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18/12/2007

Uma 'dieta de fertilidade' pode ajudar a engravidar?

The New York Times
Tara Parker-Pope
Nola Lopez The New York Times 

Será que uma mudança de dieta pode melhorar as chances de engravidar? "The Fertility Diet" (a dieta da fertilidade), um novo livro de autoria de alguns pesquisadores proeminentes da Escola de Medicina de Harvard, sugere que sim -que entre outras coisas, comer sorvete e reduzir o consumo de carne pode ajudar a aumentar a fertilidade.

O problema é que grande parte da pesquisa por trás do livro não está à altura de sua badalação. "The Fertility Diet" não é o primeiro a promover mudanças nutricionais como forma de aumentar as chances de gravidez; uma pesquisa online revelará uma série de títulos como "The Infertility Diet" (a dieta da infertilidade), "Fertility Foods" (alimentos de fertilidade) e assim por diante.

Basicamente, suas recomendações são semelhantes: uma dieta boa para o coração com mais frutas, verduras e legumes, menos carne e carboidratos ruins, mais gorduras saudáveis e pouca ou nenhuma gordura trans.

Mas apesar das mensagens serem semelhantes, uma grande diferença é que o mais recente livro vem de Harvard. Como resultado, ele conta com uma atenção invejável. A revista "Newsweek" até mesmo dedicou sua capa de 10 de dezembro ao assunto.

A noção de que algo tão simples como uma melhor dieta é capaz de melhorar a fertilidade certamente aumentará as esperanças de dezenas de milhares de casais. Mas infelizmente, as conclusões deste livro não se aplicam à grande maioria das pessoas com problema de infertilidade. Elas sofrem de infertilidade ovulatória, uma condição causada por ovulação irregular que afeta pouco menos de um terço das mulheres inférteis.

E apesar de nunca ser uma idéia ruim melhorar sua nutrição, não há evidência definitiva de que muitas das mudanças na dieta apresentadas no livro aumentarão as chances de uma mulher engravidar.

"É marketing", disse Jamie A. Grifo, um respeitado pesquisador de fertilidade que é diretor do Centro de Fertilidade da Universidade de Nova York. "Há um limite para as conclusões que podem ser tiradas da forma como conduziram o estudo."

As conclusões sobre fertilidade no Estudo de Saúde das Enfermeiras vieram de mais de 18 mil mulheres que tentavam engravidar em um período de oito anos. Mas apesar disto soar muito, apenas cerca de 400 mulheres foram diagnosticadas como tendo infertilidade ligada à ovulação irregular. Assim, muitas das associações entre nutrição e fertilidade expostas no livro são baseadas em um número relativamente pequeno de mulheres.

É importante notar que apesar do estudo ter mostrado fortes associações entre certos hábitos e fertilidade, ele não provou que a dieta é o que fez a diferença para as mulheres. Além disso, foram as próprias mulheres que relataram seus hábitos alimentares e apenas em intervalos de poucos anos. Os críticos notam que a maioria das pessoas não consegue se lembrar do que comeu na noite anterior, muito menos ao longo de alguns anos.

Duas recomendações em "The Fertility Diet" são apoiadas por ciência relativamente sólida. Para uma mulher com ovulação irregular, manter um peso saudável e tomar multivitaminas com ácido fólico pode melhorar as chances de engravidar. Foi mostrado que estar acima ou abaixo do peso refreia a ovulação, porque ambas as condições afetam os níveis hormonais naturais da mulher.

Em um grande estudo de vitaminas e ácido fólico para reduzir a incidência de defeitos no tubo neural em bebês, os pesquisadores notaram uma tendência que não esperavam. As mulheres que tomaram as vitaminas não apenas ficaram mais propensas a conceber, mas também mais propensas a ter gêmeos.

As recomendações de dieta saudável para o coração por trás de "The Fertility Diet" poderiam influenciar a ovulação porque afetam os níveis de insulina. Os níveis de insulina, por sua vez, podem afetar a globulina de ligação do hormônio sexual, que pode afetar a quantidade de andrógeno livre no corpo de uma mulher. Coisas demais podem refrear a ovulação.

O estudo das enfermeiras encontrou associações entre fertilidade e certos comportamentos alimentares, mas não testou se a adoção dos novos hábitos alimentares faz diferença. Walter C. Willett, o pesquisador de nutrição de Harvard que é co-autor do livro, reconheceu as limitações dos dados, mas acrescentou que acredita ser "altamente provável" que a dieta ajude algumas mulheres, dado o que se sabe sobre a influência da dieta sobre outras funções do corpo como a pressão sangüínea.

"Os princípios por trás são compatíveis com boa saúde e prevenção de algumas das complicações da gravidez", ele disse. "De qualquer forma, esta é uma boa estratégia alimentar. Será claramente uma abordagem mais segura, mais modesta à fertilidade do que adotar imediatamente uma medicação pesada."

A recomendação mais fraca em "The Fertility Diet" é a noção de que sorvete e laticínios integrais aumentam a fertilidade. Mesmo os autores do estudo notam no livro que seria um "exagero" dizer que há sequer um "punhado" de estudos sobre o assunto.

Para seu crédito, os autores do livro reconhecem desde o início as limitações da pesquisa e que sua dieta não garante uma gravidez. Jorge E. Chavarro, o principal autor, disse que foi um desafio equilibrar as limitações da pesquisa científica com as exigências comerciais da publicação do livro. Até mesmo o mero título do livro, ele acrescentou, esconde a complexidade dos resultados.

"Eu descreveria como uma dieta que aparentemente aumenta a fertilidade, mas não é um título fluente", ele disse. "Não se trata da cura para a infertilidade. Nós fomos cuidadosos em explicar o que pensamos que estas mudanças podem fazer e o que não podem." George El Khouri Andolfato

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