UOL Notícias Internacional
 

21/12/2007

Ásia Central na linha de frente na batalha por energia

The New York Times
Andrew A. Kramer
Em Bukhara, Uzbequistão
No deserto desta antiga cidade do Caminho da Seda, os poços de gás natural são construídos em plataformas modestas de concreto do tamanho de quadras de basquete. Como o gás é naturalmente pressurizado, não são necessárias bombas para trazê-lo à superfície. Os canos simplesmente beijam a terra, e o gás jorra por eles.

A questão é aonde o gás vai a partir daí.

Depois do desdobramento da União Soviética, os Estados Unidos e seus aliados europeus procuraram garantir que a enorme riqueza em petróleo e gás da Ásia Central fluiria por dutos que não dependessem da Rússia. Foi a mais recente versão do Grande Jogo, a competição do século 19 entre o império britânico e a Rússia czarista pelo domínio da região. O Ocidente, entretanto, está ficando para trás, como ficou claro em uma cerimônia com a tocha em novembro.

Executivos da Lukoil, empresa de petróleo russa, e membros do governo de Moscou tinham vindo inaugurar o mais recente campo de gás da Ásia Central. Desenvolvido pela Lukoil, estima-se que o campo Khauzak tenha 400 bilhões de metros cúbicos de gás natural, que a Lukoil vendeu para os próximos 32 anos para a Gazprom, gigante de gás natural russa.

ENERGIA DA ÁSIA CENTRAL
Denis Sinyakov/Reuters
 
RÚSSIA FECHA ACORDO
A cerimônia de 29 de novembro -com jornalistas trazidos de Moscou especialmente para a ocasião- parecia feita sob medida para lembrar ao mundo da liderança russa no Grande Jogo, apesar de alguns desdobramentos políticos na região terem renovado as esperanças das empresas ocidentais.

"Temos agora um bom início e vamos usá-lo", disse o vice-primeiro-ministro da Rússia, Sergei B. Ivanov, de um pódio improvisado acima das areias vermelhas do deserto de Kyzylkum.

O governo Bush tinha identificado a Ásia Central como uma alternativa promissora ao volátil Oriente Médio como fonte de petróleo e gás natural. Enquanto as autoridades americanas estimulam exportações de energia que ultrapassem a Rússia, elas também estão tentando abrir a Ásia Central ao investimento ocidental em petróleo.

A Rússia está reagindo aumentando seu investimento nos campos e dutos da Ásia Central.

Muito está em jogo. A Rússia é a maior produtora de gás natural do mundo e importante fornecedora da Europa. Ela depende do fornecimento da Ásia Central para cumprir seus compromissos.

"Os russos vão defender seu canto na Ásia Central", disse Jonathan Stern, especialista em gás natural do Instituto Oxford de Estudos de Energia, em entrevista telefônica. "Os russos não estão apenas se aproximando" dos líderes autocratas da Ásia Central para atingir seus alvos, disse Stern. "As empresas russas estão cumprindo suas promessas de investimento."

Abarrotados de dinheiro da expansão de petróleo, os russos estão investindo pesadamente em novos desenvolvimentos, impondo um desafio às empresas ocidentais como ExxonMobil, Chevron e Conoco Phillips, que estão ansiosas em expandir suas operações na Ásia Central.

Depois de um investimento de US$ 3,5 bilhões (em torno de R$ 7 bilhões), o projeto da Lukoil vai associar três grandes campos de gás natural e gás condensado até 2011 para produzir 11 bilhões de metros cúbicos de gás natural por ano para exportação.

Nos três anos desde que a Lukoil assinou o acordo de compartilhar a produção com o governo uzbeque para Khauzak, a política uzbeque virou fortemente em favor da Rússia, deixando de fora do Uzbequistão as principais empresas ocidentais.

Em maio de 2005, as tropas do presidente Islam A. Karimov abriram fogo contra uma multidão de prisioneiros fugitivos, atiradores e manifestantes em uma praça na cidade de Andijon, no Vale Fergana, matando centenas no que grupos de direitos humanos dizem que foi o pior massacre de manifestantes de rua desde a praça Tiananmen da China em 1989.

O episódio levou a profundas tensões nas relações diplomáticas com os EUA. Mesmo antes do tiroteio, grupos de direitos humanos acusavam as autoridades uzbeques de abusos, incluindo dois incidentes nos quais prisioneiros políticos teriam sido fervidos até a morte em uma prisão uzbeque. As perspectivas de um papel ocidental na indústria de gás natural do país se esvaziaram.

