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09/12/2007

Para premiê italiano, persistência ainda compensa

The New York Times
Ian Fisher
Em Roma
O ritmo não era rápido, mas também não arrastado, e os companheiros de jogging de Romano Prodi brilhavam com um suor adequado. Mas não Prodi, o primeiro-ministro italiano famoso por sua tranqüilidade, que, pode-se dizer, não fica cansado quando se exercita. Até ao fim de uma recente corrida matinal na Villa Borghese ele parecia completamente seco.

Isso pode ser interpretado de várias maneiras. Ele pode ter 68 anos, mas está em ótima forma -- fisicamente, senão politicamente. Ou talvez seu corpo seja feito do mesmo material que sua personalidade, tão discreta que um cômico popular italiano o chamou recentemente de "Valium".

Ou talvez seja evidência de uma persistência que lhe permitiu sobreviver durante um ano e meio com péssimos números nas pesquisas, uma coalizão fraturada e previsões diárias de que seu governo de centro-esquerda cairia, convidando ao retorno de seu antecessor mais emocional, Silvio Berlusconi.

Em sua campanha no ano passado, ele chamou a si mesmo de "motor a diesel": pode não ser tão rápido, mas também não pára. "Francamente, a metáfora não foi mal colocada", disse Prodi sobre si mesmo, com sua voz profunda e em bom inglês, durante 40 minutos de corrida e conversa simultâneas. "Porque eu fiz tudo, apesar das dificuldades."

Marco Di Lauro/The New York Times 
O premiê italiano Romano Prodi durante corrida em parque de Roma

Para alguns italianos a metáfora é menos lisonjeira: a do trabalho entediante, disciplinado e solitário, especialmente comparado com o de Berlusconi, 71 anos, o homem mais rico da Itália, que não corre, mas voa em seu helicóptero particular, recebe em suas mansões e tem brigas públicas com sua esposa por causa de outras mulheres.

"Berlusconi é sexo", disse Giuliano Ferrara, editor do jornal conservador Il Foglio e ex-porta-voz de Berlusconi. "Prodi é esporte."

Mas a persistência, por enquanto, parece estar recompensando apesar do turbilhão político (mesmo pelos padrões da política italiana). Em novembro, Prodi sobreviveu a uma votação extremamente difícil no Senado sobre o orçamento, e continuou de pé mesmo enquanto Berlusconi dava duro para derrubar o governo.

Em conseqüência, o índice de popularidade de seu governo aumentou quatro pontos em novembro, segundo uma pesquisa conduzida por Renato Mannheimer, professor na Universidade de Milão, e publicada no jornal Corriere della Sera. Foi bom para Prodi, mas ainda assim apenas 35% dos italianos achavam que seu governo estava funcionando bem.

Então, no final de novembro, o grande senhor da música pop do país, Adriano Celentano, fez um tributo incomum a Prodi em seu show anual na televisão, sempre muito assistido e comentado na mídia local. "Eu tenho uma desconfiança sensacional: que talvez Prodi esteja no caminho certo", disse Celentano. "Ele só faz as promessas que pode cumprir. Mas o país não aprecia isso", disse Celentano.

Em busca de equilíbrio
O caminho que Prodi percorria na recente na corrida matinal era um trecho de cascalho, uma pequena pista para cavalos na Villa Borghese, o maravilhoso parque ao norte do centro histórico de Roma. Sua corrida, que começou há dez anos durante seu primeiro mandato de primeiro-ministro, parece ser a única maneira como ele mantém seu famoso equilíbrio psíquico.

"Não só me ajuda, como é uma necessidade", ele disse. "Às vezes não a faço, e sinto falta. Não posso ficar sem ela."

Normalmente Prodi corre durante 45 minutos, três vezes por semana -- às vezes numa esteira. Ele corre quando viaja e já fez jogging em lugares como São Francisco, Berlim e Indonésia. "Você coloca dois calçados na sacola, mais um short, uma camisa, e é tudo", disse.

