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14/12/2007

Mais velha e mais pobre, a Itália está em depressão

The New York Times
Ian Fisher*

Em Roma
Todo o mundo ama a Itália por ser velha mas ainda glamourosa. Porque ela come e bebe bem, mas raramente é gorda ou bêbada. Por ser um lugar na hiper-regulada Europa onde as pessoas ainda debatem com perfeita inteligência o que, realmente, o vermelho em um semáforo significa.

Mas atualmente, apesar de toda a adoração externa e todas as suas virtudes inatas, a Itália não parece amar a si mesma. A palavra aqui é "malessere", insatisfação ou mal-estar, e implica em uma depressão coletiva -econômica, política e social- resumida em uma recente pesquisa: os italianos, apesar de sua alegação de terem dominado a arte de viver, se consideram o povo menos feliz na Europa Ocidental.

"É um povo que perdeu um pouco de sua esperança no futuro", disse Walter Veltroni, o prefeito de Roma e um possível primeiro-ministro de centro-esquerda. "Há mais temor do que esperança."

James Hill/The New York Times 
Padre caminha em Milão, cidade ao norte da Itália, região mais desenvolvida do país

Em grande parte os problemas não são novos, e este é o problema. Eles simplesmente envolveram a Itália por tantos anos, a ponto de ninguém saber ao certo como uma mudança poderia ser feita, ou mesmo se uma ainda é possível.

A Itália há muito traçou seu próprio modo de pertencer à Europa, lutando como poucos outros países com uma política dividida, crescimento desigual, crime organizado e um senso tênue de nacionalidade.

Mas cresce a frustração com o fato destas velhas fraquezas não terem melhorado, com o fato de em alguns casos até terem piorado, enquanto o restante do mundo deixa o país para trás. Em 1987, a Itália celebrava sua paridade econômica com o Reino Unido. Agora a Espanha, que ingressou na União Européia apenas um ano antes, em 1986, poderá em breve ultrapassá-la, assim como a Itália hoje está atrás do Reino Unido.

O modo de vida de baixa tecnologia da Itália pode seduzir os turistas, mas o uso da Internet e do comércio eletrônico aqui estão entre os mais baixos da Europa, assim como os salários, investimento estrangeiro e o crescimento. As aposentadorias, a dívida pública e o custo do governo estão entre os mais altos.

Os mais recentes números mostram um país mais velho e mais pobre, a ponto do principal bispo da Itália ter proposto uma grande expansão da ajuda alimentar aos pobres.

Pior, cresce a preocupação de que os pontos fortes da Itália estão se transformando em fraquezas. Empresas de pequeno e médio porte familiares, há muito a espinha dorsal da nação, estão enfrentando dificuldades em uma economia globalizada, particularmente com a concorrência dos baixos salários da China.

As dívidas incomodam a própria família: 70% dos italianos entre 20 e 30 anos ainda moram com os pais, condenando os jovens a uma adolescência prolongada e subprodutiva. Muitos dos mais capacitados, como os mais pobres de um século atrás, deixam a Itália.

Os riscos aumentaram tanto que Ronald P. Spogli, o embaixador dos Estados Unidos aqui e uma pessoa com 40 anos de experiência em Itália, alertou que o país corre o risco de uma diminuição de seu papel internacional e de seu relacionamento com Washington. Os melhores amigos dos americanos, ele notou, são seus parceiros comerciais -e a Itália não é, comparativamente. A burocracia e as leis não claras mantiveram o investimento americano na Itália em 2004 em US$ 16,9 bilhões. O número para a Espanha foi de US$ 49,3 bilhões.

"Eles precisam arrancar a erva daninha que cresceu ao redor desta fantástica árvore de 2.500 anos, que está ameaçando matar a árvore", disse Spogli.

Mas entrevistas com possíveis primeiros-ministros, empresários, acadêmicos, economistas e outros italianos sugerem que o maior motivo para este mal-estar parece ser a sensação de que há pouca esperança de que a erva daninha possa ser arrancada, o que deixa os italianos tanto tristes quanto furiosos.

"Basta! Basta! Basta!", disse Beppe Grillo, um humorista e blogueiro de 59 anos com cabelos grisalhos, em uma entrevista. Ele a repetia para deixar seu argumento bem claro para a classe política italiana.

Nos últimos meses, Grillo se tornou a personificação definidora do sentimento de revolta na Itália. Em 8 de setembro, ele a expressou em voz alta quando convocou o dia da raiva, para as pessoas se reunirem na Piazza Maggiore, em Bolonha, para gritarem um palavrão que poderia ser educadamente traduzido como "vão se danar!"

