UOL Notícias Internacional
 

12/12/2007

Taleban deixa rastro de crianças doentes no Afeganistão

The New York Times
C.J. Chivers

Em Karawaddin, Afeganistão
O menino afegão estava agachado perto de um muro nesta aldeia remota, onde a força do Taleban impede o governo de fornecer serviços. Seus olhos apresentavam uma cobertura amarela opaca.

O sargento Nick Graham, um médico do Exército americano, se aproximou. Os aldeões se aglomeraram em volta. Eles disseram que o nome do menino era Hayatullah. Ele tinha 10 anos e desenvolveu o problema nos olhos há seis anos. "Você pode ajudá-lo?", perguntou um homem.

Graham examinou o menino. Ele estava cego. O médico não podia fazer nada.

Tyler Hicks/The New York Times 
Criança aguarda para receber atendimento médico em Zarnkhel, no Afeganistão

Um segundo homem apareceu, empurrando um carrinho de mão no qual se encontrava uma criança encurvada com lábios roxos e pés retorcidos, problemas associados a doença cardíaca congênita severa. Graham escutou o coração dela. Sem cirurgia, ele disse, o menino provavelmente morreria.

Um terceiro homem dobrou a esquina vindo de um beco, segurando uma menina, Baratbibi, pelo braço. Ela tinha 7 anos. Ela voltou seus olhos arruinados na direção do sol da tarde sem piscar. A situação dos olhos dela era ainda pior do que a dos olhos de Hayatullah. Graham suspirou.

"Um hospital inteiro seria de utilidade aqui", ele disse.

Desde o início de dezembro, uma companhia de pára-quedistas da 82ª Divisão Aerotransportada patrulha o distrito de Nawa na província de Ghazni, uma região isolada próxima do Paquistão onde o Taleban opera com confiança e a presença do governo afegão é quase inexistente.

Cada patrulha era uma incursão em aldeias consideradas santuários do Taleban. Cada uma começou com tensão e a possibilidade de violência. Mas o Taleban não enfrentou os soldados altamente armados e em questão de minutos o humor do ambiente mudava.

Assim que os aldeões percebiam que os pelotões vinham acompanhados de médicos, eles traziam crianças doentes e imploravam por ajuda.

Um catálogo de males pediátricos rapidamente formou filas: crianças com queimaduras grotescas e infecções de pele, inchações e picadas de aranha e escorpião, sangramentos de ouvido, problemas de visão e tosses fortes, contínuas. Algumas estavam enfaixadas em trapos sujos. Outras em carrinhos de mão por não terem força para caminhar.

Em uma aldeia, Zarinkhel, os aldeões imploraram por vacinas ao capitão Christopher J. DeMure, o comandante da Companhia B do 2º Batalhão da 508ª de Infantaria Pára-quedista. Sete crianças tinham morrido de sarampo nos últimos três dias, eles disseram, incluindo duas na manhã em que a patrulha chegou.

O Afeganistão continua amarrado por subdesenvolvimento, pobreza e analfabetismo, um legado de décadas de guerra. Os problemas de saúde da população são agudos. Mas os problemas em áreas como as destas aldeias, disseram os moradores, foram agravados pela continuidade da insurreição e pelos decretos severos do Taleban, cujo governo sobreviveu nestas áreas remotas mesmo depois de ter perdido o controle de Cabul, a capital afegã, no final de 2001.

O distrito de Nawa, praticamente fora do alcance do governo afegão ou das forças armadas americanas, se encontra no rota dos insurgentes que viajam entre o Afeganistão e as áreas tribais do Paquistão. O Taleban existe abertamente aqui. Para limitar a influência do governo e impedi-lo de atingir mesmo suas modestas metas de desenvolvimento, disseram os aldeões, autoridades afegãs e oficiais americanos, os insurgentes saquearam escolas, ameaçaram professores e estudantes, afugentaram as entidades privadas e restringiram acentuadamente o atendimento médico.

"O Taleban deixou bem claro que nenhum médico de fora, nenhuma ajuda médica externa, pode atuar neste distrito", disse DeMure.

Antes do final de 2001, algumas poucas organizações internacionais de ajuda trabalhavam na área com o consentimento do Taleban. Elas abriam poços, construíam clínicas, distribuíam pequenas quantidades de ajuda e ministravam vacinas. Agora poucos forasteiros se aventuram aqui, pois a área é considerada perigosa demais.

Seu grau de pobreza é completo. Os aldeões não têm eletricidade. Muitas pessoas usam as mesmas valas de irrigação para se lavarem, lavar os pratos, cortar carne, escovar os dentes e beber. Os canais estão cercados por dejetos animais. Poucas crianças são vistas usando roupas de inverno.

O único médico conhecido no distrito, disseram oficiais americanos, é um homem chamado dr. Nasibullah, que, segundo vários relatos de inteligência, trata quase que exclusivamente os combatentes do Taleban.

Uma patrulha entrou em Petaw, a aldeia onde Nasibullah vive. O médico recebeu os soldados, serviu chá e negou atender ao Taleban. DeMure disse ao médico e a um grupo de anciãos que o governo afegão planeja fornecer serviços para Nawa, mas precisaria da ajuda dos aldeões.

