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19/12/2007

Em Marselha, o rap ajuda a manter a paz

The New York Times
Michael Kimmelman
Em Marselha
Um dia desses, cerca de uma dezena de rappers usando calças jeans baggy e hoodies reuniram-se em frente a um centro comunitário de arte chamado Le Mille-Patte, em Noailles, um bairro pobre de imigrantes em Marselha, perto do Porto Velho da cidade.

Um dos artistas mais bem-sucedidos do hip-hop de Marselha, M'Roumbaba Said, que se auto-apelidou de Soprano, escreveu recentemente a letra de um rap chamado "Anônimo Melancólico": "Não consigo deixar de expressar/ Os meus sentimentos/ A minha melancolia/ Na minha melodia", diz o rap. "Sou capaz de rir/ Da minha tristeza/Isso ajuda/Com certeza".

Quando os guetos nas periferias de Paris, Lyon, Toulouse e Strasbourg explodiram no mês passado, repetindo a violência que irrompeu dois anos atrás, Marselha, a segunda maior cidade da França, manteve-se calma. Em julho, em um dos bairros mais pobres do norte da cidade, um adolescente de 14 anos chamado Nelson Lobry-Gazelle foi morto por um carro de polícia. Cerca de 400 pessoas fizeram manifestações pacíficas, de forma que o incidente mal chegou a ser manchete. Mas foi um incidente parecido, no qual um carro de polícia matou dois adolescentes em Villiers-le-Bel, um subúrbio pobre que fica cerca de 16 quilômetros ao norte de Paris, que gerou a confusão que se espalhou pela França em novembro. Já aqui, o incêndio proposital de um ônibus ocorrido em outubro de 2006 foi considerado um incidente isolado, e não chegou a gerar uma reação em cadeia.

Helen Margaret Giovanello/The New York Times 
Os integrantes do PSY4 de la Rime: Segnor Alonzo (esq.), DJ Sya Styles (c) e Don Vincenzo

Os moradores de Marselha têm diversas explicações para tal diferença, além da mais óbvia, que é o fato de as áreas pobres daqui não estarem segregadas nos entornos das cidades, como ocorre em Paris. Mas foi o hip-hop, uma fonte de orgulho tão intensa quanto o time de futebol local, que revelou-se a lente através da qual é possível examinar por que esta cidade não ardeu.

Melancolia é freqüentemente a palavra utilizada para descrever o estilo de rap local: a melancolia como um estado mental reflexivo. Contrastando com o cenário de sol e mar da cidade, a melancolia na verdade condiz bastante com a cultura local. Jean-Claude Izzo, um escritor de Marselha que morreu alguns anos atrás, ficou famoso na França por escrever histórias pessimistas de detetives. Robert Guediguian, também de Marselha, é um cineasta cuja reputação baseia-se em filmes sombrios.

Os rappers de Marselha, ou pelo menos os mais originais e notáveis, compõem odes tristes aos bairros e hinos à toda esta cidade que é um universo de mistura racial. O som do hip-hop de Paris, mais malandro e agressivo, adota muito do rap norte-americanos de gangues, como também faz o rap marselhês, mas o de Marselha se gaba de um estilo mais refinado. Ele traz uma mistura de blues, flamenco e ragga jamaicano.

O estilo que cerca de uma década atrás ajudou a colocar o IAM, o grupo marselhês, na lista dos grupos mais ouvidos na França, toma emprestado elementos de George Benson para criar uma batida melodiosa. "Colapso de Belsunce", que fala sobre um dos bairros do centro da cidade, feito por Bouga, um rapper de Marselha, começa com um refrão hipnótico de piano, com um sincopado jazzístico - meio que uma mistura de Steve Reich e 50 Cent.

Aqui a interconexão básica de toda a música moderna expressa-se como uma verdade local sobre a identidade cultural da cidade. Uma cidade calcada em um porto antigo e arenoso, Marselha tem uma história que é a aquela de um verdadeiro pólo de atração para imigrantes. A sua população de 820 mil habitantes inclui 200 mil muçulmanos, 80 mil judeus do norte da África e 80 mil armênios. Um dos maiores grupos de imigrantes é composto de muçulmanos das Ilhas Comoro, perto de Madagascar. Três dos quatro músicos da PSY4 de la Rime, a banda de Soprano, são comorianos que cresceram na zona norte de Marselha, onde Lobry-Gazelle morreu. O quarto integrante da banda, DJ Sya Styles (de ascendência marroquina, e cujo nome verdadeiro é Rachid Ait Baar), assim como vários adolescentes de Le Mille-Patte, vem de Noailles.

As letras dos raps de Marselha podem ser repletas de raiva, mas não são violentas como as músicas de certas bandas parisienses. Dois anos atrás, 152 conservadores no parlamento francês resolveram processar sete grupos de rap - o mais notável é que nenhum rapper de Marselha foi incluído na lista - por promoverem ódio e racismo contra os brancos, e por aquilo que um político chamou de "sentimentos antifranceses".

Já o PSY4 escreveu não faz muito tempo um rap chamado "Justicier": "Sei que nem todo policial é tão cheio de maldade/Mas por que vocês sempre pedem a minha identidade?/Com a minha música/Respondo à sua violência/Não dá para dialogarmos com decência?".

Na noite seguinte o PSY4 foi gravar em um estúdio em Grottes Loubieres, a nordeste da cidade. Durante um intervalo os membros da banda falaram sobre como aqui os rappers ajudam uns aos outros, e como o sucesso não se deve à obtenção de contratos com as gravadoras, mas à conquista de respeito bem embasado.

"Aqui, ao contrário do que ocorre em Paris, o rap não é um negócio", explica DJ Sya Styles. "Não é como Paris, onde os subúrbios são feitos apenas de concreto. Aqui você precisa provar o seu valor nos bairros".

