UOL Notícias Internacional
 

22/12/2007

De helicóptero ou Hummer, político queniano fascina eleitores

The New York Times
Jeffrey Gettleman
Em Suswa, Quênia
Ao som das hélices dos helicópteros, mil integrantes da tribo Masai olham para cima. É como se o salvador deles estivesse descendo do céu.

"Railaaaaaaaaaaaaaaa", gritam eles.

Os masais correm desenfreadamente, gritando e apontando os seus bastões de madeira nodosos para o ar.

Uma enorme nuvem de poeira engole o helicóptero quando este aterrissa. Do aparelho sai Raila Odinga, um dos políticos mais exibicionistas do Quênia, um homem que quando não está voando sobre as savanas em um helicóptero está circulando em um veículo Hummer vermelho. Ele adora usar ternos púrpuras, o seu filho chama-se Fidel Castro e muitos vêem nele o próximo presidente do Quênia.

Evelyn Hockstein/The New York Times 
O candidato a presidente do Quênia, Raila Odinga, faz comício em Suswa

A eleição é na quinta-feira, e durante meses as pesquisas prevêem que Odinga, 62, tomará o lugar de Mwai Kibaki, embora algumas pesquisas recentes indiquem que o presidente está reduzindo a diferença nas intenções de votos, e que a disputa está muito acirrada para se apontar um favorito.

Kibaki, 76, faz parte da velha guarda. Ele é um integrante da tribo dominante do Quênia, os kikuyus, e é membro do parlamento desde a independência do país em 1963, sendo ainda um amigo de confiança das grandes empresas e dos Estados Unidos (a sua propaganda de campanha tem as cores vermelho, branco e azul).

Odinga parece ser diferente. Ele é um luo, uma das maiores tribos do país à qual, segundo muitos quenianos, nunca foi dada a sua parcela devida do poder. Embora o Quênia seja uma das democracias mais maduras na África, muitos quenianos ainda votam estritamente de acordo com linhas tribais.

Os 37 milhões de habitantes do Quênia estão divididos em 40 grupos étnicos distintos. E, ao contrário de muitos políticos que preferem não reconhecer a existência de tensões tribais, Odinga está enfrentando esse problema de frente, e fez da inclusão e do fim da discriminação propostas fundamentais da sua campanha. "A etnia é a doença da elite", afirma ele, acrescentando que no decorrer da história do Quênia, o dinheiro, a terra e as oportunidades foram divididas de forma desigual, segundo critérios tribais.

Mas Odinga não é exatamente um membro da classe trabalhadora. O seu pai foi um dos primeiros liberais ricos do Quênia. Um empresário e ex-vice-presidente que, apesar da sua grande riqueza e incontáveis imóveis, abraçava os valores socialistas. Os Odinga tinham nitidamente uma atração pelo bloco oriental, e quando chegou à idade de ir para a universidade, o jovem Raila foi enviado para a Alemanha Oriental, onde formou-se em engenharia mecânica. "Sabe como é, na década de 60, naquela época de imperialismo, quando os norte-americanos estavam no Vietnã e no Camboja, ser esquerdista era moda". Ele foi até ponta-esquerda no futebol.

Depois que Odinga voltou ao Quênia, ele tornou-se uma liderança da oposição, quando isso era algo incrivelmente perigoso. Em 1982, ele foi acusado de tramar um golpe contra o então presidente Daniel Arap Moi, e passou oito anos na prisão, onde foi espancado e torturado.

Desde então, a sua política marxista suavizou-se, embora ele ainda tenha um discurso proletário. Odinga promete concentrar-se nos problemas da pobreza, do desemprego e da corrupção.

A grande questão é saber se, caso ele ganhe, até que ponto o Quênia mudará. A economia anda bem, com um índice de crescimento de cerca de 7% e uma indústria turística de um bilhão de dólares. E existe paz, o que não é pouca coisa em uma região que tem países devastados pela guerra como a Somália, o Sudão e o Congo.