Esperava-se a presença de algumas poucas milhares de pessoas. Mas 50 mil lotaram a praça, e 250 mil assinaram uma petição pedindo mudanças nos limites de mandato e eleição direta para os candidatos ao Parlamento. (Os eleitores atualmente votam em partidos, que então escolhem quem servirá no Parlamento, sem o consentimento dos eleitores.)

Sua mensagem foi um basta de inação e excesso (os legisladores italianos são os melhor remunerados na Europa e são conduzidos pelo continente pela maior frota de carros com chofer), basta de criminosos condenados no Parlamento (há 24), basta das mesmas pessoas.

"Essa coisa toda fede demais!", ele gritava. "O fedor vem dos esgotos e envolve você e você não tem como lidar."

Grillo tem inclinação política de esquerda, mas não poupa nenhum lado em suas apresentações com lotação esgotada e no seu popular blog. O problema, ele disse, é o próprio sistema.

Há uma ligação entre o sistema político problemático do país e a piora de seu humor. Luisa Corrado, uma economista italiana, liderou a pesquisa por trás do estudo da Universidade de Cambridge que apontou os italianos como os menos felizes entre 15 países da Europa Ocidental. Os pesquisadores associaram as diferenças na felicidade informada nos países a vários fatores políticos e sociodemográficos, incluindo confiança no mundo ao redor deles, não apenas no governo.

Na Dinamarca, o país mais feliz, 64% confiavam em seu Parlamento. Para os italianos, o número foi de 36%.

"Infelizmente, nós descobrimos que havia falta dessa confiança social" na Itália, ela disse.

Dois livros best seller -que provocaram meses de debate- capturam a desconfiança de grandes poderes que não podem ser controlados.

Um, "O Castelo", vendeu um milhão de exemplares (em um país onde vendas de 20 mil tornam um livro best seller) ao expor os pecados da classe política italiana e como ela se tornou privilegiada e irresponsável. Mesmo a presidência, considerada acima da confusão, não foi poupada; o livro apontou o custo anual do gabinete em US$ 328 milhões, quatro vezes o do Palácio de Buckingham.

O outro, "Gomorrah", que vendeu 750 mil cópias, trata da máfia ao redor de Nápoles, a Camorra. Mas a política, argumenta o livro, permite que a Camorra prospere, mantendo pobre o sul atrasado, e que o crime organizado seja o maior setor da economia, segundo um recente estudo.

Apesar dos antigos problemas da Itália, Alexander Stille, um professor da Universidade de Columbia e um especialista em Itália, argumenta que este momento é diferente. Enquanto a economia expandia, dos anos 50 aos anos 90, os italianos toleravam o comportamento ruim de seus líderes.

Mas há anos o crescimento é lento e a qualidade de vida está pendendo para o declínio. As estatísticas mostram que 11% das famílias italianas vivem abaixo da linha de pobreza e que 15% têm dificuldade em fazer com que seu salário dure todo o mês. "O grau de revolta é grande, porque antes era mais fácil sobreviver", disse Stille. "Agora a vida está mais difícil."

Os italianos raramente associam a safra atual de líderes envelhecidos com capacidade de mudar. Eles são, na verdade, as mesmas pessoas que têm se enfrentado, alternando mandatos no poder, por mais de uma década. No ano passado, Silvio Berlusconi, o homem mais rico da Itália e que se tornou primeiro-ministro pela primeira vez em 1994, perdeu a eleição porque não cumpriu sua promessa de crescimento ao estilo americano e oportunidades baseadas no mérito. Quando ele deixou o cargo, o crescimento econômico era zero.

Mas após a eleição, ficou claro que se livrar da centro-direita de Berlusconi não seria uma cura mágica. Romano Prodi, que serviu como primeiro-ministro de 1996 a 1998, venceu, mas contava com uma coalizão instável de nove partidos que não se entendem.

Ele prometeu um novo começo, mas seu governo desajeitado de centro-esquerda decepcionou com seu primeiro ato simbólico: seu governo contava com 102 ministros, um recorde.

Ele conseguiu a aprovação de dois pacotes de reforma e a economia está crescendo de novo. "Nossa situação não é feliz, mas está melhor do que antes", disse Prodi.

Mas o governo já caiu uma vez e ameaça cair de novo a cada votação difícil. Pequenas propostas provocam protestos de rua, um obstáculo às mudanças à medida que os interesses protegidos buscam a autopreservação. As farmácias fecharam suas portas neste ano quando o governo ameaçou permitir que supermercados vendessem aspirina. O preço de cartelas com 20 aspirinas na farmácia é de US$ 5,75.

