UOL Notícias Internacional
 

16/12/2007

No Congo, cresce a frustração com caridades e com a ONU

The New York Times
De Lydia Polgreen

Em Goma, Congo
A frustração com as forças de paz da ONU e com dezenas de organizações de ajuda que trabalham na província de Kivu do Norte, no leste da República Democrática do Congo (ex-Zaire), está crescendo à medida que aumenta a violência, o número de pessoas deslocadas se aproxima de 1 milhão e a agilidade da assistência, especialmente para aqueles que fogem dos combates das últimas semanas, deixa a desejar.

Lynsey Addario/The New York Times 
Família que abandonou lar após início dos combates se refugia em escola desde outubro


Muitos congoleses querem que as forças de paz da ONU intervenham com mais força e lutem ao lado do exército congolês contra as forças rebeldes de Laurent Nkunda, general renegado que se recusa a unir suas tropas às forças armadas do país.

A luta contra Nkunda está deixando o Congo à beira de uma nova guerra civil, um ano depois do primeiro governo eleito em quatro décadas ter sido empossado e quatro anos depois do término oficial dos combates. O exército do Congo provou ser incapaz de repelir os rebeldes e as lutas do ano passado deslocaram 425 mil pessoas.

'Ajudar e não ocupar'
A força de paz da ONU tem autorização para uso de força no Congo para proteger os civis, assim como também prometeu defender Goma e os campos ao seu redor de serem dominados pelos rebeldes. Ela também deve trabalhar com o exército congolês para estabelecer segurança, o que provoca a expectativa em uma população cansada após mais de uma década de conflito de que a força da ONU, conhecida pela sigla Monuc, ajudaria a derrotar os rebeldes.

"Por que a Monuc está aqui, se não combate estas pessoas que nos fazem sofrer?" disse Mwenge Biroto, que fugiu de Sake na terça-feira. "Por que não nos ajudam a ter paz?"

Diplomatas de vários países ocidentais também questionam por que a Monuc não atua com mais vigor para proteger os civis e evitar que tenham que fugir, uma questão que provavelmente será levantada quando os diplomatas se reunirem aqui, neste fim de semana, para discutir a segurança regional. O mandato da força terá que ser renovado pelo Conselho de Segurança neste mês.

Funcionários da ONU disseram que seu principal papel é ajudar o governo do Congo, não ocupar o seu lugar, e que proteger os civis é principalmente uma responsabilidade do governo. A ONU fornece transporte para movimentação de tropas e algum apoio aéreo com helicópteros aos esforços fracassados do governo para remover Nkunda.

A frustração congolesa com a força da ONU é mais que igualada pela revolta contra suas próprias forças armadas, que recuaram diante dos ataques rebeldes da semana passada.

O general Indrajeet Narayan, o comandante dos 4.500 soldados da força de paz dispostos em Kivu do Norte, disse que a força não está autorizada a ir além a menos que seja atacada.

"Há muita expectativa" por parte dos civis, disse Narayan. "Eles vêem nossas tropas, vêem nossas armas, então esperam que sejam usadas. Mas o mandato declara de forma clara que temos que proteger a população civil em primeiro lugar."

Guerra, fome e doenças
A ONU também nutre sérias preocupações de direitos humanos em trabalhar tão estreitamente com os militares congoleses, que têm fracassado em manter a disciplina e o moral. O exército é composto em grande parte por ex-membros do antigo exército nacional e das milícias que lutaram na guerra civil. Eles foram retreinados e reposicionados, mas os problemas continuam, e o exército é acusado de muitas violações de direitos humanos, incluindo assassinato e estupro.

Organizações de direitos humanos e funcionários de ajuda humanitária dizem que o exército às vezes colabora com as milícias, como a Mai Mai. Na semana passada, a 14ª Brigada, que os rebeldes expulsaram de Mushake, molestou civis e saqueou enquanto partia, provocando censura da ONU.

Muitos congoleses também estão frustrados com as organizações de ajuda, que começaram a reduzir seus programas de ajuda após a eleição do ano passado para se concentrarem mais no desenvolvimento a médio e longo prazo, com projetos de construção, como escolas, clínicas e sistemas de abastecimento de água, necessários para a reconstrução de uma país destruído. Elas estão tendo dificuldade em atender ao aumento da demanda por suprimentos básicos, como alimento e abrigo, por parte do fluxo interminável de pessoas deslocadas, assim como para trabalhar em meio à violência.

Fome e doença, e não balas e bombas, sempre mataram mais no Congo, onde alguns pesquisadores estimam que 4 milhões morreram desde que a guerra teve início em 1996. As pessoas em fuga freqüentemente se abrigam com parentes em cidades periféricas para evitar os campos de refugiados. Mas tal prática pode deixá-las mais vulneráveis a doenças —a maioria dos campos conta com água limpa e latrinas.

Em Rutshuru, uma grande cidade regional, uma epidemia de cólera leva diariamente 50 pessoas a um hospital dirigido pelos Médicos Sem Fronteiras.

A cólera é um subproduto do deslocamento. Quando a população rural foge para as cidades, elas levam a cólera consigo. Em condições sem higiene e com grande acúmulo de pessoas, ela se espalha como incêndio florestal, disse Augustin Augier, o coordenador do hospital.

"A violência e a doença estão completamente ligadas", disse Augier. "Nós nunca vimos uma epidemia de cólera em Rutshuru; é apenas resultado da crise."

O hospital estabeleceu uma ala para cólera e uma oficina para produzir camas. A velocidade é essencial. Diagnosticada cedo, a cólera é tratável —nenhum medicamento é necessário, apenas uma grande quantidade de infusão intravenosa de fluidos. Mas se não for tratada, ele mata metade de suas vítimas, às vezes em um dia.

A fome é mais um inimigo
Levar alimentos para os deslocados tem sido um problema, em parte por se moverem rápido demais, freqüentemente mais rápido que a lenta burocracia de ajuda. Preocupações de segurança e estradas esburacadas, obstruídas por lama, também dificultam o deslocamento de suprimentos. Recentes confrontos forçaram o Programa Mundial de Alimentos a suspender as entregas para áreas onde viviam mais de 350 mil deslocados.

Mesmo quando as populações podem retornar, elas não podem cultivar a terra por causa da circulação dos grupos armados. Tanto rebeldes quanto soldados, dizem funcionários de ajuda humanitária e direitos humanos, estupram as mulheres que saem de suas aldeias para plantar. A desnutrição infantil está aumentando, e as pessoas deslocadas são forçadas a fugir sem comida, as deixando dependentes de ajuda.

Em Minova, uma cidade onde dezenas de famílias exaustas, em farrapos, chegaram na semana passada em busca de refúgio, a Cadre, uma organização local de ajuda, transformou um prédio onde costuma dar aulas de costura em um abrigo contra a chuva.

"Nós realmente não temos nada para lhes oferecer -não temos comida, nada para abrigá-los", disse Edouard Dunia, que comanda a Cadre.

Eugenie Hasima se sentou em uma colina próxima, tentando acalmar sua filha Ajira, 2 anos, que chorava por comida. "Eu não tenho nada para lhe dar", ela disse, caindo em lágrimas enquanto Ajira chorava de forma inconsolável. "Ela não come desde ontem e passou todo o dia andando. Nós estamos todos famintos". George El Khouri Andolfato

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