UOL Notícias Internacional
 

18/12/2007

Quem está matando os astros da música country do México?

The New York Times
James C. McKinley Jr.
Em Morelia, México
Os astros da música country mexicana estão sendo assassinados em um ritmo alarmante -13 no último ano e meio, três apenas em dezembro- uma tendência que caminha de mãos dadas com o aumento da violência entre gangues de drogas aqui.

Nenhum dos casos foi solucionado. Todos apresentam sinais de execuções do submundo mexicano, provocando um calafrio entre as fileiras de outros músicos que cantam em estilo country sobre o amor, a violência e as drogas no México moderno.

Um dos ataques mais chocantes ocorreu quando Sergio Gómez, o fundador e vocalista principal do grupo K-Paz de la Sierra, foi seqüestrado enquanto deixava um concerto em seu Estado natal, Michoacán, na madrugada de domingo, 9 de dezembro.

Adriana Zehbrauskas/The New York Times 
Fãs comparecem ao velório de Sergio Gomez, do K-Paz de la Sierra, na Cidade do México

Seu corpo foi encontrado no dia seguinte, jogado em um acostamento nos arredores desta cidade, a capital do Estado. Ele foi espancado, torturado com um acendedor de cigarro e depois estrangulado com uma corda de plástico, disseram as autoridades. Ele tinha 34 anos e tinha acabado de ser indicado para um prêmio Grammy.

"Nós não entendemos por que isto aconteceu", disse seu tio, Froylán Gómez, em uma entrevista. "Ele nunca fez mal a ninguém."

Os motivos para os assassinatos permanecem motivo de especulação e nenhuma evidência foi encontrada os associando a um único assassino. Em alguns casos, os músicos pareciam ter ligação com figuras do crime organizado, os tornando alvos potenciais em ataques de represália de gangues rivais.

Outros compuseram canções conhecidas como "narcocorridos", baladas que glorificam o mundo sombrio dos narcotraficantes e matadores, que às vezes ofendem outros traficantes e matadores. Em outros casos, à medida que cresce a fama dos músicos, eles parecem se envolver de forma involuntária com os criminosos.

"Às vezes há um relacionamento direto entre o músico e o narcotraficante", disse Miguel Olmos, um musicólogo do Colégio da Fronteira Norte, em Tijuana. "Mas também há muitos crimes passionais. Quero dizer, o músico estabelece algum tipo de relacionamento sentimental com as pessoas que estão ligadas a esta cultura de violência e de narcotráfico e de alguma forma isto sai de controle. Eles sempre tocam algum nervo do traficante."

No caso de Gómez, que era mais conhecido por suas canções românticas, os promotores estão investigando se ele tinha laços com o crime organizado. Mas até o momento, a investigação de seu seqüestro tem sido um atoleiro de relatos conflitantes, testemunhas desaparecidas e pontas soltas que dificilmente serão amarradas tão cedo.

Os investigadores ainda precisam entrevistar os dois executivos que estavam com Gómez quando ele foi seqüestrado, assim como também não entrevistaram os outros membros de seu grupo. "Nós esperamos poder localizar todas estas pessoas", disse María Elena Cornejo Chávez, a subprocuradora do Estado de Michoacán. "É muito complicado para nós porque eles todos deixaram o Estado."

As mortes foram particularmente brutais. Em 13 de dezembro, José Luis Aquino, um trompetista de 33 anos do grupo Los Condes, foi encontrado com sinais de espacamento até a morte no Estado de Oaxaca, com sua cabeça envolta em um saco plástico e suas mãos e pés amarrados.

Em 1º de dezembro, Zayda Peña, a vocalista do grupo Zayda y los Culpables, foi baleada em um quarto de motel em Matamoros, no Estado de Tamaulipas. Ela sobreviveu ao ataque, mas os assassinos a seguiram até o hospital e a mataram com mais dois tiros enquanto ela estava deitada na cama. Ela tinha 28 anos.

"Nós estamos em choque, porque é uma coisa estranha o fato de, em uma semana, três membros de grupos country terem sido mortos", disse José Angel Medina, líder do Patrulla 81, aos repórteres após as recentes mortes. "Nós estamos com medo porque estamos superexpostos e isto poderá continuar. Nós não sabemos quem será o próximo."

Grupos inteiros também foram atacados. Os quatro membros do Los Padrinos de la Sierra foram mortos a tiros no Estado de Durango em 9 de junho. Em 19 de fevereiro, assassinos com metralhadoras atacaram os membros da Tecno Banda Fugaz na cidade de Puruaran, Michoacán, matando quatro e ferindo um.

O número de vítimas em 2006 foi igualmente sombrio. Em 9 de agosto, três membros do Explosión Norteña, um grupo que se dedicava a canções sobre os traficantes de drogas, foram baleados e gravemente feridos no escritório deles em Tijuana.

