UOL Notícias Internacional
 

25/12/2007

Cinéfilos, façam suas malas. Uma versão não censurada os aguarda

The New York Times
Howard W. French

Em Xangai, China
Por semanas, o número de visitantes chineses a Hong Kong cresceu devido a uma nova categoria de turistas: freqüentadores de cinema.

Em resposta à censura a um filme sobre amor e traição em Xangai durante a Segunda Guerra Mundial, de autoria do diretor nascido em Taiwan, Ang Lee, os fãs de cinema do continente têm viajado aos milhares até Hong Kong para assistir a versão integral, sem cortes, do filme "Lust, Caution" (cuja tradução seria "luxúria, cuidado").

O fenômeno de tantas pessoas expressarem sua opinião com seus pés acentuou a rápida mudança de postura da população em relação à antiga e não questionada prática do governo de censurar as artes, provocando um debate sobre a forma como os filmes são regulados na China.

Divulgação 
Cena do filme "Lust, Caution", dirigido por Ang Lee e com a atriz chinesa Tang Wei

As pessoas já viajaram antes para Hong Kong para assistir filmes, é claro, mas sempre em números muito menores. Críticos e comentaristas daqui atribuíram o interesse pelo filme de Lee a vários fatores, do boca a boca sobre o conteúdo sexual obsceno cortado na versão censurada, aos temas políticos sensíveis nas entrelinhas, algo raramente visto no cinema do continente, passando pela fama do diretor vencedor do Oscar.

Mas talvez mais importante seja a ascensão de uma classe de cidadãos urbanos mais abastados nas cidades mais ricas do leste, que está crescendo mais acostumada do que nunca a ter mais opções em suas vidas.

"Eu fui para Hong Kong com minha namorada para assistir 'Lust, Caution' porque foi muito censurado aqui", disse Liang Baijian, 25 anos, um empresário e investidor em ações da região autônoma de Guangxi. "A gente podia ter comprado uma cópia pirata do filme aqui, mas estávamos descontentes com o controle e quisemos apoiar a versão legal do filme."

Pelo menos um fã de cinema chinês tentou processar a Administração Estatal de Rádio, Cinema e Televisão, que regula o setor, por cortar parte do conteúdo do filme. O diretor, Lee, disse que o material censurado foi considerado politicamente inaceitável em Pequim por reforçar a noção de afinidade entre uma jovem mulher chinesa e um colaborador da ocupação japonesa. O processo foi repetidamente rejeitado pela Justiça em Pequim.

Muitos na indústria cinematográfica chinesa apóiam a idéia da introdução de um sistema de classificação semelhante ao usado nos Estados Unidos, que seus defensores dizem que reduziria a necessidade de censura direta. Mas a administração estatal tem resistido até o momento.

Outros que viajaram para Hong Kong dizem aceitar o argumento para um sistema de censura em um país de grandes desigualdades regionais de renda e educação, mas acham que a prática não se justifica nas cidades.

"Eu faço forte objeção à censura, mas para o país como um todo, eu acho que ainda posso entender sua necessidade", disse Yan Jiawei, uma designer de Xangai que assistiu "Lust, Caution" em uma recente viagem a negócios a Hong Kong. "Tem a ver com o grau de instrução das pessoas. Em grandes cidades como Xangai, as pessoas verão as cenas cortadas como arte, enquanto nas áreas menos desenvolvidas as pessoas as verão apenas como imorais."

As pessoas dentro da indústria cinematográfica daqui dizem que o fato de um "Lust, Caution" censurado estar disponível em toda a China demonstra quanto os parâmetros do que seja aceitável se expandiram desde o início das reformas na China, há mais de duas décadas. Não muito tempo atrás, o cinema chinês era amplamente dominado por tramas que reforçavam com mão pesada as fronteiras convencionais entre bem e mal, com pouco espaço para complexidades morais. O amor inquestionável ao país era um tema favorito.

Apesar de muitos terem sido atraídos a "Lust, Caution" pelas cenas de sexo, que no momento variam de comportadas e inexistentes em grande parte do cinema chinês, ainda mais inovador para um filme lançado aqui é a noção de um traidor em um papel principal ser retratado como um personagem atraente em vez de um vilão.

"O país sem dúvida está se tornando mais e mais aberto e avançado, e esta é a maré da história, que ninguém pode impedir", disse Fang Li, um importante produtor. "Em comparação com a economia de mercado que está se desenvolvendo tão rapidamente, eu nunca vi uma indústria na China tão atrasada como a indústria cinematográfica."

Fang disse que grande parte da culpa é dos censores, um grupo de pessoas na maioria idosas que trabalham em um comitê e pedem comentários críticos a diferentes áreas do governo, da Federação das Mulheres aos governos provinciais, que buscam todos apresentar seu eleitorado sob a melhor luz possível e evitar ofensas. Os censores "passam a maior parte de seu tempo preocupados em não perderem seu emprego", ele disse. "Eles são muito cautelosos em não cometer erros."

Outros críticos do sistema disseram que os censores do país se tornaram muito mais cuidadosos em não deixar impressões digitais. Wu Di, um pesquisador do Centro de Arte Cinematográfica da China, em Pequim, disse que quando o diretor Tian Zhuangzhuang filmou "O Sonho Azul" (também conhecido como "O Papagaio Azul"), um filme de 1993 sobre o assunto proibido da Revolução Cultural, um nota correu por toda a indústria cinematográfica alertando para que as empresas não mais o contratassem no futuro. Tian emoldurou um dos cartazes e o pendurou na parede, se referindo a ele nas entrevistas aos jornalistas.

"Agora, na chamada sociedade harmoniosa, eles não fazem as coisas de forma tão grosseira", disse Wu. Em vez de publicarem um aviso de proibição, atualmente o mesmo resultado é obtido com alguns poucos telefonemas, o que deixa pouco rastro.

Li Yu, diretora do recente filme "Perdido em Pequim", que possui alguma nudez, disse que se esforçou para permanecer positiva, mesmo depois de ter sido forçada a cortar vários minutos de seu filme.

"As pessoas que fazem filmes na China entendem bem a situação, e muitas delas criticam o sistema, dizendo que a censura as impede de fazerem bons filmes, o que em parte é verdade", disse Li. "Mas sinto que o ambiente está se tornando mais e mais relaxado." George El Khouri Andolfato

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