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06/12/2007

Simulações do olhar de pintores doentes produzem novo entendimento da obra

The New York Times
Guy Gugliotta
Para Claude Monet, 1912-1922 foi uma década divisora de águas. Ele talvez tenha sido o artista mais bem-sucedido de seu tempo, e sua genialidade já tinha lhe assegurado um lugar na história.

Mas à medida que envelhecia, suas pinturas notadamente perderam a sutileza. As pinceladas se tornaram mais bruscas, as cores mais fortemente azuis, laranjas ou marrons. Suas imagens perderam detalhe e se misturavam. Seus dias como rebelde de vanguarda tinham passado, mas alguns críticos posteriormente se perguntariam se o impressionista estava repentinamente tentando se tornar um expressionista abstrato.

O que há muito se sabe sobre os últimos anos de Monet é que ele sofria de catarata e que sua visão piorou tanto que ele pintava de memória. Ele reconheceu a um entrevistador que confiava "apenas nos rótulos dos tubos de tinta e na força do hábito".

Divulgação 
"Ninféias Azuis", de Claude Monet, considerada uma obra do auge da carreira do pintor

Agora, graças a técnicas digitais modernas, cientistas e críticos podem ter uma idéia melhor de como a catarata mudou o que Monet via. Neste ano, um oftalmologista de Stanford, o dr. Michael F. Marmor, descreveu no "The Archives of Ophthalmology" a criação de simulações de computador do mundo de Monet à medida que sua visão se tornava opaca, tornando-se borrada e transformando padrões de cor e luz em manchas turvas, sem foco, amarelo-esverdeadas.

Apesar de ser impossível saber como Monet queria que suas telas ficassem, a pesquisa de Marmor sugere que o entendimento de sua enfermidade física pode ajudar a avaliar seu trabalho. Independente de qual fosse a intenção de Monet, seus olhos forneciam pouca ajuda. "Ele não podia julgar o que estava vendo ou ver o que estava pintando", disse Marmor. "É um mistério como ele trabalhava."

Monet não foi o único. A França no final do século 19 e início do século 20 contou com um grande número de artistas importantes que enfrentaram sérias deficiências físicas -às vezes por décadas. Edgar Degas, conhecido por suas pinturas de nus e bailarinas, sofreu de degeneração macular, um mal na retina, por quase metade de sua vida. Quando morreu em 1917, seu colega Pierre-Auguste Renoir disse: "Qualquer morte concebível é melhor para ele do que viver da forma como estava".

Renoir sofreu de uma dolorosa artrite reumatóide por mais de 30 anos, continuando a pintar com a ajuda de assistentes que inseriam os pincéis entre seus dedos retorcidos.

Mary Cassatt, como Monet, tinha catarata. Camille Pissarro tinha problema no canal lacrimal. Ataques e outras desordens nervosas torturaram e no final destruíram Vincent Van Gogh.

Ao longo dos anos, Marmor e outros cientistas estudaram artistas em busca de um entendimento da influência da condição física no estilo e percepção. "Era difícil para eles julgar se sua arte estava atingindo o que pretendiam", disse Marmor.

Para alguns, a doença encerrou a carreira. A cirurgia de catarata era possível no início dos anos 1900, mas nem sempre funcionava.

"Eu aguardo com horror a escuridão completa", escreveu Cassatt em 1919, temendo que uma operação em seu olho esquerdo seria "um fracasso tão grande quanto a última". Realmente foi e ela parou de pintar.

Renoir sofreu seu primeiro ataque de artrite em 1888 e com o tempo sua capacidade motora foi comprometida. Ao longo do restante de sua vida, a artrite deformou progressivamente suas mãos e inchou suas juntas. "É doloroso demais vê-lo pela manhã", escreveu Julie Manet, uma sobrinha de Edouard Manet. "Ele não tem força para virar uma maçaneta."

Uma biógrafa de Renoir, a historiadora de arte Barbara Ehrlich White, escreveu em uma mensagem por e-mail: "Devido às suas incapacidades físicas", Renoir "teve que mudar, se tornar menos detalhista e mais solto. Ele continuou pintando até o dia em que morreu, mas devido ao seu problema, seus últimos trabalhos não chegavam perto do brilhantismo de suas pinturas anteriores".

Para artistas com problemas nos olhos, talvez seja surpreendente que enfermidades não mudem seus estilos de forma mais radical. Uma chave, disseram alguns especialistas, pode ser que apesar das percepções dos artistas poderem ser influenciadas por limitações físicas, elas também são formadas pelo que os artistas sabem e o que querem fazer.

