UOL Notícias Internacional
 

09/12/2007

Destruição de fitas da CIA com suposta tortura atrapalha processos

The New York Times
David Johnston, em Washington
com Margot Williams em Nova York
A destruição de centenas de horas de interrogatórios gravados em vídeo de agentes da Al Qaeda, incluindo Abu Zubaydah, poderia complicar o processo de Zubaydah e outros, além de ressaltar as profundas incertezas que atormentam os funcionários do governo em torno do programa de interrogatório.

Autoridades reconheceram na sexta-feira que a destruição de provas como os interrogatórios gravados em vídeo poderia colocar em dúvida se a CIA, central de inteligência dos Estados Unidos, estava buscando esconder indícios de coerção.

Uma análise das gravações em tribunais militares indica que cinco detidos de nível mais baixo em Guantánamo foram inicialmente indiciados por ofensas baseadas em informações fornecidas por Zubaydah ou relacionadas a ele. Os advogados destes detidos poderiam argumentar que precisavam das fitas para determinar o que Zubaydah disse a respeito deles -- se é que o fez.

Zubaydah e outro suspeito, Abd al Rahim al Nashiri, que supostamente foi o principal planejador do ataque de 2000 contra o destróier Cole da Marinha americana, são os únicos suspeitos da Al Qaeda identificados até o momento como detidos cujas gravações dos interrogatórios foram destruídas.

A destruição das fitas provocou furor no Congresso e pedidos de investigação do Departamento de Justiça, mas também concentrou a atenção no caso de Zubaydah, que foi capturado em março de 2002. Como um dos primeiros associados mais próximos de Osama Bin Laden a serem capturados após os ataques do 11 de setembro, Zubaydah se tornou um caso-teste a partir do qual a CIA elaborou e então ajustou seu programa de interrogatórios "agressivos" e prisões secretas no exterior nos anos que se seguiram.

Atuais e ex-funcionários de inteligência disseram que Zubaydah foi submetido a técnicas coercivas pelos interrogadores da CIA antes mesmo do Departamento de Justiça ter emitido um parecer legal confidencial e formal, em agosto de 2002, declarando que técnicas coercivas não representavam tortura.

Não se sabe se o vídeo do interrogatório de Zubaydah é anterior ao parecer de 2002 e nem que atos estavam registrados nas fitas. O general Michael V. Hayden, diretor da CIA, disse numa declaração na quinta-feira que as fitas serviam como um "controle interno do programa em seus estágios iniciais", apesar do que chamou de "grande cuidado tomado e dos preparativos detalhados".

Mas a destruição das fitas em 2005 parece refletir o que atuais e ex-funcionários de inteligência descreveram como preocupações com a legalidade das práticas de interrogatório da CIA e o possível risco jurídico a que estavam expostos os funcionários que participaram do programa e os gerentes que os supervisionavam.

Métodos mais brutais
O caso de Zubaydah, que ainda é debatido nos círculos de contraterrorismo, abre uma janela para a discussão mais ampla sobre as políticas de interrogatório do governo Bush e as táticas que foram usadas contra Zubaydah e outros suspeitos de terrorismo.

O presidente Bush argumentou, desde que confirmou oficialmente a existência do programa de interrogatório em setembro de 2006, que Zubaydah provou a necessidade de métodos de interrogatório mais brutais porque forneceu informações valiosas sobre o plano do 11 de setembro apenas após tais táticas terem sido empregadas.

Tal afirmação foi repetida na quinta-feira por Hayden. Sua declaração dizia que, para forçar um teimoso Zubaydah a fornecer as informações, a CIA concebeu "procedimentos de interrogatório específicos, apropriados", os quais, ele acrescentou, eram "legais, seguros e eficazes". Ele disse que todas as técnicas empregadas pela CIA foram analisadas e aprovadas antes de seu uso pelo Departamento de Justiça e outras agências do Executivo.

Mas outros funcionários do governo há muito contestam alguns aspectos dessa versão da CIA. Esses funcionários disseram que Zubaydah, que foi levado para um local secreto na Tailândia, cooperou com os entrevistadores do FBI, que usaram uma abordagem não confrontadora, até que os interrogadores da CIA assumiram os trabalhos.

Rigor e confronto
Àquela altura, em abril ou maio de 2002, disseram autoridades informadas sobre os detalhes confidenciais do caso, os agentes da CIA expressavam insatisfação com o andamento das entrevistas e concluíram que Zubaydah estava revelando apenas um pouco do que sabia. Os interrogadores da CIA, liderados por um consultor externo, aumentaram o uso de técnicas agressivas. Os agentes do FBI presentes protestaram contra o uso das táticas brutais, mas os agentes da CIA insistiram que seus métodos eram aprovados.

A CIA e o FBI entraram em choque devido ao interrogatório e, após o confronto na Tailândia, o FBI proibiu seus agentes de participarem de sessões nas quais métodos brutais fossem empregados. Ex-funcionários do FBI disseram que leram as transcrições de algumas entrevistas, mas não foram informados sobre as gravações em vídeo.

Em suas primeiras entrevistas ao FBI, Zubaydah, que foi seriamente ferido durante sua captura, identificou Khalid Shaikh Mohammed como o planejador-chefe do 11 de setembro. Ele também identificou Jose Padilla, um americano que foi condenado num tribunal federal em Miami em agosto por acusações ligadas a terrorismo, como um agente de baixo escalão da Al Qaeda.

Funcionários do governo disseram que, durante as sessões de interrogatório de Zubaydah, seus interrogadores da CIA usaram várias táticas: barulho, posições desconfortáveis, temperaturas congelantes, isolamento e "waterboarding", uma técnica na qual a pessoa é lavada a acreditar que está sendo afogada. Zubaydah é a primeira pessoa conhecida que foi submetida ao "waterboarding" pelos Estados Unidos pós-11 de setembro. George El Khouri Andolfato

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