UOL Notícias Internacional
 

22/12/2007

Indiciamentos expõe trama no caso da maleta cheia de dinheiro

The New York Times
Alexei Barrionuevo

Em Miami
Um grande júri federal daqui indiciou quatro venezuelanos e um uruguaio na quinta-feira por atuarem ilegalmente como agentes do governo venezuelano cuja missão era o acobertamento de um esquema para entregar uma maleta com US$ 800 mil em dinheiro para a campanha da nova presidente da Argentina.

O caso da maleta com os US$ 800 mil parecia um romance de espionagem desde que foi revelado pelo gabinete da promotoria daqui, na semana passada.

Os investigadores federais alegam que os empresários venezuelanos e um emissário do serviço de inteligência da Venezuela usaram uma série de táticas para tentar impedir que um empresário de Miami, Guido Antonini Wilson, revelasse que o dinheiro que ele levava para a Argentina tinha sido enviado pelo governo do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, para os cofres de campanha da agora eleita presidente da Argentina, Cristina Fernández de Kirchner.

Os investigadores disseram que tais táticas incluíram um suborno de US$ 2 milhões, ofertas de falsificação de documentos e ameaças diretas contra a família de Antonini Wilson.

Além da intriga, a investigação americana irritou os líderes na América Latina, que dizem que o caso é motivado mais pela política externa americana em relação à Venezuela do que pela busca por justiça.

O caso desferiu um golpe particularmente duro às relações entre Estados Unidos e Argentina. Há dois anos, as relações diplomáticas entre os países foram abaladas quando Néstor Kirchner, o marido de Cristina e o presidente na época, foi anfitrião de um encontro de líderes latino-americanos que criticaram fortemente os Estados Unidos. Chávez era um deles.

Mas o indiciamento na quinta-feira conclui uma semana na qual as relações entre argentinos e americanos parecem ter atingido um novo ponto mais baixo. Cristina reagiu furiosamente à investigação, que se tornou pública apenas dois dias depois de sua posse, dizendo que ela visava dividir a Argentina e a Venezuela.

Autoridades americanas negaram que o caso visa apenas frustrar Chávez.

"Nós esperamos que o governo argentino entenda que isto é apenas uma questão legal, não política", disse Sean McCormack, um porta-voz do Departamento de Justiça, em uma entrevista na quinta-feira. "Nossa agenda para o hemisfério não está centrada em um país, ou uma pessoa. Ela trata de livre comércio, boa governança e justiça social."

Nesta semana, Cristina Kirchner restringiu o acesso diplomático do embaixador americano, Earl Anthony Wayne, o limitando apenas ao Ministério das Relações Exteriores. Na noite de terça-feira, o chanceler argentino, Jorge Taiana, manifestou a forte desaprovação de seu país à investigação e exigiu novamente a extradição de Antonini Wilson, que possui cidadania americana e venezuelana, para ser interrogado.

Após a descoberta do dinheiro em Buenos Aires em 4 de agosto, Antonini Wilson foi autorizado a voltar aos Estados Unidos, onde começou a cooperar com os investigadores americanos, usando uma escuta e concordando em ser monitorado pelos agentes do FBI. Sua cooperação levou aos indiciamentos de quinta-feira.

Os cinco homens indiciados são acusados de tentar silenciar Antonini Wilson, ameaçando sua família e lhe oferecendo US$ 2 milhões. Segundo o indiciamento, eles realizaram uma série de reuniões com Antonini Wilson e lhe disseram que várias autoridades do governo venezuelano sabiam da conspiração, incluindo o diretor do serviço de inteligência daquele país, o gabinete do vice-presidente e um alto funcionário do Ministério da Justiça.

O indiciamento não chegou a de fato citar Cristina Kirchner como sendo a pessoa para a qual o dinheiro era destinado. Mas o principal promotor no caso, Thomas J. Mulvihill, disse no tribunal na semana passada que a campanha dela era o alvo.

Mulvihill foi mais longe em uma audiência na segunda-feira, dizendo que várias conversas gravadas pelo FBI deixavam "muito claro que um acordo foi acertado entre os governos venezuelano e argentino (...) no qual a verdadeira fonte do dinheiro seria abafada e todo este problema acabaria desde que Antonini cooperasse".

Na quinta-feira foram indiciados Moises Maionica, 36 anos; Antonio Jose Canchica Gomez, 37 anos; Rodolfo Wanseele Paciello, 40 anos; Franklin Duran, 40 anos; e Carlos Kauffmann, 35 anos. Maionica, Duran e Kauffmann foram detidos na quinta-feira para aguardar julgamento. O governo está apelando da ligação de Paciello. Gomez permanece foragido.

Se condenados das acusações de conspiração e atuação como agentes de um governo estrangeiro sem notificação prévia, os cinco homens enfrentariam um máximo de 10 anos em uma prisão federal e uma multa de US$ 250 mil.

Cristina Kirchner, que disse durante sua campanha que tentaria melhorar as relações com os Estados Unidos e com a Europa, chamou a investigação americana de "lixo" e defendeu a Venezuela como aliada da Argentina. O Congresso argentino, controlado pelo partido peronista da presidente, aprovou por 128 votos contra 62 uma resolução repudiando a ação americana.

"Esta é uma medida de quão profundamente os argentinos suspeitam disto como algo politicamente motivado", disse Michael Shifter, vice-presidente do centro de política Diálogo Interamericano, em Washington.

Investigadores argentinos e venezuelanos apresentaram pouco desde que a maleta foi descoberta. As autoridades argentinas querem Antonini Wilson, 46 anos, para ser interrogado sobre uma possível lavagem de dinheiro e contrabando. Uma juíza federal argentina, Marta Novatti, enviou à Interpol um mandado de prisão em 16 de agosto.

Mas uma promotora argentina, Maria Luz Rivas Diez, disse na quinta-feira que uma passageira do avião, uma secretária argentina, alegou que Antonini Wilson esteve no palácio presidencial apenas dois dias depois de ter sido pego com o dinheiro.

"Isto é um teste para o governo de Cristina", disse Shifter. "Se há uma investigação em andamento, ela precisa demonstrar que deseja que a verdade venha à tona e a apóie. Menos que isso levantaria sérias dúvidas sobre seu governo."

*Vinod Sreeharsha, em Buenos Aires, contribuiu com reportagem. George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,32
    3,157
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    0,56
    63.760,62
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host