez afirmou que o presidente a ameaçou de morte depois que ela criticou publicamente as políticas governamentais (Chávez não respondeu publicamente a essa acusação).

Chávez e autoridades graduadas têm exibido um comportamento progressivamente errático antes do referendo. Chávez atacou líderes da Colômbia e da Espanha e sugeriu que seja realizada uma investigação para determinar se a CNN está procurando incitar uma tentativa de assassinato contra ele.

Boatos sobre tais complôs não faltam por aqui. A principal rede estatal de televisão também transmitiu nesta semana reportagens sobre um memorando em espanhol que teria sido escrito pela CIA, e no qual os planos para a desestabilização de Chávez são revelados. O envolvimento dos Estados Unidos na política venezuelana continua sendo um tópico particularmente interessante aqui, depois que o governo Bush apoiou tacitamente um golpe em 2002 que retirou brevemente Chávez do poder.

"Nós estamos desapontados com as alegações do governo venezuelano - e rejeitamos tais alegações - de que os Estados Unidos estão envolvidos em qualquer tipo de conspiração para afetar o resultado do plebiscito constitucional", afirmou em uma declaração Benjamin Ziff, porta-voz da Embaixada dos Estados Unidos na Venezuela.

Um porta-voz da CIA rotulou o documento de "uma falsificação", enquanto analistas, incluindo investigadores que anteriormente descobriram financiamentos do governo dos Estados Unidos a grupos oposicionistas venezuelanos, expressaram dúvidas quanto à autenticidade do memorando, que as autoridades venezuelanas afirmam ser parte de um plano denominado "Operação Alicate".

"Acho o documento bastante suspeito", afirma Jeremy Bigwood, um pesquisador independente de Washington. "Não há uma versão original em inglês, e o momento da sua divulgação é estranho. Tudo quanto a isso cheira mal".

Até mesmo alguns críticos de Chávez receberam bem algumas das mudanças constitucionais propostas, como as medidas para proibir explicitamente a discriminação com base na orientação sexual ou política dos indivíduos. A discriminação política tem sido uma das questões mais polêmicas desde que Chávez expurgou a companhia nacional de petróleo de elemento dissidentes e promoveu a politização da burocracia federal.

Mas a proposta de expansão dos poderes presidenciais para decretar estado de emergência alarmou grupos de direitos humanos. A nova constituição permitiria que o presidente suspendesse alguns direitos legais, como o de se ser julgado por um tribunal independente. E Chávez poderia declarar estado de emergência por períodos ilimitados e censurar organizações de notícia.

"Os defensores dessas emendas insistem em afirmar que este governo jamais violaria esses direitos básicos", diz Jose Miguel Vivanco, diretor da organização Human Rights Watch para a América. "Mas, por que então eles se empenharam tanto em conferir ao presidente poderes para proceder de tal forma?".

Na casa simples de Torrealba, a cabeleireira, que mora perto de um esgoto a céu aberto ao lado de uma ensurdecedora rodovia a sudoeste de Caracas, a mudança de lealdade de alguns eleitores é bem nítida. Em dezembro passado, ela e a irmã acordaram para soltar fogos, comemorando a reeleição de Chávez para um mandato de seis anos. Ele venceu a eleição com 63% dos votos.

Já neste ano, o clima na casa de Torrealba é sombrio. A sua irmã, Yohana Torrealba, 20, diz estar alarmada com aquilo que ela vê como intimidação política por parte de professores do Mision Ribas, um programa social que lhe fornece aulas de reforço em nível de segundo grau.

"Os professores nos disseram que temos que votar em Chávez e fazer passeatas a seu favor nas ruas", conta Yohana Torrealba. "Eles querem que a Venezuela fique como Cuba".

Nas favelas de Coche persiste a confusão a respeito de como a vida mudará caso as propostas constitucionais sejam aprovadas. Muitos moradores que são donos de suas casas, por mais simples que estas sejam, temem que o governo possa assumir o controle sobre a sua propriedade, apesar dos esforços do governo Chávez para afastar tais temores.

Outros se perguntam o que acontecerá ao prefeito e ao governador que eles elegeram caso Chávez obtenha o poder para escolher os governantes das novas regiões administrativas que deseja criar. E há aqueles que dizem ter medo de votar contra a proposta, por acharem que o governo possa discriminá-los se os seus votos forem revelados publicamente.

Mas Chávez comanda uma máquina política sem precedentes, e os seus aliados controlam todas as instituições importantes do governo. Ele também conta com a lealdade dos eleitores de Coche e de outros distritos. "É uma mentira dizer que eles tomarão as nossas casas", afirma Yanelcy Maitan, 40. "Ninguém fez mais pelos pobres do que Chávez".

*Mark Mazzetti contribuiu de Washington para esta matéria. UOL

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,02
    3,136
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    -0,02
    75.974,18
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host