UOL Notícias Internacional
 

17/12/2007

Quando os valentões ficam incógnitos

The New York Times
De Cristopher Maag

Em Dardenne Prairie (Missouri), EUA
Como quase todos os bandos de arruaceiros, o que perseguiu Megan Meier foi cruel e implacável. Seus membros se reuniram na rede social virtual MySpace e chamaram Megan de mentirosa, prostituta gorda e coisas piores, disse Tina Meier, mãe de Megan.

Megan, de 13 anos, se defendeu insultando seus torturadores com todas as obscenidades que conhecia. Mas o bando falou mais alto, inundando seu computador e sua instável autoconfiança com uma sucessão de abomináveis mensagens instantâneas.

Arquivo pessoal da família Meier/The New York Times 
Conseqüência real: Megan Meier, de 13 anos, não resistiu aos ataques virtuais que sofreu


"Mãe, eles são horríveis!", disse Megan, soluçando quando sua mãe lhe telefonou. Uma hora depois, Megan foi para seu quarto e enforcou-se com um cinto.

"Ela achou que não tinha saída," disse Tina Meier.

O suicídio de Megan chegou às manchetes porque ela foi vítima de um trote virtual. Lori Drew, outra mãe da vizinhança, disse à polícia que havia criado a identidade de um rapaz no MySpace, uma invenção chamada "Josh Evans", e que ela e a filha haviam manipulado Megan para pensar que aquela pessoa inventada gostava dela.

Algumas semanas depois, disse Tina Meier, garotas passando-se por Josh mandaram mensagens pelo MySpace dizendo que ele odiava Megan. Ele a insultou, e outras jovens -a maior parte delas sem sequer saber que Josh não existia- morbidamente agravaram o quadro. (Depois, por intermédio de seu advogado, Drew, de 48 anos, negou ter conhecimento da farsa).

De certa forma, esse trote virtual foi de uma singularidade trágica. Em geral as mães não participam de travessuras perversas e poucos adolescentes importunados ficam deprimidos e se suicidam. Mas a história de Megan também é um caso a ser estudado sobre o "cyberbullying" (o ataque de uma pessoa a outra com o uso de tecnologia interativa, no caso específico, a Internet).

Câmeras de telefones celulares e mensagens de texto, assim como os sites de redes de contatos sociais, e-mails e programas de mensagens instantâneas dão aos adolescentes amplos meios de pregar peças uns nos outros, provocar e intimidar seus colegas de geração.

E ao contrário da intimidação tradicional, que realmente é uma experiência privada, e extremamente desagradável, a intimidação high-tech pode acontecer em qualquer lugar, a qualquer hora, entre muitos jovens diferentes que podem jamais vir a se encontrar pessoalmente. Não é possível ignorá-la e em geral é anônima, dizem sociólogos e educadores que estudaram o "cyberbullying".

Mesmo nesta cidade, onde o nome de Megan é uma lembrança constante dos perigos da Internet, adolescentes dizem que adoram usar a tecnologia -e alguns até mesmo recorrem a ameaças.

"Tenho certeza de que todas as garotas nesta mesa usaram seus celulares ou programas de mensagens instantâneas para contar algo maldoso a respeito de alguém", disse Victoria Fogarty, em um debate sobre a prática do bullying com seis outros adolescentes. Victoria, de 14 anos, é filha de Pam Fogarty, prefeita de Darnenne Prairie, e cursa a oitava série na West Middle School, freqüentada por Megan.

Outros temem tornar-se a próxima vítima

"Assim que você entra no MySpace, está num beco sem saída," disse Jake Dobson, de 12 anos, aluno da sétima série na West Middle School. "Todo o seu tempo gasto online serve apenas para tentar impedir que as coisas negativas sobre você se espalhem".

Megan Meier passou meses implorando por uma página virtual antes que sua mãe finalmente concordasse. Tina Méier pensou que fazer amizades online poderia ser bom para sua filha, uma garota sensível que ansiava por ligar-se emocionalmente a alguém.

Mas essa necessidade tornou Megan vulnerável. Ainda na terceira série, Megan se detestava e falava em suicídio, disse Tina Meier. O diagnóstico foi depressão e transtorno de déficit de atenção -o que significa que Megan receberia acompanhamento semanal e uma seleção de remédios como tratamento.

Quando passou para a sétima série na West Middle School, Megan estava com excesso de peso mas ativa, disse Tina Meier. Ela saia com outras jogadores de vôlei, que vinham em segundo lugar entre as garotas mais populares, abaixo apenas das jogadoras de futebol, disse Laura Rogers, de 14 anos, amiga de Megan.

Ela imitou o estilo das jovens que estavam acima dela, disse Tina Meier. Às vezes, usava tanto rímel que ficava parecida com um guaxinim. Costumava aceitar alegremente o convite de uma jogadora de futebol para ficar com a garotas mais populares no almoço, disse Laura.

Tais lampejos de sucesso se definhavam durante as aulas de ginástica, quando Megan precisava trocar as roupas de estilistas conhecidos que passou a usar, em tamanho extra, por shorts e camiseta.

