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08/12/2007

Junta militar mantém forte domínio sobre Mianmar

The New York Times
Seth Mydans
Em Bancoc, Tailândia
As ruas estão silenciosas em Mianmar. Os "elementos destrutivos" estão presos. A revolta internacional se acalmou. O poder da junta parece firme.

Dois meses depois de reprimirem enormes manifestações contra o governo lideradas por monges budistas, os generais que governam Mianmar têm motivos para sentirem-se aliviados.

Parece que eliminaram seu desafio mais difícil em duas décadas e manterão o controle pela força e medo, oferecendo apenas pequenas concessões diante das demandas de seus críticos no exterior.

Khin Maung Win/AFP - 3.dez.2007 
Ministro da informação de concede a primeira entrevista após protestos de setembro

Se houver mudança em Mianmar, dizem os especialistas, será um longo processo e emergirá de dentro da estrutura de poder.

Diplomatas e grupos de direitos humanos dizem que um número desconhecido de manifestantes e monges continuam presos até hoje, que muitos mosteiros da cidade principal, Yangun, foram esvaziados e que novas prisões acontecem quase todos os dias.

"Esta é uma continuação mais suave da repressão de agosto e setembro", disse David Mathieson, especialista do Human Rights Watch, que divulgou um relatório sobre o levante na sexta-feira (07/12).

Durante a repressão, as forças de segurança atiraram contra as multidões, bateram nos manifestantes e monges e prenderam arbitrariamente milhares de pessoas, segundo o relatório.

O documento contabilizou 20 mortes em Yangun, mas disse que o total provavelmente é muito maior. "Sem acesso pleno e independente ao país é impossível determinar o número exato de mortos", disse. O governo só admitiu 15 mortes.

Reunindo-se com a imprensa na semana passada, a principal diplomata americana em Mianmar, Shari Villarosa, disse que a continuação da repressão "gera questões sobre a sinceridade dos militares em seguir o que consideramos um diálogo genuíno que leve à reconciliação nacional".

No que parece um sinal da redução da influência dos Estados Unidos na região, a China, a Índia e vizinhos de Mianmar não deram ouvidos aos pedidos de Washington para um embargo econômico e um isolamento diplomático da junta.

Enquanto a atenção do mundo se voltava para outras partes, os generais deixaram claro que pretendiam seguir seu próprio curso, como fizeram por meio século de isolamento.

Na segunda-feira, eles marcaram sua posição desafiadora anunciando que um comitê de redação da constituição havia começado a trabalhar e que não ouviria vozes de fora. A constituição é um passo que a junta chama de "mapa do caminho da democracia", e muitos analistas chamam de estratégia para evitar uma reforma genuína.

"O mapa do caminho, é claro, levará a um governo civil dominado pelos militares, que se perpetuarão no poder", disse David Steinberg, especialista em Mianmar da Universidade de Georgetown, em Washington.

Como no passado, quando enfrentou pressão internacional, a junta ofereceu pequenos gestos de flexibilidade. Mas os analistas dizem que o que quer que aconteça, os generais não vão dar verdadeiro terreno aos pedidos dos EUA.

Em uma dessas concessões, um enviado da ONU, Ibrahim Gambari, deve visitar o país neste mês pela terceira vez, em uma tentativa de aproximar o governo de um diálogo com a oposição.

Ele segue os passos de meia dúzia de outros enviados da ONU nos últimos 17 anos, que não conseguiram moderar o comportamento da junta.

Em outra concessão, uma autoridade do governo fez três reuniões com Aung San Suu Kyi, líder em favor da democracia que passou 12 dos últimos 18 anos em prisão domiciliar. A autoridade, o ministro do trabalho Aung Kyi, disse na segunda-feira que mais reuniões estão programadas, mas foi vago sobre as datas. "Precisamos considerar o que vamos discutir e por que", disse ele. "Estamos escolhendo o que e por quê. Depois vamos pensar em onde, como e quando, no futuro."

Nesse comentário de desprezo, havia um tom de confiança dos generais em relação ao controle de suas relações com o mundo exterior.

"Não foi isso o que o Conselho de Segurança pediu -um processo genuíno para curar o país", disse um diplomata ocidental por telefone de Yangun.

"O nome do jogo para eles é seguir adiante, evitar qualquer questionamento e fingir que não há problemas", disse o diplomata, que falou sob condição de anonimato para cumprir a política da embaixada.

Em uma reunião com diplomatas e repórteres locais na segunda-feira, o ministro da informação Kyaw Hsan fez pouco dos protestos, dizendo que foi obra de poucos agitadores e monges dissidentes que estavam agindo com o apoio de poderes externos.

"De fato, os protestos de agosto/setembro foram triviais para todo o país e em comparação com outros eventos em outros países", disse o ministro da informação.

Eles se dissolveram rapidamente, disse ele, "porque o público em geral não tomou parte, e nossas forças de segurança puderam fazer ataques preventivos."

Os monges que participaram "não tinham contato com assuntos terrenos" e foram vítimas de fabricações e instigação de grupos contra o governo, disse ele.

A repressão, testemunhada pelo mundo exterior por fotografias e vídeos contrabandeados, atraiu a condenação e advertências de todo o mundo.

Entre os críticos estava a Associação de Nações do Sudeste Asiático, Asean, cujas palavras sugeriram verdadeiro endurecimento da opinião mundial contra Mianmar, que é um de seus membros.

Em uma declaração escrita pelo primeiro-ministro Lee Hsien Loon, de Cingapura, a Asean disse que os vídeos e fotografias "ecoaram a revolta de pessoas no sudeste asiático e em todo o mundo".

Esse ambiente, porém, parece ter passado.

Uma reunião de todos os 10 membros em Cingapura em novembro teria sido uma ocasião para dar as mãos aos EUA e fazer pressão sobre a junta. Em vez disso, a associação pareceu esforçar-se para acomodar os generais.

A pedido de Mianmar, a Asean cancelou um convite para que Gambari, o enviado da ONU, discursasse na reunião. Também mudou o texto de uma nova carta magna de forma a enfraquecer a seção de direitos humanos.

Como se nada tivesse acontecido em Mianmar nos últimos meses, o secretário-geral da Asean, Ong Keng Yong, disse: "Não queremos parecer muito confrontadores em uma situação como esta." Deborah Weinberg

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