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10/12/2007

O Radiohead depois do 'pague-quanto-quiser'

The New York Times
Por Jon Pareles
Em Oxford (Inglaterra)
Pouco após o Radiohead ter lançado o seu álbum "In Rainbows" online em outubro, a banda perdeu a sua senha para o Max/MSP, um pacote de software musical dirigido aos jovens vidrados em computador que o guitarrista Jonny Greenwood usa constantemente. Não foi a primeira vez que isso ocorreu, disse Greenwood, enquanto tomava uma xícara de chá no Hotel Randolph, em Oxford, Inglaterra. Como sempre, o Radiohead entrou em contato com a criadora do Max/MSP, a Cycling '74, para pedir uma nova senha.

"Eles nos responderam com uma pergunta: por que vocês não nos pagam o preço que acham que a senha vale?", conta Greenwood.

Steve Forrest/The New York Times 
A banda britânica Radiohead, liderada pelo cantor e letrista Thom Yorke (centro)

Bem, o Radiohead estava pedindo que isso acontecesse. É exatamente dessa forma que a banda está vendendo a versão para download do "In Rainbows": os compradores podem pagar de zero a 99,99 libras esterlinas (cerca de US$ 212) pelo álbum em formato MP3. Sete álbuns e 16 anos desde haver iniciado o seu percurso de banda mais discutida no rock, o Radiohead está se arriscando com o comércio, bem como com a sua arte. Para a problemática indústria fonográfica, a banda colocou em ação a experiência mais audaciosa em vários anos.

O Radiohead não é o primeiro conjunto a tentar promover aquilo que um dos seus gerentes, Chris Hufford, chama de "entretenimento virtual". Mas é o primeiro capaz de lotar facilmente estádios onde quer que se apresente. "Isso dá uma sensação boa", diz Thom Yorke, o líder da banda, enquanto toma uma caneca de cidra no seu pub local em Oxford, o Rose and Crown. "Foi uma forma de deixar todos julgarem por si próprios".

A aposta do tipo pague-o-quanto-quiser feita pelo Radiohead não apenas desencadeou debates econômicos. Ela também fez de 2007 uma espécie de duplo ponto de inflexão para a música gravada. Um deles é como o ano do "agente-super-astro-independente". Após cumprir o seu contrato em 2003 com o seu último álbum para a EMI, "Hail to the Thief", o Radiohead recusou ofertas multimilionárias para um novo acordo com uma grande gravadora, preferindo permanecer independente.

"Era difícil fazer qualquer outra coisa", disse Yorke durante as primeiras longas entrevistas concedidas desde o lançamento do álbum. "O pior cenário possível seria algo como: assinem mais um contrato, peguem bastante dinheiro e depois deixemos que a máquina aguarde semipacientemente pela entrega do seu produto, que poderá ser acrescentado à lista de produtos que compõem o mito".

"Assinar um novo contrato com uma grande gravadora teria acabado conosco", acrescenta ele. "O dinheiro deixa a pessoa entorpecida, como escreveu M.I.A. Quer dizer, é tentadora a possibilidade de alguém lhe dizer: 'Você nunca mais terá que se preocupar com dinheiro', mas não importa quanto dinheiro alguém lhe forneça -- e daí, você não vai gastá-lo? Não vai descobrir formas imbecis de livrar-se dele? Claro que vai. É como construir estradas e esperar que haja menos tráfego de veículos".

O Eagles e Madonna, ambos com volumes de vendas muito maiores do que os do Radiohead, também abandonaram as grandes gravadoras em 2007, assim como compositores influentes como Joni Mitchel e Paul McCartney, que migraram para a Hear Music, a marca independente de propriedade da Starbucks. Enquanto isso, Prince seguiu a sua própria rota, passando dos acordos para distribuição de um só álbum por meio de grandes gravadoras para a oferta gratuita de CDs em shows, ou, mais tarde, na edição de domingo de um jornal britânico.

Migração para a Web
O segundo ponto de inflexão é a migração decisiva da música para a Internet. É claro que isso não se deu de forma súbita. A música tem circulado no universo online, vendida ou compartilhada, desde os dias das conexões discadas, e bandas como Smashing Pumpkins e Public Enemy distribuíram gratuitamente álbuns online inteiros anos atrás. Mas o ímpeto da música online vem se acelerando.

O iTunes da Apple tornou-se a terceira maior comerciante de música nos Estados Unidos neste ano. A Amazon acrescentou download de músicas por MP3 juntamente com as vendas de álbuns concretos. Gravações mistas de hip-hop, identificadas pelas gravadoras como alvos potenciais de processos por desrespeito a direitos autorais, desapareceram das lojas e das esquinas das ruas, apenas para prosperarem online, onde artistas e grupos como Lil Wayne e Cam'ron divulgam as suas mais recentes inovações.

