UOL Notícias Internacional
 

01/12/2007

Liberdade artística está ameaçada na Rússia de Putin

The New York Times
Michael Kimmelman

Em Moscou
É longa a luta aqui por autoridade sobre os serviços de segurança, o setor de petróleo, a mídia e praticamente todas as alavancas de poder do Estado. O Kremlin de Putin, apesar de alguns recentes protestos antigoverno, venceu estas guerras sem esforço e promete consolidar sua posição nas eleições parlamentares. Mas agora há preocupação de que o Kremlin esteja voltando sua atenção para a cultura russa.

Há poucas semanas, o ministro da cultura russo censurou uma mostra de arte contemporânea russa em Paris patrocinada pelo Estado. Acusações criminais foram impetradas nos últimos dois anos contra pelo menos meia dúzia de não-conformistas culturais. Um dono de galeria, um agitador especializado em arte que aborda a cada vez mais poderosa Igreja Ortodoxa Russa e também o Kremlin, foi severamente espancado por criminosos no ano passado. As autoridades não indiciaram ninguém.

Ao mesmo tempo, o Kremlin está cortejando algumas importantes figuras culturais como Nikita Mikhalkov, o antes mimado cineasta enfant terrible dos tempos soviéticos, atualmente um grande promotor de Putin.

Há sinais de reação. No final de outubro, um programa de debate na televisão colocou Viktor Yerofeyev, um proeminente autor russo, contra Mikhalkov, que juntamente com alguns poucos outros escreveu uma carta bajuladora, supostamente em nome de dezenas de milhares de artistas, pedindo ao presidente para que permanecesse no poder além do limite constitucional de seu mandato, em março. "Você já ouviu falar de culto da personalidade?" perguntou Yerofeyev.

Mikhalkov vacilou. Yerofeyev venceu o programa na votação por telefone por grande margem, um evento quase impensável na atual televisão controlada pelo Kremlin.

Se é possível chamar algum debate na televisão como marco na recente história cultural russa, certamente é esse. A audiência do programa foi às alturas. Dezenas de escritores e artistas assinaram petições atacando Mikhalkov por presumir falar por eles. Uma linha de batalha em torno da cultura claramente foi traçada.

Estes não são tempos soviéticos, é importante lembrar, e artistas, atores, cineastas e escritores daqui podem fazer e dizer quase o que quiserem sem temer serem enviados para um gulag. Stepan Morozov e Aleksei Rozin, que interpretam o anarquista Michael Bakunin e o poeta do século 19, Nicholas Ogarev, na montagem russa de "The Coast of Utopia" (a costa da utopia) de Tom Stoppard, estavam nos bastidores certa noite recente exortando quão livre e animado é o teatro russo.

Teoricamente, desde que o centro do poder permaneça não afetado, qualquer coisa é permitida nas margens, onde a cultura séria costuma operar. (A cultura popular russa parece não incomodar ninguém, ou talvez não queira, e a televisão está firmemente sob o controle do Kremlin.)

Mesmo assim, alguns artistas e escritores proeminentes, cientes da longa e sombria história de repressão que os russos conhecem tão bem, e especialmente preocupados com a força que a Igreja está conquistando dentro do Estado, têm expressado profunda ansiedade com a incursão do governo na liberdade artística da mesma forma como fez em outros aspectos da sociedade.

"Eles estão criando rapidamente uma situação semelhante a do Irã, uma civilização nova-velha, uma civilização ortodoxa", disse Yerofeyev em seu apartamento na noite seguinte, em meio a uma clássica nuvem de fumaça de cigarro que ainda parece envolver cada intelectual russo. "O clima mudou totalmente. O que era permitido anteontem agora é perigoso. Eles ainda não reprimem como os soviéticos, mas lhes dê dois anos: eles encontrarão o caminho. Aquela votação por telefone foi um choque para as autoridades, que achavam que tudo estava estável e preparado para as eleições."

Bem, a comparação com o Irã é claramente um exagero, mas Yerofeyev não é o único a expressar medo. "Nosso futuro está se tornando nosso passado", me disse o renomado romancista Vladimir Sorokin. Há poucos anos, os livros dele foram destruídos e enfiados em um grande vaso sanitário de papel machê criado por alguns grupos jovens ultranacionalistas. O mais recente romance de Sorokin prevê uma Rússia que caiu no antigo Estado de governo autoritário. "Nós estamos retornando à era de Ivan, o Terrível", ele previu, falando sobre a Igreja e a guinada geral para dentro, anti-Ocidente.

Mikhalkov, no set de filmagens de seu próximo filme, em uma base militar fora de Moscou, respondeu a estas previsões com desdém: "Escute ao que está na televisão e rádio no momento e me diga, que limitações você vê?" Ele tentava não parecer irritado. Segundo ele, os artistas são perfeitamente livres. "Minha posição é de que o modus operandi da Rússia é o conservadorismo esclarecido", o que significa hierárquico, tradicional, banhado em religião.

Esta certamente é a linha oficial. Mas é dito que a Rússia nunca lidou com seu passado da forma como fez a Alemanha e, de fato, quando o ministro da Cultura do Kremlin tentou suspender a exposição de arte contemporânea russa em Paris recentemente, chamando as obras que considerava ofensivas de "uma desgraça" para a Rússia, ele estava repetindo a antiga retórica soviética e trazendo exatamente isto ao país, desgraça. A exposição foi aberta assim mesmo (aparentemente alguma intervenção de alto nível do governo francês salvou o dia), mas não antes de dezenas de obras terem sido retiradas, incluindo uma, "Era da Misericórdia", do grupo "Narizes azuis", mostrando dois policiais russos se beijando em um bosque de bétulas.