"Nós temos uma visão a longo prazo para tornar este um lugar melhor", ele disse; uma visão que inclui a abertura de uma escola perto de uma base de artilharia americana em Nawa, onde os professores estariam protegidos. "Nós vemos um futuro muito, muito brilhante para esta área de Ghazni."

Mas o capitão acrescentou que a segurança precisava melhorar antes que muitas outras formas de ajuda pudessem chegar. Até que as aldeias ajudem a combater o Taleban, ele disse, será difícil construir estradas ou clínicas, ou fornecer eletricidade.

Em cada patrulha, os soldados fizeram apresentações semelhantes. Quase invariavelmente, uma cena semelhante se desenrolava.

Assim que as reuniões terminavam, as pessoas traziam as crianças doentes. Os médicos americanos, que realizavam os exames em frente das mesquitas, eram o único atendimento de saúde moderno que muitos aldeões viam em anos.

Às vezes os médicos podiam ajudar, rapidamente limpando ferimentos e fornecendo medicamentos simples. Mas muito do que viram estava além de sua capacidade.

Durante suas recentes patrulhas, foi pedido ao médico do 2º Pelotão, Companhia B, o soldado Corey R. Ball, que tratasse não apenas de cortes infeccionados e resfriados persistentes, mas também de retardo, cegueira, autismo, surdez e epilepsia. "Nós somos médicos", ele disse. "Eles querem que a gente faça milagre."

DeMure disse que a situação de saúde no distrito permitiu ao governo tentar traçar um contraste entre suas ações e as do Taleban. Segundo a mensagem, o governo está tentando fornecer serviços, enquanto o Taleban tenta impedir os serviços.

O governo e as forças armadas planejam viajar para a região em breve com médicos e avaliar os problemas, tentar distribuir ajuda e realizar vacinações, disse o capitão. Após deixar Zarinkhel, ele enviou pedidos de vacinas para o quartel-general do batalhão.

Ele conseguiu com que várias patrulhas recentes, incluindo a patrulha a Karawaddin, distribuísse casacos de inverno e luvas para as crianças. Em muitas aldeias, algumas crianças estavam descalças e vestindo apenas roupas leves. A temperatura cai bem abaixo de zero a cada noite.

Mas os oficiais disseram que a força do Taleban no distrito torna impossível um maior atendimento de saúde a longo prazo por ora.

Em uma patrulha, em Salamkhel, o primeiro tenente Brian M. Kitching, que lidera o 2º Pelotão, pediu aos aldeões que se reunissem na mesquita para discutirem seus problemas. Ele suspeitou que muitos aldeões apoiavam o Taleban e queria lhes dizer que suas escolhas eram contraproducentes.

Um aldeão, Rahmatullah, 35 anos, disse que o Taleban estava aqui porque o governo afegão era fraco e os aldeões tinham medo. Sempre que as forças armadas ou o governo distribuem ajuda, ele disse, sejam cobertores, cadernos para as crianças ou roupas de inverno, o Taleban entra na aldeia, coleta a ajuda e a incendeia.

"Nós gostaríamos de apoiar as forças da coalizão, mas se fizermos isto o Taleban virá à noite e cortará nossas cabeças", disse Rahmatullah.

Outro homem, Ghulam Wali, 71 anos, expressou desalento. "Eu sei que devemos nos erguer contra o Taleban, mas somos pessoas pobres", ele disse. "Nós não temos habilidade para fazer isso."

Kitching pediu para a aldeia resistir. "A verdade é que vocês têm a habilidade de promover a mudança", ele disse. "Apenas não estão dispostos a fazê-lo."

Depois que ele falou, as pessoas pediram para ver o médico do pelotão, e um homem trouxe um menino de cerca de 6 anos. O cabelo do menino estava envolto por um lenço verde.

Sob o lenço, uma infecção avançada cobria todo o topo de sua cabeça. O ferimento estava coberto com o que parecia uma mistura de ervas trituradas com terra; o pai do menino disse que era um remédio tradicional que comprou no mercado.

Ball tentou limpar parte da infecção, mas o menino gritava. O médico disse que o ferimento precisava ser aberto e limpo, um processo que provavelmente envolveria a remoção de grande parte do escalpo do menino, antes de ser ministrado um forte antibiótico por longa duração.

O pai do menino disse que não tinha dinheiro para viajar até a clínica mais próxima, em Gelan, que ficava a mais de 60 quilômetros de distância por uma estrada na qual os insurgentes às vezes enterravam minas.

O médico cobriu o ferimento e deu ao pai os antibióticos para o menino, com instrução sobre como ministrá-los.

Mais tarde, de volta a uma das bases de artilharia da Companhia B, em Nawa, Graham disse que o menino poderia ser salvo se fosse hospitalizado. Mas poderia morrer caso permaneça em Salamkhel.

À noite, enquanto DeMure instruía seus oficiais para as missões do dia seguinte, ele discutiu a inteligência que foi coletada durante o dia.

Entre os itens estava um relato de que o Taleban tinha entrado em Karawaddin após a distribuição da ajuda e tomado as luvas e roupas de inverno das crianças, com as quais fizeram uma fogueira. No jogo pela conquista das aldeias de Nawa, a ajuda tinha desaparecido de novo.

"Eu estou confiante de que podemos fazer a diferença aqui", disse DeMure. "Mas levará tempo." George El Khouri Andolfato

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