Mas nem tudo, agora que ele é primeiro-ministro pela segunda vez (ele serviu um mandato de dois anos entre 1996 e 1998, quando também superou Berlusconi, e desta vez ele tomou posse em 2006), depois de cinco anos à frente da Comissão Européia.

Em sua corrida recente, seu séquito incluía alguns carros de guarda-costas, dois dos quais corriam com ele, além de dois membros de seu círculo íntimo: Daniele de Giovanni, um economista da Sicília que aderiu à corrida, e seu porta-voz alto e pálido, Silvio Sircana, que fica em segurança nas laterais, usando óculos de sol e fumando sem parar.

"Vamos falar de coisas sérias", disse Prodi depois de discorrer sobre seu regime de exercícios.

Ele foi seco sobre o fato de que enfrenta a mesma dificuldade básica que quando foi eleito: seu problema não é apenas Berlusconi e a oposição de centro-direita, mas como manter unida sua própria coalizão, formada por nove partidos que concordam em pouca coisa. Às vezes, são seus próprios aliados que vão às ruas para protestar contra seu governo.

Isso dificultou as mudanças substanciais, numa época de crescentes temores na Itália de que o país está ficando para trás do resto da Europa. Prodi conseguiu promover dois pacotes de reformas para agitar a economia, que estava estagnada. Mas ele enfrenta críticas por presidir um governo tão dividido que pouco faz -- uma crítica que ele não rejeita totalmente, embora insista que faz tudo o que é possível.

"Numa democracia o problema é manter a maioria", Prodi disse, às vezes cumprimentando pessoas que passeavam com cachorros e se espantavam ao ver o primeiro-ministro perseguido por um repórter americano com um gravador. "Temos uma maioria de só um voto."

Sua frustração apareceu quando falou sobre as recentes tentativas de reduzir os altos índices de absenteísmo entre os funcionários públicos.

"Tive uma reunião com os chefes da administração pública", disse. "E a recepção foi muito participativa. Então, é claro, a questão final foi: qual é a medida a tomar? A proposta dos responsáveis foi dar mais dinheiro para as pessoas irem trabalhar!"

O desafio
Apesar de seu governo ter durado mais do que muitos esperavam, e apesar de seu próprio recente aumento de popularidade, o poder de permanência de Prodi talvez esteja enfrentando hoje seu maior desafio. Tanto a esquerda quanto a direita estão se configurando de maneiras inéditas, que podem não incluir um papel muito duradouro para ele.

À esquerda, os dois maiores partidos se reuniram recentemente por trás do novo e popular prefeito de Roma, Walter Veltroni, que se tornou uma espécie de primeiro-ministro nos bastidores. À direita, Berlusconi dispensou seus próprios aliados para tentar um terceiro retorno por conta própria.

Os dois lados começaram negociações preliminares para refazer a lei eleitoral do país, considerada por todos imperfeita, porque cria exatamente a maioria parlamentar instável que tem dificultado tanto a vida de Prodi. Muitas pessoas, Berlusconi à frente, afirmam que quando houver uma nova lei eleitoral as eleições deverão se realizar imediatamente. Com Veltroni como novo líder da estrutura partidária de centro-esquerda, Prodi poderá ser deixado de fora.

Prodi se diz inabalado pela perspectiva. Primeiro, quaisquer mudanças na lei eleitoral levariam muito tempo. Além disso, uma nova lei poderia ser escrita para entrar em vigor depois de um certo período de espera, deixando-lhe, senão seus cinco anos completos, algo próximo disso -- antes de voltar ao seu emprego de professor.

"Poderia ser uma garantia de uma vida fácil", ele brincou, quando a corrida chegava ao fim.

Seus treinadores querem que ele pare, mas Prodi exige mais duas voltas, como que para sugerir que pode continuar muito mais. Ele até convidou o repórter para uma nova corrida -- desta vez com mais esforço -- em outra ocasião. Supostamente enquanto ainda for primeiro-ministro. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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