UOL Notícias Internacional
 

06/12/2007

Chávez destila reflexão e raiva após derrota no refendo

The New York Times
Simon Romero

Em Caracas, Venezuela
O movimento político do presidente Hugo Chávez, antes considerado altamente acima de críticas internas aqui, está sendo consumido por recriminação e exame de consciência após sua proposta de transformar a Venezuela em um Estado socialista ter sido rejeitada pelos eleitores no fim de semana.

Chávez, que tinha aceitado cordialmente a derrota, tomou a ofensiva na coletiva de imprensa na quarta-feira, atacando seus oponentes, cuja vitória ele desdenhou com um palavrão. Ele insistiu que não desistiu de sua autodeclarada revolução para a Venezuela e que reapresentará as mudanças constitucionais propostas para aumentar seus poderes.

Ao mesmo tempo, Chávez reconheceu: "Este é o momento para iniciar um verdadeiro período de reflexão, de autocrítica". Tal processo já começou a dividir até mesmo seus simpatizantes ardorosos.

David Rochkind/The New York Times 
Simpatizantes de Chávez caminham próximo à mural com publicidade do "sim" no referendo

Alguns dos seguidores leais mais ruidosos de Chávez, entre eles a deputada Iris Varela, pediu para que ele ignorasse os resultados do referendo e implementasse algumas de suas propostas por meio dos poderes de decreto que lhe foram concedidos pela Assembléia Nacional neste ano.

Mas em uma rejeição explícita ao autoritarismo e ao crescente culto da personalidade que caracterizaram o movimento de Chávez no ano passado, outros estão pedindo para seus seguidores abraçarem um caminho mais pluralista.

"Chávez é um ser humano que comete erros", disse Luis Tascón, um deputado da Assembléia Nacional, que é controlada quase que totalmente pelos simpatizantes do presidente, incluindo Tascón.

"Se o chavismo pretende consolidar sua relevância histórica", disse Tascón, 39 anos, em uma entrevista em seu apartamento modesto em Caracas, "é preciso que seja mais do que apenas a respeito de um homem".

Tal declaração vinda de dentro do movimento de Chávez seria quase tabu nos dias que antecederam o referendo de domingo, quando acusações de traição eram feitas por Chávez e importantes autoridades contra qualquer um que se opusesse às amplas mudanças constitucionais defendidas por ele. Mas não mais.

A dissensão entre os chavistas, como os simpatizantes do presidente são chamados aqui, e ex-chavistas podem agora ser ouvidas no plenário da Assembléia Nacional, após a divulgação dos resultados da votação, que mostraram que as propostas perderam em Petare, La Vega e Caricuao, grandes favelas nesta cidade que eram bastiões pró-Chávez há um ano.

Perder tal apoio em tais fortalezas emblemáticas foi uma revelação chocante para o chavismo, um movimento há muito centrado no próprio presidente e difícil de definir em termos ideológicos.

No início de sua presidência em 1999, Chávez adicionou ao seu pensamento nacionalista a adulação a Simon Bolívar, o herói da libertação sul-americana do século 19, que nasceu na Venezuela, o combinando com medidas que visavam ajudar os pobres.

Após sua breve derrubada em um golpe em 2002, Chávez se inclinou para a esquerda e fortaleceu uma aliança com Cuba. Ele começou a se descrever como um socialista, temperando seus discursos com referências a Lenin, Fidel Castro, o teórico marxista italiano Antonio Gramsci e até mesmo Jesus.

Chávez, 53 anos, se vê na posição de defender seu compromisso com uma variedade de socialismo que aboliria as limitações de mandato para o presidente e permitiria a ele decretar estados de emergência ilimitados e apontar os governantes das novas regiões administrativas, algumas das propostas rejeitadas pelos eleitores.

Ele reapareceu em rede de televisão nacional aqui na quarta-feira com uma saraivada de ataques verbais. Chávez vestia um uniforme verde oliva e estava acompanhado de seus conselheiros militares. Ele criticou sua ex-esposa e ex-primeira-dama, Marisabel Rodríguez, que é uma crítica de suas políticas. Ele cantou uma breve canção zombando do presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, com quem está brigado, alegando que Uribe lembra o presidente Bush.

Ele também atacou fortemente Hernán Lugo-Galícia, um jornalista do jornal "El Nacional", que escreveu um artigo nesta semana alegando que as forças armadas intervieram no domingo após o referendo para pressionar Chávez a aceitar os resultados. Chávez rejeitou a reportagem de Lugo-Galícia como sendo um "conto".

Finalmente, Chávez disse que tentará novamente reformar a Constituição, explicando que pode ser melhor ter uma versão simplificada proposta pelo "povo". A proposta original de 69 emendas foi concebida por Chávez e pela Assembléia Nacional.

Alguns dos simpatizantes de Chávez disseram que apoiariam outra tentativa de reformar a Constituição. Mas outros estão buscando analisar o que saiu errado antes que novas propostas sejam feitas. O Aporrea, o mais influente blog pró-Chávez do país, está repleto de novas entradas nesta semana com diferentes opiniões.

Dentre elas, umas das críticas mais fortes ao movimento do presidente veio de Heinz Dieterich, um cientista político baseado no México que é um dos principais teóricos do chavismo nos últimos anos.

O chavismo, argumentou Dieterich, estava sofrendo de uma Assembléia Nacional e Ministério de carimbo, uma nova classe política insensível, uma equipe presidencial composta de bajuladores e de uma aversão ao debate sério sobre questões urgentes como a inflação, que aumentou 4,4% em novembro.

Se Chávez não aceitar um papel maior de outros na tomada de decisões, alertou Dieterich, "ele destruirá o processo que ajudou a construir".

"Não é apenas certo o ditado de que as revoluções devoram seus filhos, mas também que os líderes revolucionários, quando se convertem em condutores unilaterais, devoram suas revoluções", disse Dieterich.

Grande parte da crítica interna entre os chavistas está ligada aos esforços de Chávez de forjar um único partido socialista entre seus seguidores. Ele iniciou este projeto após conquistar a reeleição no ano passado, mas os críticos questionaram se seus líderes usariam o partido para eliminar a dissidência.

Parte destes temores se materializou. Tascón, por exemplo, foi expulso do Partido Socialista Unido da Venezuela às vésperas da votação de domingo após expressar sua opinião sobre um alto oficial militar que rompeu com Chávez no mês passado.

Outros chavistas alegam que a liderança do partido, formada por muitos que levam vidas privilegiadas, perdeu contato com a base de apoio do presidente nas favelas e no interior empobrecido.

"Muitos daqueles que lideraram a campanha do sim eram tão burocráticos que era impossível para eles convencerem a base chavista a votar pelo sim", disse Stalin Pérez Borges, um líder sindical. George El Khouri Andolfato

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