UOL Notícias Internacional
 

14/12/2007

O turco Husnu Ozyegin é um novo tipo de bilionário

The New York Times
Landon Thomas Jr.

Em Istambul, Turquia
Preso em um congestionamento em sua BMW à prova de bala, o homem mais rico na Turquia se solta com um sorriso satisfeito.

Desde 2000, Husnu M. Ozyegin gastou mais de US$ 50 milhões do próprio bolso na construção de 36 escolas primárias e dormitórios para meninas nas áreas mais pobres da Turquia. Ao lado do governo turco, Ozyegin é o maior patrocinador individual de escolas no país -e um funcionário do Ministério da Educação lhe disse que sua participação no mercado estava crescendo.

"Nada mal", ele disse com sua voz rouca, marcada pelo fumo de cigarro, enquanto guardava no bolso o celular. "Se eu puder ter um impacto sobre 1 milhão de turcos nos próximos 10 anos, eu ficarei feliz."

Lynsey Addario/The New York Times 
O bilionário Husnu M. Ozyegin em seu escritório em Istambul, Turquia

O boom global de riqueza criou um novo tipo de bilionário em países antes destituídos como a Turquia, Índia, México e Rússia. Movidos pelas suas economias em ascensão, moedas robustas e empresas globalmente competitivas, eles lucraram com as altas dos mercados locais de ações que atingiram altas anteriormente inalcançáveis em um breve período de cinco anos. Agora, vários deles estão usando sua riqueza para reforçar sua posição e promover mudanças sociais.

Estes empreendedores, que ganharam seus bilhões em indústrias do setor privado como telecomunicações, petroquímica e finanças, são diferentes da geração anterior de bilionários internacionais, a maioria com laços com o petróleo do Oriente Médio ou terras valiosas. Eles não apenas se tornaram os homens mais ricos em seus países; eles estão entre os mais ricos do mundo.

Para estas economias emergentes, onde regulamentação mais branda, processos opacos de privatização e práticas monopolistas são abundantes, esta criação extraordinária e desigual de riqueza rivaliza em muitas formas com as grandes fortunas americanas feitas na virada do século 20.

Apesar de tais países estarem há muito tempo acostumados a grandes disparidades entre a minúscula elite endinheirada e as massas empobrecidas, a nova elite compartilha algumas características com seus pares americanos. E assim como os Rockefellers, Carnegies e Morgans antes usavam a filantropia para amenizar suas reputações de degoladores nos negócios -da mesma forma que a atual geração de americanos ricos que inclui Bill Gates, da Microsoft, e Sanford I. Weill, do Citigroup- os bilionários locais nos mercados emergentes estão tentando o mesmo.

Filantropia Global
Carlos Slim Helu, o empreendedor de telecomunicações no México que vale mais de US$ 50 bilhões, destinou bilhões de dólares para suas duas fundações que ajudam a saúde e a educação. Roman Abramovich, o homem mais rico da Rússia, que tem uma riqueza líquida de US$ 18 bilhões, canalizou mais de US$ 1 bilhão para a empobrecida área ártica de Chukotka, de onde também é o governador, construindo escolas e hospitais.

E na Índia, Azim Premji, o presidente da empresa de software Wipro e cuja riqueza é de US$ 17 bilhões, criou sua própria fundação que apóia o ensino primário.

É claro que, diante destas fortunas que ainda estão sendo feitas, as somas doadas são relativamente pequenas em comparação às necessidades sociais urgentes destes países. Mas enquanto a filantropia movida pelo retorno ganha popularidade por meio dos esforços de Gates e outros, os bilionários dos mercados emergentes estão aplicando lições semelhantes às voltadas ao resultado financeiro em seus próprios países.

"O que estamos vendo nestes países", disse Jane Wales, presidente da Global Philanthropy Forum, "são pessoas surgindo no setor privado com tremenda riqueza e que são atraídas por filantropia altamente estratégica".

Uma escalada não tradicional
Aqui na Turquia, Ozyegin, que tem 62 anos e uma riqueza líquida no valor de US$ 3,5 bilhões, não obteve sua riqueza comprando ativos do governo a baixo preço ou por pertencer a uma família rica que controla um monopólio -duas rotas tradicionais para grande riqueza nos países em desenvolvimento.