E o Radiohead foi capaz de atrair atenção mundial para "In Rainbows" com uma promoção que consistiu apenas de um anúncio modesto de 24 palavras no seu website em 1° de outubro. Para a alegria da banda, ela pôde lançar a sua música quase que imediatamente, sem os meses de antecedências necessários para a fabricação de discos. Hufford diz que "In Rainbows" foi baixado pela Internet em lugares tão remotos (e conectados à Web apenas parcialmente) como a Coréia do Norte e o Afeganistão.

Em 9 de novembro, numa espécie de travessura de workaholics, o Radiohead organizou um webcast gratuito e bastante informal chamado "Thumbs Down", com a apresentação em tempo real de novas músicas e covers de Björk e os Smiths, a partir do desorganizado estúdio da banda em Oxford (vários clipes estão no YouTube).

Mas, segundo os integrantes da banda, as opções do Radiohead online estão entre as decisões mais fáceis tomadas durante o demorado processo de gravação de "In Rainbows". A banda e o seu produtor, Nigel Godrich, concentraram-se em 16 músicas e trabalharam com elas no estúdio, nas viagens e novamente no estúdio, por bem mais de dois anos de rearranjos e reedições torturantes.

"Nós passamos o tempo todo destruindo o trabalho anterior e fazendo tudo de novo", conta o baterista Phil Selway, em Oxford.

'Natureza tênue da vida'
Em "In Rainbows" as músicas de Yorke podem ser mapeadas como relacionamentos pessoais, o estado do mundo ou o estado da banda. "Por trás de grande parte do álbum há esta descoberta súbita da natureza tênue e cotidiana da vida", afirma Yorke.

A Internet já testemunhou grande parte da gestação de "In Rainbows", à medida que o Radiohead testou músicas em público, sabendo que elas seriam imediatamente pirateadas. "A primeira fez que executamos 'All I Need", bum! Foi parar no YouTube", conta Yorke. "Achei fantástico. No momento em que termino algo, fico realmente empolgado, orgulhoso, esperando que alguém ouça o trabalho e, aí, foi o que a platéia fez. Está tudo, bem porque o trabalho está em um telefone ou uma câmera de vídeo. É uma gravação pirata, mas o espírito das músicas está lá, e isso é bom. Em tal estágio, isso é tudo com o que você precisa se preocupar".

A banda preocupou-se com outras coisas. Após lançar "Hail to the Thief" e fazer uma turnê pelo mundo, o Radiohead tirou folga de um ano. Os membros, todos na casa dos trinta e poucos anos, voltaram-se para as suas famílias enquanto pensavam sobre o futuro. No início de 2005, começaram a praticar juntos sem compromisso -- embora, conforme diz Selway, a menção à palavra "álbum" tenha sido um tabu durante um ano. Eles contavam com uma lista de músicas, a maioria das quais apareceria dois anos depois no "In Rainbows", em setembro.

Mas, quando 2005 acabou, o Radiohead ainda não havia recuperado o seu ímpeto. Yorke, um compositor prolífico, fez o seu próprio álbum, "The Eraser", trabalhando na maioria das vezes sozinho com o seu computador e samples musicais.

Godrich estava ocupado gravando com Beck, e por isso a banda tentou fazer algumas sessões com Spike Stent, que havia trabalhado com Björk, no início de 2006. Os resultados desapontaram. A seguir o grupo decidiu que apresentações poderiam colocar as músicas em forma. Eles marcaram uma turnê de verão em 2006, tocando meia dúzia de novas músicas em cada show. Em breve, graças a gravações pirateadas online, os fãs estavam nitidamente reconhecendo cada uma delas. Após a turnê o Radiohead retornou ao estúdio, apenas para decidir que as músicas ainda não estavam prontas.

Mais uma vez a banda começou a fazer modificações. "Temos uma música e diversas maneiras diferentes de experimentá-las, mas não sabemos o que vai funcionar, e é por isso que a coisa toda soa meio estranhamente amadora", diz Greenwood. "Seria de se esperar que a essa altura já soubéssemos o que funcionaria, e o que ainda é frustrante, ou de certa forma meio encorajador, é o fato de não sabermos se o trabalho funcionará num laptop ou num piano".

Ele dá um meio-sorriso. "A coisa ficou bem confusa", acrescenta. "Aprendemos que não dá para repetir um método já usado em uma música quando isso não deu resultado".

Melodias
"In Rainbows" é o álbum mais graciosamente melódico do Radiohead numa década. Mas o Radiohead chegou até essa música de forma indireta, e com freqüência as melodias do álbum trazem mais coisa em si do que a princípio aparentam. "A canção 'Videotape', com letras sobre a gravação de um momento feliz de uma vida para ser visto postumamente, tem um piano metálico e uma batida tão elusiva que passamos cerca de um ano ensaiando essa música a fim de chegarmos a um acordo sobre o seu significado", diz Selway. "No decorrer de um ano, cada um de nós ficou totalmente confuso".

