UOL Notícias Internacional
 

11/12/2007

O velho Partido Comunista é a única oposição restante capaz de fazer frente a Putin

The New York Times
Clifford J. Levy
Em Moscou
James Hill/The New York Times

Suponhamos que a sitiada oposição política da Rússia se mobilizasse para escolher o seu novo líder. Eis aqui algumas características que ela deveria evitar: uma semelhança física com os antigos chefões dos partidos nas províncias que costumavam gabar-se das cotas de produções de tratores nos gloriosos planos qüinqüenais; um talento para empolgar apenas aqueles russos que guardam boas memórias de Khruschev e uma velha tendência de dar declarações que poderiam ser interpretadas como anti-semitas.

Em outras palavras, seria de se esperar que a oposição não desejasse agregar-se em torno de um político como Gennadi A. Zyuganov, presidente do Partido Comunista da Rússia. Mas, atualmente, ela não tem muitas outras opções.

Com o partido do presidente Vladimir Putin se vangloriando de uma acachapante vitória eleitoral na semana passada que pela primeira vez varreu os liberais do parlamento, o partido de Zyuganov parece agora representar a única força viável restante contra o Kremlin de Putin.

Os comunistas são os únicos indivíduos que restaram que ainda mantém uma ponta do pé no governo - esses herdeiros de Lenin, de Stalin e dos outros titãs do século passado; os militantes que continuam brandindo a foice e o martelo mesmo quando muitos russos mais jovens vejam no velho emblema mais uma logomarca falsificada de camiseta do que um símbolo poderoso. Esse é um partido que encontra o seu apoio em grande parte junto aos idosos e àqueles que sentiram-se abandonados quando a Rússia passou a trilhar as veredas do capitalismo.

Uma prova do estado lastimável da oposição é o fato de os liberais - incluindo ícones como Vladimir A. Ryzhkov e Boris Y. Nemtsov, que ganhou proeminência na década de 1990 ao propugnar uma filosofia pró-ocidental e de livre mercado - estarem dando sinais de que poderiam formar uma aliança com Zyuganov, em uma tentativa desesperada de derrubar Putin.

Até mesmo alguns integrantes da intelligentsia urbana, que geralmente viam Zyuganov como um indivíduo fora de moda, amado apenas por aposentados iludidos, apoiaram, não obstante, o seu partido em 2 de dezembro, na esperança de fortalecer um rival de Putin.

Embora sem renunciar aos seus ancestrais políticos, Zyuganov vem tentando nos últimos anos reformular a sua organização à imagem de um partido comunista europeu ocidental, ou mesmo de um partido social-democrata. Os comunistas russos apóiam a propriedade privada, a liberdade de religião e a democracia multipartidária. Na recente campanha, eles disputaram com a plataforma populista de "restauração dos valores perdidos", atacando os oligarcas empresariais e a desigualdade social na Rússia.

Mesmo assim, Zyuganov é um combatente tão experiente - tendo participado das eleições desde o fim da União Soviética - que se a oposição lançar a sua candidatura para a eleição presidencial em março, isso seria como se os republicanos nos Estados Unidos se unissem em torno de Bob Dole para presidente em 2008.

E, apesar das medidas dos comunistas para melhorar a imagem, pode ser difícil para o eleitorado russo esquecer o Zyuganov de outrora. Na década de 1990, os comunistas contavam com a maior facção no parlamento, e os eleitores naquela época tendiam a associar os políticos com o caos político e econômico. Na década passada, Zyuganov atacava o capitalismo, e embora os russos possam atualmente ter sentimentos mistos quanto à era pós-soviética, eles adoram as suas lojas enormes, os carros e a liberdade para viajar.

Zyuganov também expressou idéias ultranacionalistas - incluindo o fato de ter sugerido que sionistas e judeus têm muita influência na Rússia e no mundo - que eram heresias para os ouvidos neoliberais. Não importa que recentemente ele tenha controlado mais a língua, e dito que se opõe ao anti-semitismo.

Por ora, quando o país olha para a eleição de março e intensificam-se as questões a respeito de quem sucederá a Putin (isso se ele deixar o poder quando terminar o seu mandato, conforme prometeu), alguns liberais estão suprimindo as suas dúvidas e cogitando uma união com os comunistas a fim de concorrerem com um candidato que se oponha a quem quer que seja apoiado por Putin.

Mesmo que eles juntem as forças, o mais provável é que o favorito de Putin vença. A vantagem do Kremlin ficou evidente nos resultados da eleição de 2 de dezembro, quando o partido de Putin, o Rússia Unida, conquistou 64,3% dos votos e os comunistas ficaram em um distante segundo lugar, com 11,6%.

Os partidos de oposição e monitores das eleições acusaram o processo eleitoral, alegando que este foi injusto e que favoreceu o Rússia Unida. O parlamento atual conta com um punhado de liberais como Ryzhkov, mas todos foram derrotados. Devido às novas leis eleitorais promovidas por Putin, Ryzhkov não poderia nem concorrer.

Leonid N. Dobrokhotov, um historiador comunista e assessor informal de Zyuganov, diz que os comunistas estão procurando transformar-se em um abrigo para os eleitores de alto nível educacional, observando que entre os membros do partido no parlamento está Zhores I. Alverov, ganhador do Prêmio Nobel de Física em 2000.

"Sei que parece bastante paradoxal receber apoio dos liberais, mas é possível explicar - os comunistas transformaram-se no único partido democrático no parlamento", diz Dobrokhotov. "Isto é uma tremenda mudança em relação ao passado. Não somos o Partido Comunista da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas".

Ryzhkov não concorda exatamente com isso. Ele diz que, de forma geral, nos últimos anos os comunistas chegaram a um acordo com o Kremlin no parlamento, recusando-se em se opor à maioria das iniciativas de Putin em troca de apoio e outros favores. Ele alega que, caso Zyuganov continue seguindo essa trajetória, o partido correrá o risco de acabar, porque os eleitores mais velhos que formam a sua base morrerão, e os jovens têm poucos motivos para apoiá-lo.

"A segunda estratégia é mais arriscada e criativa. Trata-se de os comunistas unirem-se aos outros grupos de oposição, até mesmo com os liberais e outras forças de esquerda, a fim de criar uma frente popular pela democracia", afirma Ryzhkov. "Seria uma frente ampla de oposição ao autoritarismo de Putin e ao seu Estado policial, e isso seria algo inteiramente novo".

Aliás, Ryzhkov não disse que apoiaria Zyuganov para presidente. Ryzhkov afirma ter um outro candidato em mente - ele próprio. UOL

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