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17/12/2007

Quais as paisagens do planeta que estão em risco? Vamos vê-las antes que acabe!

The New York Times
De Allen Salkin

Em Quito, Equador
Dennis e Stacie Woods, um casal de Seattle, escolhe seus destinos para férias tendo como base locais que temem estarem fadados à destruição. Este mês foi uma viagem para camping e caiaque nas Ilhas Galápagos. No ano passado, ficaram em uma remota cabana no Amazonas e antes disso, uma escalada no Monte Kilimanjaro.

Kevin Moloney/The New York Times 
Turistas 'do Juízo Final' fotografam geleira em reserva chilena, antes que ela acabe


"Nós queríamos ver as ilhas este ano," disse na semana passada Dennis Woods, um advogado, no lobby de um hotel local, "porque nós achamos que elas só vão se deteriorar mais".

A visita ao Amazonas foi "para tentar ver a região em seu estado natural, antes de ser transformada em uma fazenda de gado, ou ter suas árvores derrubadas ou totalmente queimadas," ele disse. A ida ao Kilimanjaro foi para ver o nascer do sol do mais alto pico da África, antes que a neve do topo derreta, como se prevê que vá acontecer nos próximos dez ou mais anos.

O próximo da lista: o Ártico, antes que o gelo acabe

A família Woods faz parte de uma tendência de viagens que Ken Shapiro, o editor-chefe de TravelAge West, uma revista para agentes de viagens, chama de "o Turismo do Juízo Final."

"Não se trata apenas de ir para um lugar exótico," diz Shapiro. "Trata-se de ir a algum lugar que eles acreditam que desaparecerá em uma geração."

Dos trópicos aos campos de gelo, o Juízo Final traz grandes negócios. A Quark Expeditions, líder em viagens ao Ártico, dobrou em 2008 a capacidade para sua temporada de viagens ao extremo norte e extremo sul do planeta. Os agentes de turismo informam que os clientes cada vez mais solicitam roteiros para ver as geleiras derretendo na Patagônia, os corais ameaçados da Grande Barreira de Corais e a erosão no atóis das Maldivas, diz Shapiro.

Mesmo o naufrágio do Explorer, o navio de cruzeiro do Oceano Antártico, que foi atingido por um iceberg no mês passado, não esfriou esse interesse.

Outros operadores de roteiros turísticos dizem ter recebido telefonemas desesperados pedindo por alojamentos de último minuto da parte de pessoas que tinham reservado viagens futuras no Explorer. Como a maioria dos roteiros já estão completos, candidatos a clientes estão sendo recusados.

O que tais viajantes buscam pode ser a versão dos dias modernos de um antigo impulso humano -contemplar uma fronteira totalmente livre. Exceto que desta vez, em ao contrário de ser o primeiro a escalar uma montanha ou se deliciar com a vista de um lago alimentado por uma geleira, viajantes como os Woods estão ansiosos por serem os últimos a ver as coisas.

Quase todas essas viagens são anunciadas como conscientemente ambientalistas e sensíveis à causa da ecologia -elas são, no final das contas, grandes excursões ao centro dos efeitos devastadores do aquecimento global. Mas o setor de turismo, dizem alguns ambientalistas, avança como ave de rapina sobre esse frenesi. Esse tipo de viagem, eles alegam, raramente é "verde". É gananciosa, exigindo aviões e barcos, assim como novos hotéis.

Embora bem intencionados, tais viajantes podem acelerar a destruição dos próprios lugares que estão tentando visitar. Mas é difícil se chegar a um acordo no debate ambientalista. O que está claro é que o apelo ao ego humano continua sendo uma fantástica ferramenta de vendas para quase todo tipo de produto.

"Na verdade, o turismo do Juízo Final já está entre nós há muito tempo,"
diz Jonathan Raban, escritor, em entrevista por telefone de sua casa, em Seattle. "Trata-se da deterioração do mundo e do incentivo do setor de turismo de nos vender a idéia de estar em um lugar antes que seja tarde demais, antes que outras pessoas o estraguem."

"Lembro-me das imagens da abertura para o Oeste pelas ferrovias, com a ajuda de pintores inesquecíveis como Albert Bierstadt, que vendeu aquela idílica versão do primitivo Oeste, povoado apenas por cervos e seus faunos e pitorescos indígenas. Houve uma corrida do Leste para se chegar lá um pouco antes dos mineradores, que iriam estragar aquilo, e antes que outros turistas começassem a devastar o lugar."

Na época, as imagens eram dos gêiseres e do pôr-do-sol nas Montanhas Rochosas cheias de antílopes. Agora o viajante inquieto, motivado por Web sites promocionais mostrando imagens de nativos sorridentes com os rostos pintados e bandos de exóticos pássaros coloridos, é incentivado a ir à vulnerável Amazônia. Sem mostrar o que o turista terá que suportar na sua
estada: cabanas com piso de bambu, aonde as duchas quentes venham como cortesia da energia solar e vivazes tucanos podem ser vistos das escaladas às torres de observação.

Por centenas de dólares ou mais por noite, as pessoas esperam ter água quente e outros confortos.

Em novembro, a revista "Travel & Leisure" publicou uma edição sobre "viagens com responsabilidade" e trouxe uma relação, na capa, de "13 planos de viagens livres de culpa," sendo a número 5 um pacote para a Floresta Tropical Inkaterra. A US$ 497,00 (pouco mais de R$ 890) por pessoa, incluía uma estada de três noites em palafitas, excursão para a reserva ecológica privada do hotel, viagem de barco para uma fazenda nativa e uma massagem de 30 minutos no Spa do hotel.