A música "Reckoner", que foi parte das apresentações ao vivo da banda, não soa nem um pouco como a "Reckoner" do álbum. Quando a banda retornou da turnê, decidiu que a música necessitava de uma segunda parte -- e, a seguir, de uma terceira. Finalmente, a parte original foi descartada. Greewood diz que para "All I Need" ele quis recapturar o ruído de fundo gerado por uma banda tocando alto num salão, quando "todo o caos emerge". Esse som jamais se materializa no ambiente mais analítico de um estúdio. A sua solução foi contar com uma seção de cordas, e as suas próprias violas com sons sobrepostos, sustentando cada nota da escala, encobrindo as freqüências.

York trabalhou em muitas músicas no Rose and Crown. "Sentava-me lá porque é uma mesinha muito bonita", conta o músico. "Aí eu pegava os meus rascunhos de papel e os enfileirava. Precisava inseri-los no meu livro de anotações, porque eram apenas rascunhos que acabariam sendo perdidos. Então, estou escrevendo aqui? Provavelmente. Não sei ainda. Estou apenas confirmando informações. Essa é uma coisa legal e relaxante de se fazer, e mantém a sua mente afinada com tudo o mais. E você acaba enxergando coisas que não conhecia".

Resultado vantajoso
A banda e os seus managers não estão divulgando os números relativos às vendas por download, e tampouco o preço médio -- e talvez nunca façam tal coisa. "É a nossa roupa de cama", explica Hufford. "Não queremos lavá-la em público". Uma declaração da banda repeliu estimativas feitas pela companhia de pesquisa online ComScore, segundo a qual, durante outubro, cerca de 3/5 das pessoas que fizeram download do álbum do conjunto conseguiram as músicas de graça, enquanto o resto pagou em média US$ 6.

Calculando o número de downloads gratuitos, a ComScore diz que o preço médio por download foi de US$ 2,26. Mas a firma não especificou o número total de downloads, dizendo apenas que uma "porcentagem significativa" das 1,2 milhão de pessoas que visitaram o site do Radiohead (www.inraibows.com) em outubro fizeram download do álbum.

Segundo um contrato típico de gravação, uma banda recebe royalties de cerca de 15% do preço total das vendas de um álbum após as despesas terem sido recuperadas. Sem intermediários, com custo material zero por download, o preço de US$ 2,26 por álbum seria vantajoso para o Radiohead -- isso sem mencionar a publicidade mundial.

Tanto Hufford quanto os membros do Radiohead garantem que a estratégia foi um sucesso. "As pessoas, na verdade, optaram por pagar", diz Hufford. "Isso é o fã dizendo: 'Queremos fazer parte da experiência'. Se a iniciativa for suficientemente boa, as pessoas jogarão uma moeda na tigela. Foi uma solução para uma série de questões. Duvido que isso algum dia funcionará da mesma maneira".

O Radiohead não abandonou o disco tradicional. Uma versão de luxo enviada por correio de "In Rainbows" (o álbum e um CD de bônus, dois álbuns de vinil, trabalho artístico e um pacote sofisticado, a um preço total de US$ 80) passou a ser vendida paralelamente à versão online, diretamente da própria companhia de vendas de produtos da banda, a W.A.S.T.E., e foi remetida para os primeiros compradores na semana passada.

Hufford diz que ele e Bryce Edge, o outro manager do Radiohead, bolaram esse plano do tipo "pague-quanto-quiser" durante uma conversa filosófica (e sob o efeito de drogas) a respeito do valor da música. Eles inicialmente propuseram lançar apenas as músicas para download e a caixa de luxo, mas a vontade da banda prevaleceu. Os músicos observaram que muitos dos fãs não são nem captadores de download nem colecionadores de elite.

Ações convencionais
Em 1° de janeiro (um dia no qual poucos álbuns são lançados), o disco "In Rainbows" deverá ser comercializado como CD e LP de vinil, em joint-ventures com as gravadoras independentes TBD (parte da ATO Records, cujo co-proprietário é Dave Matthews), nos Estados Unidos, e a XL, na maioria dos outros países.

Will Botwin, presidente e diretor executivo do ATO Records Group, descreveu otimisticamente o download como "a maior festa de audição do mundo", atraindo a atenção dos fãs do Radiohead para o álbum. A gravadora pretende fazer propaganda para uma platéia mais ampla, usando tudo o que estiver disponível, desde os anúncios de televisão até as mostras nas lojas. As estações de rádio já receberam a música "Bodysnatchers" -- que, segundo Yorke, foi inspirada nos contos de fantasma da era vitoriana -- e a tensa "Jigsaw Falling into Place".

E agora as gravadoras aguardam para ver se os downloads de "In Rainbows" em todo o mundo afetarão as vendas de discos. "A indústria fonográfica não sabe", diz um sorridente Colin Greenwood, o baixista do Radiohead, enquanto toma chá em Londres. Para o Radiohead, trata-se, com certeza, de um jogo conhecido. UOL

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