"As pessoas nas aulas de Educação Física a chamavam de gorda todo dia,disse Laura". "Eu a via chorando no vestiário".

Depois de um ano difícil, os pais de Megan a transferiram para a Immaculate Conception Catholic School, em Dardenne Prairie. A escola tem uma rígida política para evitar a formação de panelinhas. Os estudantes usam uniformes, e têm lugares marcados no almoço, para que possam socializar-se com todos.

"Realmente não existem grupinhos," disse Rachel Garzon, de 14 anos, que fez amizade com Megan. "Você pode ter uma amizade mais próxima com algumas pessoas, mas podemos circular e conversar com qualquer um e todos serão simpáticos com você."

Megan, que havia escapado das antigas panelinhas, manteve sua antiga página no MySpace. "Tecnicamente ela ainda não tinha a idade certa, porque é preciso ter 14 anos," disse Tina Meier. "Mas eu era a única que conhecia a senha de acesso. Eu lia cada uma das mensagens que ela recebia ou enviava. Achei que poderia estar segura, e Megan conheceria alguns amigos".

O MySpace usa programas e pessoas para identificar conteúdo e imagens de truculência, informou a empresa em um comunicado por escrito e o site oferece aos usuários a possibilidade de denunciar pessoas que recorrem ao cyberbullying.

Nem os populares estão a salvo

Mas controlar a internet pode ser praticamente impossível, dizem especialistas, já que a maioria dos adolescentes e jovens simplesmente não possui a maturidade necessária para lidar com o mundo virtual e seus ataques anônimos.

"Os adolescente consideram o que é dito online como a verdade literal", diz Justin Patchin, professor assistente de justiça criminal na Universidade de Wisconsin, Eau Claire, que estuda o cyberbullying.

E, como no caso de Megan Meier, a vítima da agressão cibernética é quase sempre excluída, mesmo assim jamais fica livre de um ataque. "A pessoa que é alvo vê todo esse universo cibernético onde todos são contra ela e ninguém virá em sua defesa", disse o Dr. Walter Roberts, professor de educação em aconselhamento na Minnesota State University, de Mankato. "O abuso não se limita à parte do dia em que os jovens estão na escola. Os jovens que são alvo não conseguem se esquivar."

Há três anos, antes do suicídio de Megan, o sistema escolar identificou o cyberbullying como um problema grave, disse Kim Carter, assistente de supervisão para serviços a estudantes no Distrito Escolar Fort Zumwalt.

Em 2005, a escola fez uma pesquisa com alunos e professores. E antes e depois da morte de Megan, o distrito realizou várias assembléias, reuniões e workshops para treinar estudantes, pais, corpo docente e administradores para identificar e reagir ao cyberbullying.

Mesmo que toda vigilância tenha ajudado, dizem os estudantes, o cyberbullying continua comum. No mês passado, uma jovem ganhou US$ 500 (cerca de R$ 900) em uma rifa na aula. Antes mesmo que a professora abrisse a porta para dispensar todos, o restante dos alunos da escola estavam alvoroçados com os rumores de que ela havia trapaceado, disse Sarah Fogarty, outra das filhas da prefeita.

Como aquilo era possível? Parte-se do princípio que os celulares estejam desligados na escola. As meninas enviam mensagens de texto de olhos fechados, disse Sarah. Elas costumam digitar nos seus teclados sob as carteiras, mantendo a atenção voltada para o professor.

"Ainda não sou boa nisso," disse Sarah.

Este outono, um jovem que é malquisto dançou uns passos de break em um jogo de futebol. As pessoas fizeram vídeos e tiraram fotos com seus celulares e, imediatamente, transmitiram a centenas de pessoas.

"Estavam caçoando dele porque queriam continuar se divertindo às suas custas e as fotos o mostraram ridículo," disse Jake Dobson, aluno da sétima série.

Mesmo os meninos populares se sentem vulneráveis.

Ryan Franklin, de 12 anos, era um dos astros no seu time de beisebol da Little League, até que precisou operar o estômago, no verão passado, contou sua mãe, Sonya Franklin. Enquanto ele se recuperava, um amigo enviou mensagens de e-mail a dezenas de estudantes, com afirmações falsas, de que Ryan havia feito comentários de natureza sexual sobre uma das meninas da classe, disse Sonya Franklin.

"A verdade é que ele havia parado de jogar beisebol e portanto, perdera parte de seu status", disse Franklin. "Algumas pessoas começaram a visá-lo porque era um alvo fácil." As mensagens de e-mail só pararam quando ele ameaçou telefonar para a mãe do outro rapaz.

Jake Dobson admite que não tem como evitar uma mensagem instantânea fazendo pouco de alguém, mesmo sabendo que isso pode acontecer com ele.

"È como se eu não pudesse fazer nada porque todos estão lá vigiando com seus celulares, só esperando que eu faça algo errado," disse. Claudia Dall'Antonia

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