UOL Notícias Internacional
 

12/12/2007

Al Qaeda explode dois carros-bomba em Argel

The New York Times
Katrin Bennhold e Craig S. Smith*
Em Argel, Argélia
A explosão de dois carros-bomba perto de escritórios da ONU e de um prédio do governo argelino mataram dezenas de pessoas na terça-feira, naquele que pode ter sido o ataque mais mortal realizado aqui em mais de uma década.

Dois diplomatas europeus em Argel disseram que relatos dos funcionários médicos e de resgate os levaram a acreditar que 60 ou mais pessoas morreram. O ministro do Interior da Argélia, Noureddine Yazid Zerhouni, disse aos repórteres em uma coletiva de imprensa, na noite de terça-feira, que até aquele momento havia apenas 22 mortes confirmadas.

O grupo terrorista Al Qaeda no Magreb reivindicou a responsabilidade, postando uma mensagem em sites islâmicos com fotos de dois homens que alega serem os autores dos ataques, que disse visar os "cruzados e seus agentes, os escravos da América e os filhos da França".

Alguns dos mortos eram estudantes a bordo de um ônibus, que estava a caminho de uma universidade, quando foi atingido pelo primeiro carro-bomba. No fim de noite da terça-feira, cerca de 200 pessoas estavam reunidas do lado de fora do perímetro montado pela polícia, enquanto as equipes de resgate vestindo sobretudos e capacetes buscavam retirar as vítimas presas nos escombros. Um raio de luz vindo da montanha de entulho que antes era um prédio da ONU marcava o local onde policiais e bombeiros trabalhavam para resgatar pelo menos um sobrevivente.

Uma mulher disse que estava lá desde a manhã e ainda aguardava por notícias de dois primos e uma amiga que trabalhavam no prédio. "Ainda não temos notícias, nenhum sinal de vida", ela disse enquanto uma amiga a confortava. Enquanto ela falava, uma caravana de caminhões rebocava as carcaças queimadas de carros e uma ambulância passou transportando um corpo em um saco branco.

Marie Okabe, a vice-porta-voz do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, disse que os números preliminares mostravam que pelo menos 11 funcionários da ONU morreram e que a organização estava tentando levantar os muitos outros que estavam desaparecidos.

"Nosso pessoal está trabalhando com as autoridades argelinas na remoção das pessoas dos escombros", ela disse aos repórteres em uma coletiva de imprensa realizada mais cedo na terça-feira, em Nova York.

Ban, que está em uma conferência em Bali, emitiu uma declaração condenando o atentado como "vil, indecente e injustificável até mesmo segundo os padrões políticos mais bárbaros". Ele disse que ordenou uma revisão imediata das políticas e precauções de segurança da ONU na Argélia.

A primeira bomba explodiu pouco antes das 9h30 da manhá, do lado de fora do Conselho Constitucional da Argélia, no bairro de Ben Aknoun. O conselho supervisiona as eleições no país. A bomba destruiu a fachada do prédio branco em estilo mouro, que foi recentemente construído por uma construtora chinesa. O ônibus que levava os estudantes que foram mortos estava a caminho do campus próximo da Universidade de Ben Aknoun quando ocorreu a explosão.

A bomba próxima do prédio da ONU explodiu cerca de 10 minutos depois na estreita rua Emile Payen, causando o colapso de grande parte do prédio branco de vários andares da ONU e arremessando pedaços de escombros pela rua. Ela deixou a rua coberta de cacos de vidro por várias quadras.

As organizações com escritórios no prédio atingido incluíam o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, o Programa Mundial de Alimento, o Fundo da População, a Organização Internacional do Trabalho, a Organização para o Desenvolvimento Industrial assim como os escritórios de segurança e informação ao público.

Okabe disse que a ONU conta com 19 funcionários estrangeiros permanentes na Argélia e 21 temporários. Ela disse que a ONU empregava 110 funcionários locais no país. A explosão arrancou as fachadas dos prédios vizinhos, incluindo um que abrigava a agência de refugiados da ONU. Pelo menos um funcionário morreu lá.

Foi a primeira vez que uma campanha recente de atentados por militantes islâmicos atinge a área, um tranqüilo bairro residencial conhecido como Hydra, onde se encontram muitas embaixadas e seus diplomatas em Argel. Apesar da segurança no bairro ser relativamente forte, o tráfego não era restrito diante do prédio da ONU.

A mensagem postada pela Al Qaeda no Magreb identificou um dos homens que apontava como um dos autores como sendo Ibrahim Abu Uthman, que exibia um bigode grisalho e parecia ter mais de 50 anos. O segundo, identificado como Abdul Rahman Abu Abdul Nasser Al-Aassemi, era mais jovem e sorridente. A mensagem disse que cada um detonou um caminhão contendo mais de 800 quilos de material explosivo.

