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11/12/2007

A importância do ato de presentear

The New York Times
Tara Parker-Pope
Quando a minha mãe morreu alguns anos atrás, os meus irmãos e eu conversamos sobre os vários aspectos segundo os quais a vida sem ela seria diferente. "Não haverá mais presentes", observou o meu irmão.

A minha mãe tinha paixão por dar presentes. Quando tornei-me adulta, muitas vezes roguei a ela que parasse de dar presentes e gastasse mais dinheiro consigo, mas ela recusou-se. Minha mãe gostava muito de dar presentes.

Dar presentes é há muito tempo um objeto de estudos a respeito do comportamento humano, sobre o qual se debruçaram psicólogos, antropólogos, economistas e especialistas em marketing. Eles descobriram que dar presentes é uma faceta surpreendentemente complexa e importante da estrutura das interações humanas, ajudando a definir os relacionamentos e fortalecendo os laços com a família e os amigos. De fato, os psicólogos dizem que freqüentemente é quem presenteia, e não que recebe, que obtém o maior benefício psicológico vinculado a um presente. Frustradas com as multidões, o tráfego e o comercialismo, as pessoas podem se sentir tentadas a deixar de trocar presentes nesta época do ano. Uma pesquisa feita em 2005 revelou que quatro entre cada cinco norte-americanos acham que os feriados de fim de ano são muito materialistas, segundo o Centro por um Novo Sonho Americano, que promove o consumo responsável.

Mas embora seja razoável reduzir os gastos durante os feriados, os psicólogos afirmam que deixar de trocar presentes com os entes queridos não é a melhor solução. As pessoas que recusam-se a aceitar ou a dar presentes durante as festas de fim de ano podem, segundo os especialistas, estar carecendo de uma importante conexão com a família e os amigos.

"Isso não ajuda o relacionamento", afirma Ellen J. Langer, professora de psicologia da Universidade Harvard. "Se eu não deixo que você me dê um presente, não o estou encorajando a pensar em mim e nas coisas das quais gosto. Estou impedindo que você experimente o prazer de engajar-se em todas essas atividades. O indivíduo presta um desserviço às pessoas ao não conceder a elas a possibilidade de presentear".

O valor social da dádiva foi reconhecido no decorrer da história humana. Durante milhares de anos, algumas culturas nativas norte-americanas engajaram-se no potlach, uma cerimônia complexa que comemora a dádiva ao extremo. Embora as interpretações culturais variem, freqüentemente o status de determinada família em um clã ou vila era ditado não por quem tinha mais posses, mas sim por quem presenteava mais. Quando mais suntuoso e extravagante o potlach, mais prestígio ganhava a família que dava os presentes.

Alguns pesquisadores acreditam que forças evolucionárias podem ter favorecido o ato de dar presentes. Os homens mais generosos podem ter sido aqueles com maior sucesso reprodutivo junto às mulheres (foi documentado, notavelmente, o uso de comida em troca de favores sexuais e cuidados físicos no nosso mais próximo parente primata, o chimpanzé). As mulheres talentosas em se tratando de dar presentes - fossem estes comida extra ou trajes de couro bem ajustados - ajudavam a sustentar o provedor da família, bem como os filhos dela.

Margaret Rucker, psicóloga da Universidade da Califórnia em Davis especialista em consumo, diz que os homens pensam mais no preço e são mais práticos quando se trata dos presentes que dão e recebem, enquanto as mulheres tendem a se preocupar mais com dar e receber presentes com significado emocional.

Rucker diz que muitas vezes lembra-se da história de um homem que subiu em uma árvore para pegar um ovo de robin (um pássaro comum na América do Norte, que lembra o sabiá) que tinha a mesma cor dos olhos azuis da namorada. "As mulheres dizem: 'Ah, que romântico'", diz a psicóloga. "Já os homens falam: "Essa é a coisa mais idiota que já ouvi. E, além disso, o que dizer da mamãe-passarinho que perdeu o seu ovo?'".

As diferenças entre os sexos no que diz respeito a dar presentes parece emergir bem cedo. Pesquisadores da Universidade Loyola em Chicago estudaram crianças de três e quatro anos de idade em uma creche. Todas elas haviam participado da mesma festa de aniversário. As garotas geralmente iam fazer compras com as mães e ajudavam a escolher e a embrulhar os presentes. Já os garotos com freqüência não sabiam que presente tinham dado. "Eles diziam algo como: 'Tirei uma soneca enquanto a minha mãe foi comprar o presente'", diz Mary Ann McGrath, subreitora da escola de pós-graduação em negócios da Universidade Loyola.

Dar presentes é muitas vezes a maneira mais óbvia que um parceiro encontra para demonstrar interesse, fortalecer um laço ou até mesmo sinalizar que um relacionamento deve terminar. Uma colega de Rucker observou que sabia que o seu casamento havia acabado quando o marido lhe deu um presente em uma sacola marrom de supermercado.

Segundo os pesquisadores, as pessoas que deixam de dar presentes perdem importantes pistas sociais. "A lista das pessoas às quais você presenteia lhe diz quem é importante na sua vida", diz McGrath. "Ela diz quem é mais e quem é menos importante".

Mas o maior efeito de dar presentes pode ser sobre nós mesmos. Presentear os outros reforça os nossos sentimentos por eles e faz com que nos sintamos mais afetuosos e atenciosos, diz Langer.

Para entender melhor a psicologia envolvida no ato de presentear, pesquisadores da Universidade Virginia Commonwealth estudaram recentemente o ato de dar presentes aos animais de estimação, descobrindo que ele é originário do desejo de tornar os animais felizes e fornecer objetos que aumentem o conforto e o bem-estar dos bichos. A pesquisa, que será publicada no ano que vem, pode parecer frívola, mas ela também possibilita uma compreensão do aspecto individualista do ato de presentear, já que os animais de estimação não podem retribuir, observaram os pesquisadores.

"Quando um indivíduo presenteia um outro, ele sente uma certa pressão por reciprocidade, mas isso não ocorre no caso dos animais de estimação", diz Tracy Ryan, professora de pesquisa de propaganda da Universidade Virginia Commonwealth. "Isso demonstra que grande parte do prazer está no ato de presentear, e no fato de a pessoa saber que se preocupou com alguém...". UOL

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