A medida foi aprovada, mas no geral, seu governo está praticamente paralisado. Os eleitores estão cheios e os adversários de Prodi sabem disso.

"Eu entendo o mau humor, o mal-estar", disse Gianfranco Fini, o líder da Aliança Nacional, o segundo maior partido de oposição. "As pessoas estão começando a ficar irritadas porque há um governo que não faz nada."

"É uma tristeza de que aquilo que poderia ser não é, a de que não somos um país normal", disse Gianluca Gamboni, 36 anos, um elegante consultor financeiro em Roma, resumindo como se sente a respeito da Itália, que ele ama, mas que o deixa insano.

Diferente da geração mais velha, ele viaja e vê como as coisas funcionam muito melhor em outros lugares. Ele não poupa a si mesmo: ele ainda mora com seus pais, não porque quer, mas porque apenas agora, após sete anos em seu emprego, ele pode arcar com os caros aluguéis de Roma. Ele finalmente está considerando se mudar.

"Não é normal permanecer na casa dos meus pais na minha idade", ele disse. "Isto desacelera o crescimento da pessoa, sempre ser vista como criança. O problema é que nem todos têm escolha."

Gamboni está no lado mais jovem da divisão italiana, uma lente pela qual muitos dos problemas do país entram em foco. Ele faz parte de uma das várias forças subterrâneas, fáceis de ignorar a princípio, mas que reunidas deixam muito claro o quanto a Itália mudou nas últimas várias décadas e quão pouco as mudanças foram digeridas.

Por um século encerrado nos anos 70, 25 milhões de italianos deixaram o país em busca de uma vida melhor em outro lugar. Agora, a Itália é lar de 3,7 milhões de imigrantes. A posição da Igreja Católica Romana está diminuindo, de um pilar cultural a um grupo de lobby para um grupo de devotos em declínio.

Politicamente, a Itália parece não ter se ajustado à morte, em 1992, dos democratas cristãos, que governaram por mais de 40 anos. Dois partidos de centro-esquerda se fundiram para produzir o Partido Democrático, que visava superar a fragmentação debilitante do sistema. Todos os lados concordaram finalmente que uma nova lei eleitoral é necessária para dar espaço para o vencedor respirar nas próximas eleições -algo crucial para promover grandes mudanças.

Economicamente, antes era fácil resolver os problemas desvalorizando a moeda, a lira. Isto é impossível com o euro, que também aumentou os preços, particularmente dos imóveis.

E há a família. O índice de divórcios aumentou. Famílias grandes são coisa do passado. A Itália tem uma das menores taxas de natalidade da Europa, o menor número de crianças com menos de 15 anos e o maior número de pessoas com mais de 85, fora a Suécia. O desemprego é baixo, em 6%. Mas 21% da população entre 15 e 24 anos não trabalhou em 2006. E os velhos não abrem mão de seus postos.

A evidência da idade da Itália está por toda parte. Nos parques, dos aglomerados de senhoras idosas cuidando de um único bebê. Na televisão, os astros são velhos. (A idade média dos apresentadores do concurso Miss Itália deste ano era 70 anos. A vencedora, Silvia Battisti, tinha 18 anos.) Na esfera política, Prodi tem 68 anos, Berlusconi tem 71.

"O problema de geração é o problema italiano", disse Mario Adinolfi, 36 anos, um blogueiro e um candidato a legislador. "Em todo país os jovens têm esperança. Aqui na Itália não há mais esperança. Sua mãe mantém você bem em casa, e você fica lá e não luta. E se você não luta, é impossível tomar o poder de alguém."

"Nós não temos um Google", ele acrescentou. "Nós não podemos imaginar na Itália alguém com 30 anos abrindo um negócio em uma garagem."

Em setembro, a notícia se espalhou em uma casa de jovens romanos, em meio a cerveja e massa, de que Luciano Pavarotti, o tenor e talvez o italiano mais famoso no mundo, tinha morrido.

"Droga!", gritou Federico Boden, um estudante de 28 anos. "Agora nós só temos massa e pizza!"

A Itália não parece contar mais com a mesma grandeza de antes. Não há nenhum novo Fellini, Rossellini ou Sophia Loren. Seu cinema, televisão, arte, literatura e música raramente são considerados de vanguarda.

Mas ela tem Ferrari, Ducati, Vespa, Armani, Gucci, Piano, Illy, Barolo -todos símbolos de estilo e prestígio. O que a Itália tem é a si mesma, e muitos acreditam que o futuro está em transformar a mística em uma marca "Made in Italy".

O vinho italiano foi um teste inicial. Os produtores conseguiram passar com sucesso de quantidade para qualidade. A Illy, a casa de café, cresceu ao combinar qualidade com uniformidade -ela só faz uma mistura- com inovação nos métodos e estilo na apresentação.