Em 25 de novembro daquele ano ocorreu o assassinato do cantor Valentín Elizalde, 25 anos, juntamente com seu empresário e motorista, logo após um show na cidade de fronteira de Reynosa, Tamaulipas. Mais de 66 cápsulas de rifle AK-47 foram disparadas contra o carro deles.

Um mês depois, Javier Morales Gómez, um membro do Los Implacables del Norte, foi morto a tiros em Huetamo, Michoacán.

Todas as vítimas tocavam vários gêneros de música country mexicana, distinguível por sua batida e letras emotivas sobre tudo, de amor não correspondido a bandidos famosos.

Algumas vítimas eram particularmente conhecidas por seus narcocorridos. Um dos sucessos de Peña, por exemplo, era "Tiro de Gracia", uma referência às execuções das gangues. Elizalde também era conhecido por suas baladas sobre bandidos e chefões das drogas.

Mas Gómez, do K-Paz de la Sierra, era diferente. Seus maiores sucessos eram canções de amor como "Mi Credo" (Minha Crença) e "Volvere" (Voltarei). Sua banda tocava no estilo dançante de Durango, caracterizado pela proeminência dos metais e uma batida de marcha super-rápida. Como muitos outros grupos country, os membros da banda vestiam roupas idênticas de oeste e chapéus de caubóis.

A notícia de sua morte levou alguns músicos a cancelarem concertos em Michoacán. Outros disseram que as mortes os deixaram temerosos de aparecer em público.

"Estes assassinatos foram executados com muita crueldade e isto nos deixa tensos", disse Jorge Medina, cantor da La Arrolladora Banda em uma entrevista para a televisão.

Os investigadores de Michoacán dizem que Gómez deixou o estádio em Morelia depois de seu concerto, às 3h30 da madrugada de domingo. Ele estava na companhia de um motorista e dois executivos de gravadora, Javier Rivera e Víctor Hugo Sanchez. Eles partiram em um sedã, segundo a polícia. Os outros sete músicos da banda e dois dos irmãos de Gómez seguiam em outros carros.

Pouco depois, um membro do grupo telefonou para a polícia federal e informou que Gómez e os dois executivos tinham sido seqüestrados por homens armados a cerca de cinco quilômetros de Morelia, na estrada para Salamanca. A polícia federal informou a polícia estadual, segundo as autoridades.

O que aconteceu a seguir permanece incerto. A polícia estadual diz que quando chegou ao local, os agentes federais disseram que tinham entrevistado os dois executivos e determinado que o seqüestro era uma alarme falso, disse Cornejo, o subprocurador estadual. Um porta-voz do gabinete do procurador federal em Morelia, Miguel Ángel Hernández, confirmou este relato.

Mas Gómez foi torturado até a morte entre 4h30 e 11h da manhã de domingo em um lugar desconhecido, apontou a autópsia. Ele foi agredido gravemente na cabeça e peito. Suas coxas e genitais foram queimados. Ele morreu por estrangulamento.

Em Ciudad Hidalgo, uma pequena cidade rural situada em um vale a cerca de 100 quilômetros a leste de Morelia, as pessoas se lembravam de Gómez com carinho. Ele cresceu ali, filho de um cantor local que nunca fez sucesso, em uma casa modesta em um bairro pobre.

Ainda na adolescência, ele se casou com uma garota de um rancho próximo, morou na casa de seus pais, teve seu primeiro filho e trabalhou como marceneiro.

Toda a família se mudou para Chicago, Estados Unidos, durante a crise financeira de meados dos anos 90, onde Gómez exerceu vários empregos domésticos, teve mais dois filhos e teve problemas com as autoridades de imigração. Ele acabou encontrando trabalho como técnico de som de uma banda, Montez de Durango.

Em 2003, ele e três músicos daquele grupo formaram o K-Paz de la Sierra. Sua carreira decolou. A banda gravou quatro álbuns de muito sucesso e excursionava regularmente por arenas e grandes salas de concerto no México.

Ele também visitava Ciudad Hidalgo todo ano e doou milhares de dólares para ampliação da escola onde estudou na infância. Ele nunca empinou o nariz para seus velhos amigos, disseram os vizinhos. "Ele sempre se comportou muito bem", disse um conhecido, que pediu para não ser identificado por temer os traficantes de drogas. "Ele não era do tipo esnobe."

A esposa dele, Felicita, disse aos repórteres que ele parecia tranqüilo nos dias que antecederam sua morte e que nunca mencionou qualquer ameaça. "Eu nunca vi ele nervoso ou esperando algo ruim", ela disse.

Froylán Gómez notou que seu sobrinho nunca cantou sobre traficantes ou usou drogas. "Este homem nunca fumou ou bebeu", ele disse. "Nós não conseguimos entender por que aconteceu. Toda a família exige justiça. Nós queremos saber quem é o autor deste crime." George El Khouri Andolfato

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