UOL Notícias Internacional
 

15/12/2007

Bolivianos agora ouvem tons ameaçadores de chamado às armas

The New York Times
Simon Romero

Em Santa Cruz, Bolívia
"Contra o narco-comunismo", dizia uma pichação nesta cidade na baixada da Bolívia. "Às armas, crucenos", dizia outra, convocando os habitantes à enfrentarem o governo do presidente Evo Morales, que colocou as forças armadas em alerta nesta semana assim que quatro províncias do leste começaram a buscar uma maior autonomia.

Em outras partes da América do Sul, tais chamados poderiam ser desdenhados como mero linguajar bombástico. Mas não na Bolívia, onde os temores de violência política estão se intensificando em Santa Cruz, um bastião da oposição a Morales, um ex-cultivador de coca e o primeiro presidente indígena do país.

Tais tensões podem atingir seu ápice neste sábado (15/12). É quando os líderes da província de Santa Cruz e três outras províncias -Tarija, Beni e Pando- deverão declarar sua autonomia perante dezenas de milhares de manifestantes antigoverno. A Assembléia de Santa Cruz já deu um passo nesta direção, aprovando uma resolução na quinta-feira dando à província uma maior participação nos impostos e na receita do petróleo e permitindo que forme suas próprias forças policiais e crie sua própria emissora de televisão.

Noah Friedman-Rudovsky/The New York Times 
Simpatizantes do presidente Evo Morales votam a favor da nova Constituição

"Eles nos chamam de reacionários, mas temos muito contra que reagir", disse Wilson Salas Pinto, 43 anos, um diretor da Falange Socialista Boliviana, um grupo de direita daqui cujos membros vestem boinas pretas e desfilam com suas mãos no ar à la Mussolini. "Evo deseja transplantar o comunismo cubano para a Bolívia. Nós estamos preparados para resistir ao projeto."

Em um primeiro olhar para as tensões étnicas daqui, é fácil se concentrar em grupos à margem cada vez mais estridentes como a Falange. Uma contraparte na esquerda são os Ponchos Rojos, ativistas indígenas das terras altas que recentemente degolaram dois cães diante das câmeras de televisão como um alerta àqueles que resistirem aos planos de Morales.

Mas o confronto do leste da Bolívia com o presidente é bem mais complexo. Os líderes daqui há muito se irritam com a influência da capital, La Paz, mas as recentes medidas de Morales, que recebe apoio político e financeiro substancial do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, aumentaram as preocupações com uma consolidação de poder.

As medidas repentinas nesta semana visando uma maior autonomia ocorreram depois que os simpatizantes do presidente aprovaram às pressas no último fim de semana uma nova Constituição, apesar do boicote da oposição à Assembléia deles. Eles transferiram abruptamente a votação de Sucre, que estava tomada por protestos de rua, para a cidade de Oruro, uma fortaleza de Morales.

Mesmo os críticos de Morales reconhecem que a nova Constituição, que deve ser aprovada em um referendo público, apresenta aspectos positivos -ela aboliria o trabalho infantil, por exemplo. Mas também estão alarmados com os esforços para aumentar o poder indígena, com itens como representação garantida dos índios no Congresso ou a permissão para que os índios ministrem justiça fora do sistema judiciário. Outra medida controversa permitiria a Morales disputar a reeleição para um segundo mandato de cinco anos.

A forma como as mudanças constitucionais foram aprovadas não ajudaram a polir as credenciais democráticas do presidente.

"Evo, ao tentar dar maior poder aos indígenas, cometeu os mesmos erros que Chávez ao tentar dar poder aos pobres", disse Jim Shultz, um analista político em Cochabamba. "Evo também errou ao tentar misturar tal agenda com a tentativa de dar mais poder ao seu movimento político."

O poder político é uma questão que divide o país. O petróleo é outra. Grande parte do gás natural e petróleo na Bolívia, que está atrás apenas da Venezuela em reservas de gás natural na América do Sul, é produzido no leste.

Mas Morales recentemente passou a usar parte dos royalties do petróleo para financiar novos pagamentos em dinheiro aos idosos, uma tentativa de formar um sistema de seguro social para seu país, um dos mais pobres da América Latina. Tal plano privaria as províncias no leste da receita usada para obras como pontes, estradas e escolas.

Grande parte do poder sobre o petróleo permanece nas mãos do presidente, e os líderes de esquerda na Argentina e Brasil, os principais compradores do gás boliviano, não deverão negociar com Santa Cruz. Isto deixa a província necessitando de algo mais além da independência.

A elite culta de La Paz zomba dos crucenos como novos ricos e materialistas. Mas ao entrar em uma livraria aqui, os livros encontrados nas prateleiras revelam o que torna Santa Cruz diferente, de sua história -ligada aos poderes coloniais em Assunção, Paraguai, em vez de Lima, Peru- ao seu atual olhar para o leste, para o Brasil, em busca de inspiração cultural e econômica.

A revolta contra as políticas de Morales é refletida na praça aqui, onde cerca de 700 pessoas fazem greve de fome há uma semana. Elas dormem em redes em tendas, bebericando suco de laranja e assistindo ao noticiário em televisores com recepção ruim ligados a geradores. Muitos são jovens magros na faixa de 20 anos das classes endinheiradas.

Os simpatizantes do presidente dizem que o racismo está por trás do orgulho de Santa Cruz. De fato, outra pichação nesta cidade se referia a Morales em termos racistas vulgares. Mas aqui também, a enorme diversidade da Bolívia contraria em parte tal argumento.

Outros manifestantes em greve de fome na praça são membros de grupos indígenas que estão descontentes com Morales, um índio aimará que nasceu em uma aldeia remota das terras altas antes de se tornar um líder dos cultivadores de coca, na maioria índios quéchua, da região tropical de Chapare.

"Evo quer um regime totalitário aimará", disse Amalio Siye Ramos, 51 anos, um líder do grupo étnico chiquitano. "Os chiquitanos, guarayos, guaranis", ele prosseguiu, citando os grupos étnicos em Santa Cruz, "significam pouco para ele".

Seria uma balcanização na Bolívia, onde uma pequena elite tiraniza os índios há séculos? Analistas políticos acham que não. "É possível ver combates de ruas por pequenos grupos radicais de ambos os lados", disse Jose Mirtenbaum, um sociólogo da Universidade Gabriel René Moreno daqui. "Mas não veremos uma guerra civil plena."

Os líderes pró-autonomia daqui dizem que sua meta não é a independência política. Em vez disso, eles dizem estar se inspirando na Espanha, onde regiões como a Catalunha obtiveram maiores poderes administrativos. "O modelo de Quebec é extremo demais para nós", disse Juan Carlos Urenda, um advogado que ajudou a esboçar o estatuto de autonomia.

Tudo isto seria simples o bastante se a complexidade de Santa Cruz não invadisse tais idéias. Morales, afinal, conquistou cerca de 30% dos votos daqui nas eleições de 2005. Muitos desses eleitores permanecem leais. "A elite preferiria nos ver em reservas ou em pinturas em muros, como nos Estados Unidos", disse Silvestre Saisari, um ativista de terras indígenas daqui. "Nós não deixaremos que isso aconteça." George El Khouri Andolfato

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