Um "Pacote Serengeti Verde" na Tanzânia começava por US$ 836 (cerca de R$ 1.500) a noite por pessoa, com todas as bebidas, "excluindo-se champanhe".

Tudo isso são artimanhas, disse John Stetson, porta-voz da Will Steger Foundation, uma entidade de educação ambiental de Minnesota. "O eco-turismo é um termo a mais para o marketeiro," diz ele. "Muitas pessoas querem fazer o que é certo, então quando algo é alardeado como o correto, eles tendem a fazer aquilo."

Mas, diz , embarcar num jato para ir ver os icebergs contribui para o aquecimento global, que faz com que os icebergs derretam mais rápido.

"É difícil atribuir culpa a alguém que quer ver algo antes que desapareça, mas é lamentável que em sua busca por fazer isso, se contribua para o problema" ele afirma.

Os defensores do turismo "verde" respondem que até mesmo viagens que queimam carbono podem ajudar a preservar os destinos, pois as pessoas da região ficam sabendo que há mais valor econômico na preservação da natureza para os turistas do que na agricultura ou na derrubada de árvores, disse Lene Oestergaard, diretor executivo da Rainforest Foundation. A organização foi fundada por Sting e Trudie Styler em 1989 para ajudar os indígenas das florestas tropicais do mundo a proteger seu meio-ambiente.

"Existem resorts que são ambientalmente corretos," ele disse. "Isso é possível."

NASA via The New York Times-15.set.2007 
Imagem de satélite mostra desprendimento de blocos em geleira canadense em setembro


Algumas agências de viagens tentaram conciliar as conflitantes idéias de ver o planeta e ao mesmo tempo preservá-lo.

A Abercrombie & Kent, uma agência de viagens de luxo, está oferecendo
"excursões- missões" para locais ambientalmente frágeis. Na missão Antártica, que está sendo realizada agora, os 22 participantes, que pagaram US$ 6.190 (em torno de R$ 11.120) cada um, por um roteiro de 13 dias, deram um adicional de US$500 (ou perto de R$ 900) cada, para a Friends of Conservation.

Parte do dinheiro ajudou a comprar uma câmera de vídeo de alta definição, que os turistas vão levar para a Palmer Station, um centro americano de pesquisas ecológicas na península Antártica, disse Pamela Lassers, porta-voz da operadora de viagens. A câmera será usada para filmar o comportamento do krill,ela disse.

Cada turista recebe um certificado de participação e um adesivo "Climate Change Challenge Mission."

"É para o agasalho de sua expedição", explicam os materiais de propaganda.

Outra missão em outubro levou uma estação de monitoramento do clima para pesquisadores no Monte Kilimanjaro, disse Lassers.

De certa forma, essas diligentes excursões revelam que a própria idéia de aventura mudou. Antigamente havia sentido na existência de naturalistas como Darwin, em um mundo selvagem. Exploradores como Lewis e Clark buscaram mapear o que se parecia com a vastidão ilimitada. Aventureiros como Livingstone e Scott buscaram a conquista dos desafios naturais da terra e alguns morreram na tentativa.

Durante os últimos cinqüenta anos, mochileiros e outros aventureiros tomaram um rumo mais tranqüilo percorrendo novas trilhas pela Ásia, América do Sul e outros locais -só para descobrir anos mais tarde que algumas trilhas foram devastadas para acomodar rodovias que levavam aos Holiday Inns. Há uma sorveteria Baskin-Robbins em Katmandu e uma série de hotéis cinco estrelas em Goa, Índia.

Aqueles que se consideram viajantes do mundo estão engalfinhando-se por algo que ainda não tenha sido alcançado.

Mas o que sobrou para se vangloriar nos coquetéis pós-viagem? Viajar para a Índia era comum no final da década de 1990. Em 2003, todo mundo precisava correr para dançar um tango em Buenos Aires. Ainda não dá para se reservar um lançamento para a Lua na Orbitz.

"Para mim," disse Nancy Novograd, editorada Travel & Leisure, "viajar para a Mongólia é agora quase um clichê. Na semana passada, parecia que todo mundo ia para a Mongólia. A exigência é cada vez maior."

Será que ainda sobraram emoções?

Ninguém está oferecendo ainda uma viagem à Antártica na qual os turistas poderão matar e devorar cães de trenó, como o fez Ernest Shackleton no desespero, em sua expedição de 1914-16. Por enquanto, os viajantes para os remotos destinos gelados precisam se contentar com passatempos menores.

Everen T.Brown, um fotógrafo de Salt Lake City, pagou cerca de US$ 22.000 à Quark Expeditions só para ser uma das 300 pessoas que ela leva ao Pólo Norte todo ano nos navios quebra-gelo.

"Ouve-se falar tanto do aquecimento global, que a gente espera que ao chegar ao Pólo Norte, não exista mais nada lá," disse Brown. "Mas ainda existe gelo por lá."

No pólo, os líderes de excursões fincam um marco e fazem uma cerimônia com bandeiras coloridas, seguida de um piquenique no gelo e, para os verdadeiramente intrépidos, um radical mergulho nas profundezas congelantes.

"Nós temos uma visão romantizada do que seja o Pólo Norte," diz Brown, que colocou uma foto panorâmica do pólo no seu site (360atlas.com).

"E existe a realidade. É frio. É desolado. Papai Noel não está à nossa espera para nos saudar." Claudia Dall'Antonia

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