Fundador de um banco corporativo de médio porte chamado Finansbank, ele lucrou com a febre de interesse de instituições financeiras estrangeiras pelos bancos turcos no ano passado, vendendo uma participação controladora de seu banco ao Banco Nacional da Grécia, pela qual recebeu US$ 2,7 bilhões em dinheiro.

Cheio de dinheiro e ambição, ele está fazendo tudo o que pode para melhorar os padrões educacionais turcos no ensino fundamental e universitário.

Sentado em sua sala de conferência pessoal no topo do principal prédio do Finansbank em Istambul, Ozyegin lembra de 18 de agosto de 2006, quando a venda de sua participação de 49% foi oficialmente fechada.

"Eu me lembro daquele dia melhor do que do meu aniversário", ele disse, enquanto se reclinava em uma cadeira de couro. "Eu tinha me tornado não apenas um bilionário, mas também o homem mais rico na Turquia. É uma sensação ótima, mas suas responsabilidades aumentam."

Como muitos bilionários que se fizeram sozinhos, Ozyegin tem um modo direto e exigente, e um dia viajando com ele não rendeu muita conversa casual. Ele carrega dois celulares. Ao longo de todo o dia ele faz malabarismo com telefonemas de sua esposa, assistente, filho e diversos burocratas do governo, assim como administradores de seus vários projetos.

Ele geralmente trabalha 11 horas por dia, não apenas em seus escritórios, mas também em seu carro, avião ou barco, checando suas operações na Turquia assim como na Rússia, Romênia e China.

"Sou de primeira geração, isto me dá satisfação", ele disse. "Chegar ao topo não é fácil, mas permanecer no topo é mais difícil."

Os avós de Ozyegin se mudaram da ilha grega de Creta para a cidade de Izmir, no sul da Turquia, no final do século 19, durante os últimos dias do Império Otomano. Filho de um médico, ele freqüentou o Robert College, uma academia de elite em Istambul, antes de partir para a Universidade Estadual do Oregon em 1963, com US$ 1 mil no bolso.

Uma pessoa com desempenho acima do esperado, ele jogou basquete e liderou o grêmio estudantil, mas obtinha notas medíocres. A Escola de Administração de Harvard parecia uma chance remota dado sua necessidade de uma bolsa. Mas ele anexou uma foto dele recebendo Robert F. Kennedy na Estadual do Oregon ao seu requerimento e foi aceito. "Eu acho que eles gostaram de mim por minha capacidade de liderança", ele disse.

Após uma carreira bem-sucedida no setor bancário, ele fundou o Finansbank em 1987, vendendo suas duas casas e pegando US$ 3 milhões emprestado para fechar o negócio.

No início, as ambições do banco eram pequenas, fornecendo serviços bancários corporativos para as empresas turcas. A sorte do banco flutuava de acordo com a volatilidade da economia, expandindo rapidamente durante os anos de forte crescimento econômico, mas correndo o risco de falência em duas ocasiões separadas, em 1994 e 2001, quando o mercado turco sofreu contrações.

Se tornando competitivo
Como empresário, sua interação freqüente com o Sudeste Asiático, China e Rússia lhe mostraram a necessidade dos turcos se tornarem mais competitivos na atual economia globalizada.

"O problema mais importante que a Turquia tem é a educação", ele disse.

Ele cita o rápido aumento de matrículas de chineses e indianos na Escola de Administração de Harvard. A Turquia, um país menor, envia apenas entre quatro e oito estudantes por ano, disse Ozyegin, que se encontra com os estudantes quando visita a escola.

Além de seus investimentos em escolas públicas, Ozyegin planeja gastar até US$ 1 bilhão ao longo dos próximos 15 anos em uma nova universidade privada, que se chamará Universidade Ozyegin.

"Eu quero fazer algo em grande escala", ele disse. "Minha visão é que podemos treinar e exportar pessoal como faz a Índia."

Desde que iniciou seu programa de construção em 2000, Ozyegin concluiu 36 escolas e dormitórios para meninas a um custo que varia entre US$ 400 mil e US$ 1,8 milhão cada. Ele deseja chegar a 100 até 2010. Ele trabalha estreitamente com o governo, com grande parte das construções ocorrendo nas regiões mais pobres do país, no sul e nordeste.

"Isto é muito, é um número muito significativo", disse Filiz Bikmen, diretor executivo da Tusev, uma fundação filantrópica em Istambul.

