UOL Notícias Internacional
 

21/12/2007

Refugiados voltam para casa e encontram Iraque despreparado

The New York Times
Cara Buckley

Em Bagdá
Maha Hashim, uma viúva, cruzou a fronteira da Síria para o Iraque ao entardecer no mês passado, voltando para casa enquanto o Sol se punha às suas costas e o céu à sua frente escurecia.

Suas economias quase esgotadas lhe permitiram comprar uma passagem para sua família a bordo de um ônibus lotado, mas ela não tinha como saber o que lhe aguardava ao final da jornada. A única coisa certa é que ela teria que procurar por um novo lar e emprego em uma cidade onde falta trabalho e que foi rudemente remodelada pela guerra.

Quatro semanas depois, Hashim está dividindo o apartamento bolorento de dois quartos de seu tio com seus quatro filhos, cunhada e quatro sobrinhas e sobrinhos, no antes torturado bairro ao redor da Rua Haifa, em Bagdá. O marido dela, um policial, foi morto a tiros por rebeldes em meados de 2006 e sua antiga casa no sul de Bagdá foi destruída por um caminhão-bomba. O antigo bairro dela, Saydia, continua sendo um dos mais perigosos na capital.

Joao Silva/The New York Times 
Parentes de Afraah Kadhom em um parque de Bagdá em dezembro

"Eu adorava Saydia mas nunca poderei voltar, ele partiu meu coração", disse Hashim, 40 anos, uma sunita. "Eu preciso conseguir um emprego e um lar, mas como, e onde?"

Dezenas de milhares de refugiados que estão retornando enfrentam incertezas semelhantes por todo o Iraque, onde a incapacidade do governo de administrar o êxodo reverso desigual deixou os mais vulneráveis em um limbo desconfortável, potencialmente explosivo.

O plano amplamente divulgado do governo de oferecer ônibus gratuitos de Damasco, Síria, para Bagdá foi suspenso após apenas duas viagens. Milhares de refugiados sunitas não recebem ajuda por temerem se registrar junto a um governo liderado pelos xiitas. Apesar de organizações de ajuda estarem distribuindo pacotes de emergência que incluem utensílios, cobertores e alimentos, questões estruturais mais profundas, como a segurança nos bairros, a oferta de moradias e a criação de empregos, continuam não resolvidas e basicamente não tratadas.

Uma pequena fração dos milhões de refugiados que fugiram do Iraque voltou. Apesar do governo ter proclamado a volta deles como prova de uma maior segurança, especialistas em migração disseram que a maioria deles foi forçada a voltar devido à expiração de seus vistos e esgotamento de suas economias. Hashim, por exemplo, penhorou seu anel de casamento e jóias de ouro para permanecer na Síria, mas voltou depois que o pedido de visto de seu tio foi rejeitado.

As forças armadas americanas expressaram profunda preocupação com a capacidade do governo iraquiano de alimentar e abrigar os iraquianos que estão retornando, ou de lidar com as pessoas que desejam retomar suas casas. Teme-se que as disputas de propriedade ou os esforços para voltar aos bairros recém-homogeneizados possa provocar novas ondas de ataques sectários.

Para a maioria dos refugiados iraquianos, a viagem para casa é apenas o início de seus problemas. Muitos retornam e encontram suas casas destruídas ou ocupadas por invasores, a maioria deles pessoas também deslocadas. Mas o comitê do governo que cuida das disputas de propriedade é acusado de ouvir apenas os casos anteriores à invasão de 2003.

"Nós precisamos urgentemente de um plano, e todo o governo precisa estar envolvido", disse Hamdiya A. Najaf, a vice-ministra iraquiana de Deslocamento e Migração. O ministério dela está sobrecarregado de casos de disputa de propriedade da época de Saddam Hussein, quando milhares foram relocados à força. "Nós ainda estamos resolvendo os velhos problemas", ela disse. "Nós não temos condição de resolver os novos."

A crescente crise de habitação se estende a milhões que abandonaram suas casas mas permaneceram no Iraque. Apenas em Bagdá, mais de 300 mil pessoas fugiram de um bairro para outro, enquanto os sunitas fugiam para oeste e o xiitas para o leste, freqüentemente se mudando para as casas recém-evacuadas.

A família de Afraah Kadhom está entre os desabrigados. Ela tem 36 anos e costuma estar envolta em uma túnica preta, um símbolo de luto. O pai dela e quatro irmãos foram mortos há dois anos, quando homens armados arrombaram as portas da casa da família em Huriya, um bairro na região centro-norte de Bagdá, e mataram metodicamente os homens. Um dos filhos de seu irmão, Mustafa, apoiou a cabeça de seu pai em seus braços enquanto o homem morria. Mustafa, que atualmente tem 9 anos e é tímido, é o membro do sexo masculino sobrevivente mais velho da família. "O homem da nossa casa", disse Kadhom.