"É neste ponto em que os italianos são vencedores", disse Andrea Illy, a presidente da empresa. "Use suas forças em particular, que são beleza e cultura."

Não se sabe se esta estratégia "Made in Italy" será suficiente. Os céticos argumentam que investimento estrangeiro, pesquisa e fundos de desenvolvimento, assim como o dinheiro investido por capitalistas de risco, permanecem baixos demais, assim como a competitividade com outros países europeus.

A indústria italiana dependia dos baixos salários, o que a deixou vulnerável à concorrência da China à medida que os custos trabalhistas cresceram aqui. O alarme começou a soar há vários anos, com os temores de que muitos dos negócios tradicionais da Itália -têxteis, calçados, roupas- perderam competitividade.

Em Friuli-Venezia Giulia, no nordeste, a capital da produção de cadeiras, o número de empresas encolheu de 1.200 para cerca de 800.

"A princípio acharam que era uma fase que passaria", disse Massimo Martino, diretor da Maxdesign, uma pequena empresa de móveis. "Mas na verdade, muitas empresas acabaram fechando porque fundamentalmente o mercado não precisava mais delas. Elas não quiseram mudar."

Algumas empresas encararam o desafio. A madeira era o material principal ali, mas Martino começou a criar cadeiras baratas, a maioria de plástico, mas com belo design. Outros decidiram que concorrer com a China em preço era impossível. Em vez disso, a meta seria a qualidade e a singularidade da Itália, algo que a China não poderia igualar.

Pietro Costantini, que dirige uma empresa de móveis de terceira geração, disse que começou a se concentrar não apenas em artigos de luxo -eles fazem móveis extra grandes para americanos grandes- mas também na criação de linhas que vendem o próprio estilo de vida italiano. Os clientes, ele disse, estão voltando.

"Por exemplo, se você escolher um cliente russo, ele deve ter um carro alemão, um relógio suíço e roupas italianas", ele disse. "Assim como a moda italiana, nós temos certeza de que eles procurarão móveis italianos."

Mas os empreendedores italianos se queixam de que estão sozinhos. Os políticos oferecem pouca ajuda em tornar a Itália competitiva, e isto continua um grande impedimento para fazer seus lucros crescerem. As empresas desejam menos burocracia, leis trabalhistas mais flexíveis e grandes investimentos em infra-estrutura para que os bens possam se deslocar mais facilmente.

"Agora é a hora de mudar", disse Luca Cordero di Montezemolo, o presidente da Fiat e da Ferrari, assim como da influente entidade empresarial Confindustria. "Se não, por que estamos caindo em todas as classificações de concorrência? O motivo é que, na melhor das hipóteses, nós estagnamos."

Mas os empreendedores do país são um ponto brilhante em um cenário como poucos outros. Alguns argumentam que a geração mais jovem é outra chave, se não agora, então quando aqueles que estão no poder morrerem. Eles têm educação, são viajados e, como faz Beppe Grillo quando está atraindo suas massas, eles usam a Internet.

Mas entender os problemas é o menor passo. Muitos temem que neste ínterim a Itália poderá ter o mesmo destino que a República de Veneza, baseada no que muitos dizem ser a mais bela das cidades, mas cujo domínio do comércio com o Oriente Próximo morreu sem nenhum evento culminante. A conquista por Napoleão em 1797 apenas a tornou oficial.

Agora ela é basicamente um cadáver requintado, pisado por milhões de turistas. Se a Itália não se livrar de seus confortos para promover uma mudança, muitos argumentam, um destino semelhante a aguarda.: ofuscada pela grandeza do passado, contando com turistas envelhecidos como uma questionável fonte de vida, a Flórida da Europa.

"O mal-estar é: 'Eu consigo ver tudo isso mas não há nada que eu possa fazer para mudar'", disse Beppe Severnigni, um colunista do "Corriere della Sera".

Mas, ele disse, "mudar seus modos significa mudar seus modos individuais: recusar certas concessões, começar a pagar seus impostos, não pedir favores quando está procurando por emprego, não trapacear quando seu filho está tentando ingressar na universidade".

"Esta é a parte difícil", ele disse. "Nós chegamos a um ponto em que acabou a esperança de que uma espécie de cavaleiro em armadura branca virá e dirá: 'Nós resolveremos seu problema'."

"Nós italianos temos nosso destino em nossas mãos mais do que nunca", ele acrescentou.

*Peter Kiefer, em Roma e Trieste, e Elisabetta Povoledo, em Roma, contribuíram com reportagem. George El Khouri Andolfato

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