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16/12/2007

Amor moderno: desejos e sonhos de Natal, congelados

The New York Times
De Paula McLain*

Em Nova York
No domingo, depois do Dia de Ação de Graças, minha família exausta estava na rodovia Interestadual, em uma das milhares de minivans que rumavam para casa com "Hello Kitty" no DVD portátil e biscoitos e suquinhos a pedidos. Em certo momento, meu marido sorriu zombeteiramente e disse: "Viu, querida? Temos o sonho americano".

Estranhamente, eu havia tido o mesmo pensamento, mas sem a ironia. Tinha visto uma perua passar rapidamente no outro sentido, com uma enorme árvore de Natal amarrada sobre a capota, depois outra carregada de maneira semelhante e mais outra —dezenas de árvores amarradas a dezenas de carros. A temporada de Natal tinha começado, e talvez pela primeira vez na minha vida eu não estava apavorada.

David Chelsea/The New York Times 
"Criada em lares adotivos, moderava minhas expectativas, mas era atacada por desejos"


Como fui criada em lares adotivos, aprendi na infância a moderar minhas expectativas de comemorações. Para mim não haveria festas de aniversário, acampamentos de verão ou aulas de balé —nem um Natal que não fosse quase totalmente uma decepção.

Aos 9 anos eu já tinha passado por quatro lares adotivos. Era na época das festas de fim de ano que eu mais sentia falta da minha verdadeira família —não os pais que abandonaram a mim e a minhas irmãs, ou minhas tias, tios e avós biológicos que tinham feito o possível antes de nos entregar à assistência social. Mas a mãe e o pai idílicos que resgatariam minhas irmãs e eu e tornariam tudo melhor.

Talvez eles trouxessem uma casa de praia da Barbie ou uma bicicleta cor-de-rosa com um cesto branco. Eu não havia imaginado exatamente como esses pais nos encontrariam. Pela lista telefônica? Usando telepatia? Eu me concentrava nas coisas que podia controlar: ser boa, escovar os dentes com cuidado extra, chorar menos.

Tinha aprendido que era possível sobreviver ao Natal —o momento mais amado e odiado do ano— sem me sentar no colo do Papai Noel ou escrever uma lista de presentes desejados. Mas os desejos aconteciam fora do meu controle, contrariando o bom senso. Chegava o final de novembro e eu me via assistindo a um comercial de TV com atenção extra, de boca aberta, os olhos arregalados.

Certamente meus pais adotivos perceberiam esse desejo e compreenderiam como minha vida mudaria para melhor se eu tivesse aquela calça de cintura baixa ou aquele jogo. Eles nunca perceberam, e eu continuei a ser atacada por desejos, ano após ano.

"Como adulta, me blindei contra a decepção"
Quando saí desse sistema, aos 18 anos, acreditava que também tivesse superado o Natal, pela idade e pelo desejo que ele provocava. Como adulta eu deveria fazer minhas próprias escolhas, mas já tinha me blindado contra a decepção: esperava pouco, e era o que eu recebia. Isso valia não apenas para as coisas, mas também para o amor. Tinha um namorado, Michael, que me enganava repetidamente, mas eu o perdoava e continuava, pensando que ele era o melhor que eu poderia arranjar.

Quando eu tinha 21 anos, e estava dura, consegui um emprego de caixa em um depósito de árvores de Natal. Eu não queria mais nada com o Natal, mas o fato de que o emprego só duraria três semanas e ocuparia todo o meu tempo livre o transformou em um sucesso. Eu poderia ganhar um dinheiro extra e evitar o Natal estando basicamente dentro dele, como um dos anões do Papai Noel. No Natal, mas não absorvida por ele.

Eu era uma prisioneira em minha cabana de madeira, mas não me importava. Era como estar em uma natureza portátil, brilhando embaixo das guirlandas de luzes pisca-pisca brancas. Os clientes estavam alegres, passavam rapidamente com suas notas de US$ 20 e seus narizes vermelhos, seguidos dos filhos.

Uma oportunidade de ter um 'feliz natal'
Os vendedores no terreno tinham uma fogueira, um latão do qual saíam chamas vermelhas. Quando não estavam ocupados, ficavam de pé ao redor dele e conversavam, seus rostos brilhando como tangerinas. Foi aí que vi Jeff pela primeira vez, com sua jaqueta de esqui azul e seus ombros quadrados, as mãos com luvas azuis cruzadas nas costas em um leque, como um pavão.

Quando o olhei, ele ergueu o olhar e me percebeu. Era bem bonito, de pele clara e nariz arrebitado, cachos castanhos esmagados pelo gorro de esqui. Quando ele se aproximou para conversar, fiquei basicamente contente pela oportunidade de dizer alguma coisa além de "Feliz Natal".

Ele era aluno do curso preparatório para direito em Berkeley, e tinha vindo passar as férias de inverno com a família. Conforme os dias passavam, ele veio cada vez mais à minha cabana.

"Quer ver os brincos de brilhantes que vou comprar para minha namorada?", ele perguntou certa noite, segurando um retângulo de papel recortado de um catálogo.

Peguei a foto e a segurei perto da fieira de luzes mais próxima, espremendo os olhos. Um namorado com meios para comprar brilhantes era um conceito tão estranho e obscuro para mim quanto a ciência econômica de Reagan. Jeff explicou que sua namorada, Sonja, estava de cama, recuperando-se de uma remoção de adenóides. Ele ia visitá-la depois do trabalho. "A menos que você esteja livre para a gente tomar uma cerveja", acrescentou.