"A maioria de nós está em modo foto instantânea", disse John Elderfield, curador chefe de pintura e escultura do Museu de Arte Moderna. "Mas a capacidade de traduzir memória visual em um meio diferente é outra coisa. Monet pintava há 50 anos quando teve catarata. É claro que pintava de memória. Ele pintava a partir da memória de toda sua vida."

É fácil ver o contraste de estilo. No quinto andar do Museu de Arte Moderna, um conjunto de três telas de ninféias de Monet estão distribuídas pela parede em uma homenagem ao artista no auge de seu brilhantismo. De um lado está uma pintura da ponte japonesa em Giverny do início dos anos 20, quando a catarata de Monet estava no pior estado. É uma mistura perturbadora de vermelhos escuros e marrons, mais escuros do que as ninféias, mas igualmente cativamente em sua intensidade.

Monet, apavorado com o exemplo de Cassatt, adiou a cirurgia, mas finalmente teve um olho operado com sucesso em 1923. Sua última pintura antes de sua morte, três anos depois, lembrava seus trabalhos iniciais. Ele também destruiu muitas telas do período da catarata, mas não se sabe se elas o surpreenderam. Ele também destruiu pinturas em outras ocasiões, em acessos de irritação.

Degas primeiro notou problemas nos olhos quando era membro da guarda nacional na Guerra Franco-Prussiana em 1870-1871, quando não conseguia mirar seu rifle por causa de um ponto cego em seu olho direito. Em 1890, seu olho esquerdo também começou a se deteriorar. A luz o cegava. Ele tentava usar a visão periférica para compensar a perda da visão central.

Marmor usou simulações de computador para avaliar o problema. A doença na retina, diferente da catarata, não causa grandes problemas com a percepção das cores. Mas Degas tinha a visão borrada, afetando sua capacidade de perceber forma e linha.

Um oftalmologista em Toledo, Ohio, o dr. James G. Ravin, que colaborou com Marmor no passado, sugeriu que o retorno de Degas ao pastel e seu interesse em escultura podem ter surgido da busca por um meio mais fácil de controlar.

As simulações mostraram que o desenho se tornou menos detalhado e as sombras se tornaram mais brutas à medida que a visão de Degas deteriorava. Mesmo assim, disse Marmor, seu trabalho deveria parecer mais suave para ele do que realmente era.

Um historiador de arte e um estudioso de Degas que lecionava na Columbia, Theodore F. Reff, escreveu em uma entrevista por e-mail que o problema na retina foi um fator no estilo posterior de Degas. "Amargura e crescente isolamento", causados em parte pela doença, podem tê-lo levado a "pintar, desenhar e esculpir de forma mais brusca e sucinta", disse Reff. Mas a doença nos olhos de forma alguma comprometeu sua arte, ele acrescentou. "O que seu desenho perdeu em plenitude de descrição realista e refinamento de execução, ele ganhou em grandeza e expressão."

Pissarro, que nos últimos 15 anos sofreu de infecção crônica no saco lacrimal de seu olho direito, tinha dificuldade de pintar ao ar livre, particularmente no inverno.

"Mas há um certo elemento de 'eu não vou parar o que quero fazer'", disse um bisneto do artista, Joachim Pissarro, um historiador de arte do Hunter College. "Você não quer analisar demais o impacto."

De fato, as paisagens urbanas de Pissarro de Rouen e Paris, consideradas como obras-primas, foram pintadas em interiores, atrás de uma janela, para proteger seus olhos.

A idéia de que a doença e suas conseqüências poderiam conduzir um artista por caminhos frutíferos gerou grande interesse em Van Gogh. Seu suicídio aos 37 anos após ataques e crises nervosas atribuídas de forma diversa à epilepsia, bipolaridade, esquizofrenia e abuso de substâncias.

Marmor rejeitou a especulação de que a afinidade de Van Gogh pelo amarelo em suas pinturas veio da "visão amarelada", causada pelo uso de dedaleira para o tratamento da suposta epilepsia. "Ele não poderia tomar uma quantidade suficiente para ter tal efeito", disse Marmor. "É tóxica demais. Ele adorava o amarelo por toda sua carreira."

Um bioquímico da Universidade do Kansas, Wilfred N. Arnold, também rejeitou as teorias de que a "loucura" resultou em um artista melhor. Arnold sugeriu que Van Gogh sofria de um mal metabólico congênito centrado no fígado, porfiria intermitente aguda, que pode provocar transtornos episódicos, depressão, alucinações, incapacidade e dores abdominais. Entre as crises, Van Gogh se comportava normalmente e pintava espetacularmente, disse Arnold, mas quando teve uma crise, ele desejou a morte. George El Khouri Andolfato

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