Várias testemunhas informaram ter visto um caminhão branco ou uma van seguindo na direção do complexo momentos antes da explosão.

O presidente Bush condenou os ataques, os chamando de "violência sem sentido".

"Os Estados Unidos estão ao lado da população da Argélia, assim como da ONU, enquanto lidam com esta violência sem sentido", disse a Casa Branca em uma declaração. As forças armadas americanas e as agências de inteligência estão bastante ativas na ajuda à Argélia no combate às ameaças terroristas.

As explosões exibiam as características da Al Qaeda no Magreb, um antigo grupo terrorista que se aliou à rede terrorista de Osama Bin Laden.

O dia 11 se tornou o dia preferido para grandes ataques terroristas islâmicos, começando por aqueles nos Estados Unidos em 11 de setembro de 2001, seguidos pelo de Djerba, Tunísia, em 11 de abril de 2002, e o de Madri, Espanha, em 11 de março de 2004. Em 11 de abril, a Al Qaeda no Magreb explodiu dois carros bombas na capital, matando 33 pessoas.

O grupo foi fundado em 1998 como Grupo Salafista para Pregação e Combate, um ramo do Grupo Islâmico Armado, que juntamente com outras forças guerrilheiras islâmicas travou uma guerra civil brutal que durou uma década após os militares argelinos terem cancelado as eleições em 1992, porque o partido islâmico estava prestes a vencer.

A meta declarada do grupo terrorista é a derrubada do governo e a criação de uma teocracia islâmica na Argélia e por todo o Norte da África.

Em 2003, um líder do grupo salafista no sul da Argélia seqüestrou 32 turistas europeus, alguns dos quais foram libertados por um resgate de 5 milhões de euros, ou cerca de US$ 7,3 milhões no câmbio atual, pago pela Alemanha.

Autoridades disseram que o líder, Amari Saifi, comprou armas e recrutou combatentes antes das forças armadas americanas terem ajudado a encurralá-lo e prendê-lo em 2004. Ele atualmente está cumprindo pena de prisão perpétua na Argélia.

Apesar da maioria das estimativas colocar o atual número de membros do grupo na casa de centenas, ele sobreviveu a mais de uma década de tentativas do governo argelino de erradicá-lo. Ele é atualmente o grupo terrorista melhor organizado e financiado na região.

No ano passado, no quinto aniversário dos ataques do 11 de Setembro, a Al Qaeda escolheu o grupo salafista como seu representante no Norte da África. Em janeiro, o grupo retribuiu trocando seu nome para Al Qaeda no Magreb, alegando que Bin Laden ordenou a mudança.

Após a mudança de nome, o grupo se tornou cada vez mais ativo, com uma série da atentados a bomba por todo o país e ao redor de Argel, incluindo o ataque com dois carros-bomba na capital, em abril.

Um ataque em 6 de setembro, durante a visita do presidente Abdelaziz Bouteflika à cidade de Batna, no leste, matou 22 pessoas, e um homem-bomba explodiu dois dias depois no quartel da guarda costeira, na cidade de Dellys, matando pelo menos 28 pessoas.

O governo respondeu com uma campanha de contra-insurreição que matou dezenas de membros do grupo e capturou vários de seus líderes. Dificilmente passa um dia sem relatos de ataques terroristas ou choques com as forças de segurança nos jornais do país.

Sob a liderança de Abdelmalek Droukdel, o grupo também fez um esforço para despontar como parte da jihad islâmica global e agora atrai apoio de fora das fronteiras da Argélia.

Javier Jordan, o diretor da Athena Intelligence, um grupo de pesquisa espanhol voltado para assuntos islâmicos, disse que fontes de inteligência rastrearam os radicais islâmicos viajando entre a Argélia e a região da fronteira afegã-paquistanesa ou o Iraque. "Não se trata apenas de uma nova marca, mas de laços operacionais", ele disse.

Jordan disse que o momento e escolha dos alvos nos ataques de terça-feira parecem confirmar o "crescente foco global" do grupo "e sua evolução em um braço da Al Qaeda".

Jean-Louis Bruguiere, que foi o juiz chefe antiterrorismo da França até maio, há muito alertava que o grupo estava se transformando em uma das ameaças terroristas mais sérias à Europa.

"A Al Qaeda teve sucesso na criação de uma unidade avançada em uma região estratégica: o Norte da África é a porta para a Europa", ele disse em uma entrevista por telefone. "Os métodos que estão usando foram importados do Iraque."

* Reportagem de Katrin Bennhold, em Paris e Argel, e Craig S. Smith, em Paris. Warren Hoge, na ONU, e Victoria Burnett, em Madri, contribuíram com reportagem. George El Khouri Andolfato

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