Sua voz foi tão casual, seu rosto tão descontraído, que levei vários segundos para registrar que ele estava me paquerando. Uma família se aproximou da minha cabana e ele esperou enquanto eu fazia a cobrança, mas de maneira destacada, com uma calma perfeita e profunda. Quando a família foi embora, eu disse: "Claro, acho ótimo", sem pensar no meu namorado ou na pobre Sonja e suas adenóides.

Não tomamos cerveja. Abrimos uma garrafa de licor de hortelã no Volkswagen de Jeff no estacionamento. Ele beijava como se tivesse feito aquilo a vida inteira. Tinha gosto de... hortelã.

Jeff e eu nos encontrávamos sempre depois do trabalho e nunca antes das 10 da noite. Eu também via Michael em algumas noites, para não deixá-lo desconfiado. Mas com o passar das semanas comecei a pensar que talvez não quisesse que ele descobrisse só para nivelar o jogo, senão por outro motivo.

"Você merece coisa melhor", disse Jeff quando eu lhe contei sobre Michael. Ele acariciou meu cabelo e percorreu meu maxilar com os polegares enquanto olhava fixamente para meu rosto. Era como um narcótico. "Você precisa de alguém que cuide de você."

Eu encolhi os ombros, intoxicada. Ele não podia saber o efeito que essas palavras me causavam, como elas tocaram meus mais profundos e complexos desejos, superando a voz familiar de advertência em minha mente: "Cuidado! Ele vai decepcioná-la".

Na véspera de Natal demos a volta no lago Millerton, a coisa mais próxima que existe de um passeio romântico em Fresno.

Ele encostou, apagou os faróis mas deixou o motor funcionando para nos aquecer, enquanto nos beijamos intensamente, alcançando um torpor carregado de sexo e bebida. Uma rádio antiquada começou a tocar "You're just too good to be true" e ele cantou no meu ouvido. Foi um dos momentos mais românticos da minha vida até ali.

"Não acredito que preciso voltar para Berkeley daqui a algumas semanas", Jeff disse com a boca encostada ao meu rosto.

"Eu sei. Detesto pensar nisso."

"Você deveria vir comigo. Não seria incrível?"

Eu o beijei e percebi que estava perdida. Minha cautela se dissolvera. Em poucos segundos eu havia construído toda uma fantasia de nossa vida juntos, que ganhou tamanho e força como uma bolinha de neve que se transforma em uma avalanche incontível e esmaga uma aldeia. E nessa fantasia eu usava brincos de brilhantes —os brincos de Sonja. Quanto mais eu me permitia pensar nisso, mais parecia verdade que aqueles brincos eram destinados a mim. Jeff não poderia dizer essas coisas e ainda amar Sonja, poderia?

Na semana seguinte Jeff me convidou para passar a noite com ele e alguns amigos em uma cabana perto do lago. Seus amigos eram todos versões mais altas ou mais magras ou mais baixas dele, com camisas pólo em cores pastel, jeans caros e mocassins com lacinho e sem meias. Eles estudavam em ótimas escolas e eu estudava no terceiro ano de um curso altamente ineficaz. Eu me senti totalmente proletária perto deles e me preparei para a inevitável pergunta que me obrigaria a revelar que era uma estudante sofrível da classe trabalhadora; mas eles não perguntaram.

O dia estava brilhante, com muita neve compactada. Voamos de trenó por uma colina íngreme, e pensei que quando Jeff e eu fôssemos um casal de verdade faríamos esse tipo de coisa o tempo todo. Mas naquela noite ficou claro que nada estava mais longe da verdade.

Fizemos jogos de bebida que se tornaram ridículos, e depois malignos. Eu pensei que estivesse me divertindo, até que percebi que eu era o alvo de cada uma das piadas de mau gosto dos amigos de Jeff. Eles falavam comigo como se eu fosse uma garota de programa chamada para aquela noite, e embora eu esperasse que Jeff me defendesse ele não o fez. Eu bebi até cair em estupor e acordei na manhã seguinte lembrando de pouca coisa e esperando que não tivesse dormido com ele.

Depois disso Jeff não me ligou mais, nem eu para ele. Não haveria vida de fantasia nem brincos, e senti mais tristeza por aqueles brilhantes perfeitos do que eu jamais tinha sentido por qualquer presente que não recebera quando criança. Eu me havia permitido acreditar totalmente em Jeff, naquela nova e reluzente possibilidade, apenas por um momento, mas tinha acreditado, e descer daquela altura foi como despencar do espaço para a Terra. Esse foi meu erro —render-me àquele desejo—, algo que eu não pretendia repetir.

Quando Michael ia voltar para a escola, perguntou se eu queria ir com ele e ficar alguns dias. Eu disse sim. Pelo menos sabia onde estava me metendo, e de todo modo ele não era exatamente o que eu merecia? Tiramos um cochilo abraçados no sofá dele, e quando acordamos estava chovendo, mas nós estávamos ali quentes e secos. Aconcheguei-me a ele, sentindo-me como um carneiro perdido que voltou para casa, para o abraço de seu velho amigo lobo. Ele e eu duramos mais alguns meses, então também terminou.

Vinte anos depois, aquela colisão anual de desejo e decepção está aqui de novo. Mas agora tenho 42 anos, um casamento sólido, três filhos e uma casa com uma grande hipoteca —um clichê de classe média para alguns, mas uma enorme riqueza para mim.

E no caminho até aqui também me tornei a guardiã de uma lição de Natal duramente aprendida, na verdade um presente que pretendo passar para meus filhos: permitam-se querer as coisas, sem se importar com o risco de decepção. Desejar nunca é um erro.

*Paula McLain é autora do romance "A Ticket to Ride", a ser publicado pela Ecco em janeiro Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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