A família permaneceu em Huriya até dezembro do ano passado, quando milicianos xiitas armados realizaram uma varredura e expulsaram mais de 100 famílias sunitas, incluindo a de Kadhom. Ela e seus parente fugiram para Ghazaliya, no oeste de Bagdá, onde um imã encontrou para eles um apartamento que pertencia a uma família xiita que partiu para o leste de Bagdá.

O governo tem programas de ajuda que poderiam ajudar Kadhom, mas ela os vê com suspeita. Para se inscrever no programa alimentar, por exemplo, ela teria que voltar para Huriya para cancelar o registro da família junto ao conselho local, mas ela tem medo de ir até lá.

Os deslocados internos do Iraque têm direito a 150 mil dinares, ou US$ 123, em ajuda do governo por mês. Mas Kadhom também teme que o governo dominado pelos xiitas de alguma forma a puna por se inscrever. O orgulho dela também pesa. O pai de Kadhom era um xeque. A família estava acostumada a dar caridade, não recebê-la.

Se os proprietários do apartamento voltarem, a família de Kadhom não terá para onde ir. Três semanas depois que a família fugiu, a casa dela foi destruída por uma bomba e os escombros removidos.

"Os xiitas que se mudaram para as casas próximas de nossa propriedade em Huriya nos matariam se voltássemos", ela disse.

A situação da moradia em Bagdá lembra o jogo musical das cadeiras. Alguns dos deslocados estão alugando casas de refugiados; outros se mudaram em segredo ou à força. Outros, como Kadhom e Hashim, não têm para onde voltar, seja porque seus lares não mais existem ou por seus bairros não serem seguros. E à medida que os refugiados retornam em números cada vez maiores e encontram estranhos, especialmente estranhos de outra seita, vivendo em suas casas, os ganhos na segurança podem ser eliminados.

"Se essas pessoas se desesperarem, nós poderemos voltar para a estaca zero", disse o dr. Said Hakki, diretor da Sociedade Crescente Vermelho Iraquiana. "O governo iraquiano está ciente disso, assim como o gabinete do general Petraeus", ele disse, se referindo ao general David H. Petraeus, o líder das forças militares americanas no Iraque.

Mas as forças americanas daqui enfatizaram repetidas vezes que não querem se envolver em disputas de propriedade, e o governo iraquiano parece estar ignorando os pedidos de suas próprias fileiras para aumentar os processos para resolvê-las.

Najaf, a vice-ministra de migração, disse que está pedindo aos ministros do governo pela criação de um plano de emergência para reconstrução de casas e para lidar com as disputas de propriedade. Ela acredita que apenas o primeiro-ministro, Nouri Kamal al-Maliki, conta com poder para elaborar uma solução. Mas ela está tendo dificuldade para falar com ele até mesmo por telefone.

"Os iraquianos podem ser nervosos por natureza, se agitarem facilmente", disse Najaf. "Se virem outra pessoa em suas casas, quem sabe o que poderia acontecer a seguir. Todos os iraquianos possuem armas."

Os tribunais locais oferecem o único meio oficial para resolver as disputas de propriedade mais recentes. Mas funcionários de migração disseram que estão saturados de processos e avançando em um ritmo glacial, além de que suas eventuais decisões raramente são cumpridas. A responsabilidade pela solução das disputas de propriedade, as poucas que são tratadas, freqüentemente fica aos cuidados de membros dos conselhos municipais e dos xeques tribais.

Dhia'a al-Dien, um engenheiro de 42 anos com o rosto com sulcos profundos de preocupação, lidera o conselho local na área da Rua Haifa onde Hashim e sua família agora vivem. A Rua Haifa costumava ser um dos locais mais turbulentos em Bagdá, e sua classe média fugiu à medida que aumentavam os seqüestros e os assassinatos na rua ao estilo execução.

Quando invasores ocuparam alguns dos apartamentos, Al-Dien disse que se sentiu impotente para impedi-los. "Eles foram deslocados de outros bairros", ele disse. "Eu senti pena de alguns deles, outros tinham armas. Era um caos."

Al-Dien disse que conseguiu negociar o retorno para um punhado de proprietários que reclamaram seus imóveis. Alguns dos invasores partiram, outros concordaram em pagar aluguel. Mas ainda resta o retorno de centenas de proprietários, e ele teme se ver atolado no meio quando voltarem.

"Não há ninguém nos ajudando a negociar o retorno", ele disse, balançando a cabeça. "Os americanos nos dizem que temos que negociar uns com os outros, porque não é assunto deles. Mas o governo iraquiano disse que também não é da sua conta."

* Mudhafer al-Husaini, Qais Mizher e Balen Y. Younis contribuíram com reportagem. George El Khouri Andolfato

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