Macharia Gaitho, um editor do "The Daily Nation", o maior jornal queniano, não acredita que Odinga atrapalhe essa estabilidade. "Vejo uma figura do tipo Jekyll e Hyde", diz Gaitho. "Ele pode se apresentar como um líder populista para responder às massas. Mas em outro nível ele é muito pragmático. Odinga é um empresário que tem ligações com todas as linhas étnicas". Mas alguns eleitores, especialmente da tribo kikuyu, alegam que Odinga ao mesmo tempo se beneficia do tribalismo e ataca esse fenômeno queniano.

"Mesmo que Kibaki pudesse melhorar o estado da economia em 80%, pode acreditar que o povo da tribo de Raila não votaria nele devido aos laços tribais", afirma Andrew Macharia, candidato a vereador. "É muito triste o fato de a nossa política se basear nos laços tribais".

O círculo interno de poder do presidente acusou Odinga de fazer promessas que é incapaz de cumprir. Amos Kimunya, o ministro das Finanças, desprezou os planos econômicos de Odinga, chamando-os de "domonomia", um jogo de palavras em suaíli que significa algo como "economia de conversa". "As propostas de Odinga fariam com que a dívida disparasse, e as taxas de juros e a inflação subissem bastante", escreveu Kimunya em um recente artigo de opinião.

A disputa acirrada entre Odinga e Kibaki demonstra o quanto a democracia avançou no Quênia em apenas uma década. Há cerca de dez anos quem ocupava o poder era Moi, que foi muito criticado como ditador, e que agora está fazendo campanha para Kibaki.

Atualmente a imprensa é livre, 2.548 candidatos concorrem ao parlamento e existem questões legítimas que diferenciam os principais partidos, como o governo central forte versus o federalismo. A política eleitoral daqui não está repleta do cinismo profundo que caracteriza o cenário político da Nigéria, a democracia mais populosa da África, ou o regime de partido único da África do Sul, o país mais desenvolvido do continente.

Odinga, que nos últimos 15 anos ocupa uma cadeira no parlamento, aproveitou integralmente o sistema aberto do Quênia e usou o seu talento para dirigir-se às massas para atrair milhões de quenianos que sentem-se marginalizados pela elite kikuyu. Ele também atraiu diversos muçulmanos revoltados com a repressão promovida pelo governo Kibaki contra áreas muçulmanas, como parte da sua campanha antiterrorista.

"A melhor forma de explicar isto não é determinando quem é popular, mas quem é impopular", afirma Chweya Ludeki, um professor de ciência política da Universidade de Nairóbi. "Raila capitaliza a impopularidade de Kibaki e a percepção de que o presidente favoreceu o seu grupo étnico".

Embora o gabinete inclua membros de diversas tribos, os ministérios que têm importância - como Defesa, Justiça, Finanças e Segurança Interna - são todos controlados pelos kikuyus. A resposta do governo tem sido contratar as pessoas mais qualificadas.

Vários partidários de Odinga temem que esses políticos possam tentar fraudar a eleição. A própria comissão de direitos humanos do governo já acusou o partido de Kibaki de usar recursos públicos, como aviões e automóveis do governo, para fazer campanha eleitoral.

Não faltaram também alguns golpes baixos. Até mesmo o prepúcio de Odinga virou assunto de campanha. A circuncisão é um rito de passagem em várias tribos, incluindo a kikuyu, mas não na luo. Se um homem não for circuncidado, ele não é considerado um homem de verdade.

Mesmo assim, Odinga atrai milhares de simpatizantes para os seus comícios.

"Estradas! Eletricidade! Água!", grita Odinga.

A multidão responde com um rugido de empolgação. O povo forma uma grande massa de cor alaranjada - chapéus laranjas, camisetas laranjas, sacolas de supermercado laranjas, e até shukas laranjas (shukas são as túnicas características usadas pelos masai). O laranja é a cor oficial do partido de Odinga, o Movimento Democrático Laranja, e Nalanju Punyua, uma mulher que vende refrigerantes, afirma que Odinga fica fabuloso usando esta cor.

"Raila é simplesmente lindo", diz ela. "É um homem muito forte. Ele poderia andar daqui até Narok". UOL

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