Stephane Gallard explica de outra forma: "Paris é mais militante". Ele é o jovem quieto e tranqüilo encarregado da programação musical da Radio Grenouille, que não tem fins lucrativos, e que é a mais popular estação de hip-hop da cidade. "O fato de os artistas do hip-hop venderem as suas músicas nos seus próprios quarteirões contribui para que eles se identifiquem com Marselha, e isso explica porque aqui não se incendeiam carros", diz ele. "As diferentes comunidades de Marselha ainda estão bem separadas, aqui existe racismo, mas esta é uma cidade na qual quem desejar está livre para se movimentar entre as comunidades".

Os rappers marselheses refletem a tradição dos "pays", ou comunidades locais, às quais os seus moradores são mais leais do que à França. Ao mesmo tempo, este é um local que se orgulha da sua antiga herança mafiosa corsa e franco-italiana (uma popular loja de vestuários do centro da cidade foi batizada com o nome de um famoso chefão), e a preponderância de traficantes de droga e de gangues de norte-africanos explica em parte por que existe uma calma relativa nas áreas destituídas: a calma é mantida para o bem dos negócios realizados por esses grupos.

O desemprego é de quase 40% nessas partes da cidade na faixa etária de 18 a 35 anos; sendo de 13% na cidade como um todo, o que está bem acima do índice nacional de 8%. Assim, as oportunidades de emprego (ou a ausência delas) por si só não explicam a ausência de violência urbana recente.

Algo que ajuda é um velho sistema de apoio cívico a aliados, em estilo mediterrâneo, que distribui favores para conquistar lealdade e manter a paz. E, como todos dizem, ao contrário de Paris, onde o imigrante pobre ocupa grandes blocos de concreto isolados do centro da cidade, Marselha tem os seus bairros, como Noailles, encaixados na região central, enquanto os bairros espremidos do norte estão ligados ao centro por um sistema barato de transporte público e continuam dentro dos limites da cidade. Assim, os moradores sentem que pertencem a Marselha, porque isso é de fato o que acontece, e, por outro lado, sentem também que Marselha lhes pertence.

Dessas comunidades, nas quais os músicos contam com a sua própria versão do sistema de clientelismo, emergiu o cenário do hip-hop - além do PSY4 de la Rime, o IAM e o Bouga, outros grupos, como o Keny Arkana, o FAF Larage, o Fonky Family, o DJ Rebel e o Prodige Namor, fazem muito sucesso por aqui.

"O rap de Marselha nunca integrou a violência como aconteceu em Paris", disse-me Philippe Fragione. Ele é Akhenaton, o líder do IAM.

Assim como outros músicos mais velhos daqui, Akhenaton apóia os rappers mais novos de Marselha. Foi o seu estúdio em Grottes Loubieres que o PSY4 estava usando. "O rap marselhês é mais 'socialmente consciente'. Isso ocorre porque existe aqui um senso real de comunidade".

Parei no escritório à beira-mar de Paul Colombani, o vice-diretor do programa de retomada de desenvolvimento Euromediterranee. Com mais de US$ 5 bilhões em investimentos públicos e privados, o objetivo do projeto é, até 2012, transformar cerca de quatro quilômetros quadrados do centro da cidade em prédios de escritórios, apartamentos para diversos níveis de renda, museus e esplanadas. Zaha Hadid, Jean Nouvel e outros arquitetos famosos participam da iniciativa. Em frente à janela panorâmica do escritório, o Danielle Casanova, um enorme ferry-boat branco, aguardava os passageiros com destino à Argélia. Os passageiros que retornam freqüentemente trazem mercadorias falsificadas que são vendidas por camelôs nas calçadas. "Les jeunes errants", como são chamadas as crianças de rua, algumas de apenas 12 anos de idade, escondem-se em barcos, e seguem para Noailles quando estes atracam. Algumas tornaram-se aspirantes a rappers por meio de centros comunitários culturais como o Le Mille-Patte.

Colombani notou o meu olhar. "Isso será removido desta área", disse ele, referindo-se ao ferry-boat. Ele quer dizer que barcos desse tipo atracarão em L'Estaque, bem mais ao norte. "É mais fácil para a alfândega", explicou Colombani. No lugar dos ferry-boats, navios de cruzeiro passarão a atracar aqui.

Não há dúvida que Marselha pode usar esse dinheiro, mas não às custas de acabar com a química social que vem mantendo a paz e promovendo, entre outras coisas, a vida musical da cidade. No Le Mille-Patte, os cerca de doze jovens rappers em frente ao prédio se constituem em uma típica mistura marselhesa: representantes de primeira, segunda e terceira gerações de imigrantes da Argélia, do Marrocos, das Ilhas Comoro, da Europa Oriental e da Argentina.

Habib é um rapaz magro de 18 anos com uma face triste. Ele integra a banda Revolução Urbana. "Todos nos entendemos porque compartilhamos o gosto pela música", explica Habib. O Mille-Patte o encorajou a abraçar o rap pela primeira vez quando ela era garoto: "Não sabia o que fazer em relação aos meus pais, de forma que este local foi muito importante para mim".

Bacariane, um rapper um pouco mais velho, que usa um boné dos New York Yankees com a aba caída sobre os olhos, acrescentou: "Este é um bairro barra pesada, mas aqui não existe violência sem motivo, como ocorre em Paris. Morei lá por algum tempo", diz ele, referindo-se aos subúrbios isolados no entorno da capital francesa. Ele faz uma pausa para refletir sobre as diferenças entre Paris e Marselha. "Aqui existe uma cultura de respeito. Somos todos marselheses", conclui Bariane. UOL

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