Em contraste, o presidente Vladimir V. Putin, da Rússia, visitou Karimov no Uzbequistão após os tiros de Andijon e endossou sua justificativa.

Em 2006, a Lukoil expandiu sua presença aqui em um consórcio com a China National Petroleum Corp., Petronas da Malásia e a Korea National Oil Co. para explorar o depósito de gás natural abaixo da camada seca do Mar de Aral, estimado em mais de 1 trilhão de metros cúbicos de gás.

E no vizinho Turcomenistão, Putin garantiu um acordo em maio para expandir as exportações de gás natural via um ramo do gasoduto da Ásia Central que corre pela costa leste do Mar Cáspio, ao norte para a Rússia. Foi o mais significativo acordo de energia naquele país neste ano. E, neste verão, equipes da China, outro país ascendente na Ásia Central, começaram a exploração para gás na margem oeste do rio Amu Darya, de acordo com Stern.

Nos anos 90, as empresas européias e americanas fizeram grandes avanços no Cazaquistão -que emergiu como principal força comercial na Ásia Central. O principal desses ganhos foi o Kashagan, a maior descoberta de petróleo no mundo desde a baía de Prudhoe, no Alasca. Mas o acordo foi prejudicado por brigas, com as autoridades cazaques forçando uma renegociação de termos com parceiros do consórcio Eni da Itália, ExxonMobil e Conoco Phillips dos EUA, Royal Dutch Shell e Inpex Holdings do Japão.

O Cazaquistão também voltou sua atenção para o Oriente, planejando um gasoduto pelas montanhas de Tian Shan para a província vizinha de Xinjian, esnobando as empresas e governos americanos e europeus. O Ocidente apóia uma rota ocidental sob o mar Cáspio, via Azerbaijão, Geórgia e Turquia para os mercados mundiais -passando os dutos pelo estreito corredor entre a Rússia e o Irã para entrar nos campos de gás e petróleo da Ásia Central.

O gasoduto BTC da BP e um gasoduto paralelo atualmente param no Azerbaijão e na costa oeste do mar Cáspio, e o grande projeto parece estar parado ali por enquanto.

O próximo passo é construir o braço trans-cáspio, que a Rússia está bloqueando com uma combinação de estratégia política e empresarial. Os russos estão comprando grande parte da produção de gás natural para tornar o plano ocidental comercialmente inviável pela falta de gás disponível. Com a ajuda do Irã, eles também estão contestando o status legal do mar Cáspio que os dutos de petróleo e gás atravessariam.

Moscou também está oferecendo garantias de apoio aos potentados da Ásia Central, caso ocorra um levante doméstico ao estilo ucraniano, levando a uma mudança no governo, algo que os EUA e a Europa não podem fazer.

Em um sinal encorajador para as grandes empresas ocidentais, a morte na última primavera do antigo líder do Turcomenistão Saparmurat Niyazov levou um derretimento político modesto e a expectativas de novas concessões de petróleo e gás. Durante o governo de Niyazov, que deu a si mesmo o nome de Turkmenbashi, ou Pai dos turcomanos, e que tinha encomendado estátuas douradas dele mesmo, o Turcomenistão tinha abandonado as empresas de petróleo ocidentais.

Então, não foi surpresa que as empresas ocidentais apressaram-se em promover a Conferência de Petróleo e Gás do Turcomenistão em Ashgabat, em novembro; Chevron, Conoco Phillips, Baker Hughes, Schlumberger e Statoil estavam entre os patrocinadores, apesar de nenhum acordo ter sido assinado.

Compartilhando a animação, o secretário de energia dos EUA, Samuel Bodman, fez um discurso no dia 15 de novembro observando que "estão se abrindo oportunidades que não seriam imagináveis até um ano atrás", de acordo com o Departamento de Energia.

Ainda assim, como disse Bodman, a centenas de quilômetros de distância, pelo deserto Kyzylkum no Uzbequistão, engenheiros russos estavam soldando os últimos dutos no campo de Lukoil. Na cerimônia de abertura do dia 29 de novembro, os dutos brilhavam com tinta fresca e ressoavam com gás natural fluindo ao norte, para a Rússia. Deborah Weinberg

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