A obra mostra quão tépida é a arte que pode provocar uma reação aqui; ela certamente não causaria a menor agitação em uma galeria de arte no Ocidente. Mas contexto é tudo. Qualidade raramente importa nestes assuntos. O que causou protestos de católicos e do prefeito Rudolph Giuliani na exposição "Sensation" no Museu do Brooklyn, alguns anos atrás, não era grande arte, mas sua mistura calculada de religião e pornografia (e estrume de elefante) teve o efeito desejado, e o mesmo vale aqui: política, religião e sexo, o coquetel Molotov da censura, também são assuntos em torno dos quais a batalha cultural é travada na Rússia. São as guerras culturais que conhecemos, mas em um país com um sistema legal notoriamente ineficaz, se não corrupto.

O curador da exposição de Paris, Andrei Yerofeyev, o irmão de Viktor, agora enfrenta processos criminais, impetrados por um vice-presidente do Parlamento, pelos grupos jovens pró-Kremlin e por membros da Igreja. Acusações também foram impetradas nos últimos meses contra Yuri Samodurov, o chefe do Centro Sakharov, o museu e organização de direitos civis, por exibir algumas das mesmas obras (a acusação é basicamente de incitação ao ódio).

Como em todas as guerras culturais, também há uma dose de farsa: o chefe de Yerofeyev, Valentin Rodionov, o diretor da estatal Galeria Tretyakov, aparentemente embaraçado por ter cedido tão obedientemente à censura, agora processou o ministro da Cultura, Aleksandr Sokolov.

Correm rumores sobre os possíveis motivos financeiros daqueles que se beneficiariam com toda a controvérsia em torno do que é censurado. Afinal esta é a Rússia, onde o próprio dinheiro se tornou uma ideologia e, é claro, também estamos falando do mundo da arte.

Ainda assim, não causa surpresa que nenhum artista russo da exposição em Paris tenha protestado quando as obras foram removidas. "Eu não acho que a comunidade artística da Rússia seja organizada o suficiente para proteger seus próprios interesses", comentou Yerofeyev. Sem causar surpresa, ele parecia cabisbaixo.

Complacência, interesse próprio e medo são às vezes difíceis de distinguir nestas circunstâncias. Marat Guelman foi um aliado de Putin e um agente político que de lá para cá se transformou em crítico do Kremlin. Quando uma gangue de homens entrou em sua galeria de arte no ano passado e o espancou, ele estava expondo obras de um artista de etnia georgiana. Rússia e Geórgia estavam em meio a uma grande briga em torno da prisão pela Geórgia de oficiais militares russos sob acusação de espionagem. O Kremlin estava expulsando centenas de georgianos.

Guelman não sabe exatamente quem estava tentando enviar para ele -e talvez para outros como ele- uma mensagem com o espancamento. Como ele colocou, "o poder tem muitas mãos diferentes na Rússia": o Kremlin não precisa emitir ordens diretas para seus muitos aliados, religiosos, nacionalistas e outros, agirem segundo o que acreditam ser em seu benefício, estejam certos ou não. No mínimo, ele acha que não seria difícil encontrar os criminosos -se as autoridades quisessem.

"A histeria anti-Ocidente que está aumentando na Rússia agora está afetando as artes e, é claro, o principal papel nisto é exercido pela Igreja", disse Guelman. "A arte russa é irônica. Esta é nossa tradição. E é exatamente o que tanto o governo quanto a Igreja não gostam." Ele falou em seu apartamento, que por acaso possui uma grande vista pela janela de um símbolo da Igreja ressurgente, a recém construída Catedral do Cristo Salvador, aquela que Stalin notoriamente explodiu.

Mikhalkov, na base militar fora da cidade, estava dirigindo uma seqüência de seu filme vencedor do Oscar, "O Sol Enganador". Ele estava cercado por atores trajando uniformes soviéticos que batiam o pé contra o frio congelante nas trincheiras profundas, cavadas em um vasto campo solitário, coberto de neve. O céu era cinza plúmbeo.

Além da carta defendendo a reeleição de Putin, Mikhalkov causou surpresa recentemente ao filmar uma propaganda eleitoral pró-Putin e produziu um emotivo tributo de aniversário ao presidente, exibido pela televisão estatal. Ele se retirou para um trailer para prosseguir com o debate, que, mesmo sendo alguém que adora atenção tanto quanto poder, obviamente continuam lhe atormentando.

"Por que as pessoas temem o patriotismo?" ele perguntou. Ele quis diferenciá-lo da xenofobia. "Há muita preocupação entre a intelligentsia em torno do ensino das bases da cultura ortodoxa. É uma histeria."

Para ele, a Rússia precisa de autoridade. "Talvez para o chamado mundo civilizado isto soe tolice. Mas o caos na Rússia é uma catástrofe para todos. Mesmo se Putin nem sempre é o mais democrático, mesmo assim ele deve permanecer no poder porque não sabemos se o novo presidente começará a desfazer o que Putin fez."

Quando mencionei este comentário para Alexander Gelman, um importante dramaturgo dos tempos da perestroika, ele balançou sua cabeça. "Na era soviética havia apenas um partido mas havia peças e livros que apoiavam a idéia da democracia", ele lembrou. Apesar do nome soletrado de forma diferente, ele é pai do marchand de arte, de forma que não é exatamente imparcial. Dito isto, ele apresentou um bom argumento: "Quanto menor a democracia, maior a importância das figuras culturais. Se a tendência contra a democracia continuar, as figuras culturais ganharão maior influência".

"É uma desgraça para a Rússia escritores substituírem partidos políticos", ele acrescentou. "Mas talvez seja o que tenha que acontecer." George El Khouri Andolfato

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