UOL Notícias Internacional
 

03/12/2007

A filantropia adere ao grafite

The New York Times
Charles Isherwood
Onde foi parar o Anônimo?

Não me refiro aos compositores de antigas baladas populares inglesas, nem mesmo ao autor de "Go Ask Alice", a biografia falsa e levemente chocante [de uma garota viciada em drogas], que foi uma das mais importantes leituras de adolescentes na década de 1970. O que eu me pergunto é o que foi feito daqueles ricos filantropos que costumavam dar apoio às instituições artísticas e outras organizações de caridade e sem fins lucrativos, sem exigir que seus nomes fossem estampados em algum lugar - ou às vezes em qualquer lugar - de um edifício.

A idéia me veio à mente recentemente, quando fui assistir às peças que estrearam na fulgurante sede nova da Shakespeare Theater Company em Washington. O edifício de US$ 89 milhões é, aparentemente, o Sidney Harman Hall, mas a organização com várias ramificações, que inclui também o Lansburgh Theater é conhecida como o Harman Center for the Arts. De qualquer forma, as duas entidades estão enfeitadas com gala no novo edifício.

Mas isso é só o começo. Ao entrar, nós nos deparamos com um verdadeiro festival de nomes.

Entra-se pelo Saguão Arlene e Robert Kogod. De lá, pode-se escolher subir ao nível da orquestra pegando ou a Grande Escadaria Oeste Morris e Gwendolyn Cafritz Foundation ou a Grande Escadaria Leste Philip L.Graham Fund. (Pode-se perguntar: será que os amigos da família Cafritz se consideram desleais se entrarem pelo lado leste caso atrasados, e optarem subir pelas escadas de Phil?)

Se alguém chega com tempo de tomar um drinque antes da apresentação, pode ficar no Terraço Oeste James e Esthy Adler Orchestra, ou no que parece menos pessoal Terraço Leste American Airlines Orchestra. E não se esqueça de conferir seu pesado agasalho no vestiário Cassidy & Associates, antes de se dirigir ao Palco Landon and Carol Butler para assistir à apresentação.

A longa lista de nomes de benfeitores também se derrama pela fachada cor de terracota. Há outros mais gravados nas balaustradas de vidro do nível superior.

Na verdade, de cima a abaixo o novo teatro está coberto por esse "grafite" da classe filantrópica. Ir a um espetáculo pode ser algo como folhear o livro do ano do colegial de outra pessoa. Quem são essas pessoas? Eu deveria saber? Deveria dar importância? Com quanto eu precisaria contribuir para ter meu nome, digamos, assinando um bebedouro? E será que um mictório seria mais barato?

O costume certamente não é novo. Nem é exclusivo de, ou particularmente notório em, Washington. Nova York abriga os já veneráveis centros artísticos Andrew Carnegie, Avery Fisher e Alice Tully, só para começar. Depois das espetaculares desventuras do financiador e patrono das artes Alberto Vilar, o balcão nobre na Metropolitan Opera está agora com Mercedes T. Bass.

Mas quem já assistiu a espetáculos em qualquer um dos novos teatros ou auditórios construídos nos Estados Unidos, provavelmente notou que o conceito de concessão de nomes está meio fora de controle, pois cada recanto, por mais escondido, desses resplandecentes novos edifícios tem uma placa com o nome de algum doador rico, generoso e obviamente sem qualquer objeção à publicidade.

Porque então tornou-se notícia o fato de que uma dúzia ou mais de tais senhores ricos tenham reunido seus recursos para garantir que uma faculdade de administração de empresas em Wisconsin não recebesse - e eu repito, não - o nome de nenhum deles.

Como a The Associate Press noticiou em novembro, o reitor da Faculdade de Administração de Empresas da Universidade de Wisconsin-Madison não encontrou ninguém que pagasse US$ 50 milhões para dar o seu nome à escola. Então o reitor mudou de estratégia e descobriu que vários doadores estavam dispostos a contribuir para garantir que, durante pelo menos 20 anos, a faculdade não recebesse qualquer marca em particular, e em vez disso, continuasse simplesmente como a University of Wisconsin-Madison School of Business (um nome certamente já bastante extenso). O fundo sem nomes acabou levantando US$ 85 milhões.

"É um ato sem precedentes de filantropia desinteressada" disse à AP Terry W. Hartle, vice-presidente sênior do American Council on Education. "Espero que seja o início de uma tendência."

Parabéns, Sr.Hartle. E bravo! para os milionários anônimos que aderiram à companhia cada vez mais exclusiva de filantropos interessados apenas no bem que seus fundos possam trazer, não no crédito público que os doadores possam acumular ao fornecê-los.

Lincoln Kirstein pode ter feito mais pelas artes nos Estados Unidos que qualquer outra personagem do século 20. Foi o fundador da School of American Ballet e do New York City Ballet, e da instituição que veio a ser o Museum of Modern Art. Mas pode-se vistoriar cuidadosamente o New York State Theater, sede da companhia de balé desde 1964, inteiro e não encontrar seu nome impresso nele. Hoje em dia tal generosidade anônima corre o risco de parecer uma aberração.

As instituições artísticas nos Estados Unidos, ao contrário daquelas da maior parte dos países europeus, recebem escassos recursos do governo, portando, não podem ser acusadas se for vendido a alguém o direito de exibir seu nome em cada um dos tijolos de caros edifícios. E claro, é apenas humano desejar o reconhecimento pelos bons atos que alguém tenha feito.

Mas já houve época em que uma discreta placa coletiva ou o nome no programa pareciam ser suficientes. Vivemos agora em uma era diferente. A celebridade tornou-se um produto de luxo como qualquer outro e a riqueza pode adquirir um delicioso naco do tipo respeitável, por meio da generosidade caridosa.

Alguns podem ter dúvidas quanto ao que isso representa. Será que as pessoas iriam preferir que tais pessoas guardassem seu dinheiro para si e deixassem as artes à mingua? Talvez não, mas não dou grande importância ao privilégio de deixar meu casaco sob os cuidados de um escritório de advocacia, uma companhia aérea ou um magnata de um banco de investimentos.

De forma sutil, tais etiquetas de propriedade transmitem a mensagem de que a cultura pertence, em primeiro lugar e antes de qualquer outra coisa, aos ricos, que os artistas atendem ao comando de uma elite privilegiada. Pode haver uma triste verdade nisso, mas aqueles que fazem suas doações às artes não o fazem expressamente em benefício do bem público? Toda essa idéia de nomes em exposição acaba por minimizar o espírito idealmente altruístico, e até mesmo a doação feita.

Um episódio recente de "Segura a Onda" ("Curb Your Enthusiasm") abordou esse tema de forma bastante satírica. O personagem principal do programa, o alter ego ficcional de seu criador, Larry David, sentiu-se ofendido e melindrado, como só ele consegue ficar, quando descobriu que sua doação ao Natural Resources Defense Council - imortalizada na parede de uma nova ala - foi superada pela de um anônimo. "Parece que eu fiz a minha doação para receber o crédito!", ele lamentou, mortificado, com a esposa.

Se há algo que possa "segurar a onda" dos ricos e elegantes pela prática de dar seu nome a ações filantrópicas, talvez seja a possibilidade de ser comparado a essa pessoa ostensivamente grosseira. Claudia Dall'Antonia

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