A Turquia apresenta a menor proporção de meninas para meninos no ensino fundamental e médio dentre os países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, que exige que seus 30 membros atinjam metas mínimas de padrão de vida e práticas democráticas. O baixo resultado da Turquia é conseqüência de uma cultura tradicional que, especialmente nas áreas mais pobres, valoriza mais a educação de um menino do que de uma menina.

Em um país onde o partido do governo conta com uma base eleitoral que está se tornando mais islâmica em postura e visão de mundo, a meta de Ozyegin de atender as meninas com pouco estudo toca uma veia cultural sensível (por meio da fundação de sua esposa, a Acev, ele também ajuda a pagar pela alfabetização de mulheres e por programas de ensino primário em áreas pobres do país).

Um muçulmano praticante mas abertamente secular em sua visão, Ozyegin representa as esperanças e temores da elite turca, dentre a qual muitos atualmente apóiam o partido Justiça e Desenvolvimento do governo, que promoveu a revitalização da economia turca.

Ozyegin espera que o foco na educação como ferramenta de desenvolvimento econômico ajudará a transcender as atuais disputas amargas em torno da prática religiosa, incluindo se o aumento do número de mulheres usando lenço de cabeça significa o surgimento de uma Turquia mais islâmica e menos secular.

"Eu quero que a Turquia tenha os mesmos níveis de educação que a Europa daqui 25 anos", ele disse. "Onde o fato de usar lenço de cabeça não importe."

Um foco na educação
Quando Ozyegin visita uma escola, ele é freqüentemente recebido pelo prefeito do distrito, um representante do Ministério da Educação e por vários outros notáveis locais. Suas visitas, como suas reuniões de negócios, são rápidas e diretas ao ponto -uma inspeção pelos corredores e salas da escola e uma barragem de perguntas direcionadas aos responsáveis pela escola.

Em uma escola primária que leva seu nome, em um bairro operário nos arredores de Istambul, ele marchou até uma sala de aula cheia de alunos da sexta série de olhos arregalados que saltaram em pé, com espírito e diligência de um pelotão saudando seu general, e ele os exortou a se empenharem em seus estudos.

Em outra escola, ele repreendeu um diretor pelos tapetes manchados e lixo nos corredores. "Este lugar está cheio de lixo", ele disse, com voz baixa e furiosa. "Faça algo a respeito. É uma vergonha."

Também há momentos tocantes. Uma escola primária recém-construída em uma aldeia próxima da fronteira com a Armênia vibrava com o alarido de seus 360 estudantes enquanto a esposa, irmã e cunhado de Ozyegin, que supervisionam a logística do programa de construção, faziam uma parada para uma visita.

As crianças aqui raramente freqüentam o ensino médio. Muitas delas falam curdo como língua principal e seus pais levam uma vida como pastores de ovelhas e vacas.

As roupas são puídas e os dedos saem pelos buracos nos calçados de plástico. Mas, como a luz do entardecer no pico coberto de neve do Monte Ararat próximo, também há raios de esperança.

Foi perguntado a Danyan Kuba, um alto e nervoso aluno da sétima série vestindo paletó e gravata, o que ele queria ser quando crescer. Ele se virou desajeitadamente, olhou para seus sapatos e para a frente de novo. "Eu quero ser um professor de matemática", ele disse em uma voz forte e clara.

Para Ozyegin, se tornar um dos homens mais ricos no mundo trouxe suas próprias pressões. Ele recebe diariamente muitas cartas. Alguns pedem que ele cancele suas dívidas nos cartões de crédito do Finansbank.

Outras são mais comoventes -ele recebeu recentemente uma carta de um admirador na prisão, que lhe pediu por um par de sapatos e um terno, um pedido que ele planeja atender.

Como alguns que ganharam muito, Ozyegin gosta de manter as estatísticas.

Warren E. Buffet pode ser o homem mais rico do mundo, mas segundo Ozyegin, sua riqueza cresceu mais rapidamente. "Minha composição é melhor do que a de Buffet, mas meu histórico só tem metade do tamanho", ele disse.

Ele também é um estudante da vida de J.P. Morgan: ele recita fluentemente quanto Morgan, que dominou o mundo das finanças na virada do século 20, deixou para seu filho, filha e esposa, assim como o salário que pagava ao capitão de seu iate. Mas a falta de renome de Ozyegin no cenário global o incomoda.

"Eu abro mão de 2% da minha renda líquida todo mês", ele disse. "Eu não acho que Bill Gates esteja fazendo isso." George El Khouri Andolfato

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