UOL Notícias Internacional
 

12/12/2007

Presidente do Irã é um blogueiro moderado que aceita críticas

The New York Times
Nazila Fathi
Em Teerã
Mahmoud Ahmadinejad, presidente do Irã, não é o primeiro nome que vem à mente quando se pensa em cibernautas e mensagens instantâneas. Mas, acreditem se quiser, o homem é um blogueiro.

Igualmente surpreendente para um líder conhecido pela sua presença pública tempestuosa, é o fato de o seu blog não ser particularmente agressivo. Ele condena as políticas de Washington, mas escreve com pouca frequência e de forma mais ponderada do que costuma fazer quando se trata dos seus famosos discursos intempestivos. E os comentários dos leitores, publicados ao lado dos de Ahmadinejad, parecem ser bem menos censurados e mais duros do que seria de se esperar.

"Acho que você é um líder maligno", diz um comentário feito por um leitor norte-americano. "Nos dias de hoje e na era atual, a liberdade e a tolerância são necessidades, e o fato de o seu país matar intelectuais, jornalistas e minorias é horrível e profundamente perturbador".

Um outro leitor afirma que a alegação de Ahmadinejad, feita em setembro, na Universidade Columbia, de que não existem gays no Irã é absurda, e chama as suas políticas domésticas de "brutais". E um outro escreve: "Você poderia por favor calar a boca? Fico com dor de cabeça ao ler as bobagens que você escreve".

Ao lado desses comentários há outros de apoio, incluindo um que parece referir-se ao novo relatório de inteligência dos Estados Unidos, segundo o qual o Irã não está ativamente tentando fabricar armas nucleares, algo que Ahmadinejad afirmou repetidas vezes. "Eu sabia que você estava falando a verdade", escreve um canadense.

Essas passagens estão disponíveis no site www.ahmadinejad.ir em persa, árabe, inglês e francês. O presidente mantém o blog há mais de um ano e promete dedicar 15 minutos por semana para atualizá-lo.

"Ele possui um entendimento agudo de publicidade", afirma Karim Arghandehpour, cientista política e jornalista em Teerã. "O seu blog revela como ele acredita em instrumentos modernos de publicidade e mostra que deseja utilizá-los".

No seu mais recente artigo, Ahmadinejad forneceu um "Guia para a Governança Islâmica" e escreveu sobre como uma autoridade deve considerar as tarefas como "suas responsabilidades perante Deus" de ajudar o povo. "É nesse sentido que o sorriso de um órfão é mais importante do que o contentamento de governantes ambiciosos", diz ele.

Existe uma ironia política no fato de Ahmadinejad manter um blog, já que outros blogueiros iranianos, incluindo repórteres que trabalhavam para sites de notícia na Internet, passaram a sofrer mais pressão após a sua eleição. Centenas de websites e blogs que criticavam o governo foram bloqueados. A censura ficou tão disseminada que em determinada ocasião o blog do presidente foi equivocadamente bloqueado junto com o Google durante um dia inteiro.

Na verdade, a prática de manter blogs tornou-se comum entre ex-governantes, especialmente os políticos reformistas que não contam com uma plataforma para expressar as suas idéias.

A primeira autoridade governamental a tornar-se um blogueiro foi Mohammad Ali Abtahi, o vice do ex-presidente Mohammad Khatami, que continuou sendo um blogueiro ativo. Ele atualiza o seu website todos os dias há quatro anos.

"Fiquei entusiasmado quando o presidente criou o seu blog", diz Abtahi. "Mas parece que é apenas formalidade. O computador é um dos vários utensílios na sua mesa de trabalho que ele não usa com muita freqüência".

No entanto, o blog do presidente expõem as técnicas incomuns que ele utiliza - como os caminhões que o seguem nas viagens às províncias para coletar as cartas do povo dirigidas a ele com pedidos de ajuda - a fim de promover a sua agenda populista.

Ahmadinejad procurou abordar quase todas as questões que lhe dizem respeito. Ele escreveu sobre a liberdade no Irã, referindo-se aos protestos de estudantes contra ele um ano atrás na Universidade Amir Kabir, em Teerã, como um exemplo da existência das manifestações no país. "Tive uma sensação de felicidade ao ver um pequeno grupo insultar o presidente eleito pelo povo, destemidamente, em meio a uma maioria", escreveu ele, sem referir-se ao destino dos estudantes, muitos dos quais estão atualmente na prisão.

Em uma carta a uma mãe norte-americana, cujo filho morreu no Iraque, ele chama os Estados Unidos de "promotor da guerra", mas diz respeitar todos os povos do mundo, inclusive os norte-americanos. Em um outro artigo, ele condena a prática de se tirar impressões digitais de passageiros, como os iranianos, pelos agentes de alfândega dos Estados Unidos, e sustenta que isso provocou ódio contra o governo norte-americano.

Embora os comentários publicados no blog sejam escrutinados, os da versão em inglês são mais hostis do que os escritos em persa. Os comentários em persa expressam mais simpatia e admiração pelo presidente, mas foi permitido um pouco de sarcasmo. Ibrahim Sadegh-al "agradeceu" ao presidente pela criação de mais empregos por meio de políticas econômicas que geraram um mercado negro para os bens de consumo. Ele diz que na sua cidade só havia dois postos de combustível antes que a gasolina fosse racionada no final de junho.

"À época, um deles estava sempre fechado, mas agora temos 3.000 pessoas vendendo gasolina", escreveu ele, referindo-se às pessoas que vendem as suas cotas de combustível no mercado negro.

Na sua autobiografia, Ahmadinejad escreve sobre a sua infância em uma pequena aldeia, a pobreza da sua família, os gastos excessivos do governo anterior, o que gerou mais pressões sobre os pobres, a sua adoração pelo falecido aiatolá Khomeini, o fundador da revolução islâmica e as suas memórias da Guerra Irã-Iraque. Ele se descreve como tendo sido um jovem piedoso e estudioso, que também precisou trabalhar quando adolescente devido à pobreza da sua família.

O blog foi alvo do ataque de hackers diversas vezes. Em agosto, um grupo de hackers chamado Yahoo Underground atacou o site e inseriu nele uma mensagem sarcástica, dizendo: "Nós o agradecemos em nome de todos os hackers iranianos por defender os direitos do povo iraniano contra todos os países do mundo. Esperamos que você defenda o direito irrefutável do povo iraniano à energia nuclear até o seu último suspiro". UOL

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