UOL Notícias Internacional
 

26/12/2007

Preservando Cuba pós-embargo

The New York Times
Cornelia Dean
Após acidentes geográficos e históricos, Cuba é um recurso ecológico inestimável. Este é o motivo para muitos cientistas estarem tão preocupados com o que acontecerá com ela depois que Fidel Castro e seus associados deixarem o poder e, como é amplamente esperado, o governo americano relaxar ou suspender seu embargo comercial.

Cuba, de longe a maior ilha na região, se encontra em uma confluência do Oceano Atlântico, Golfo do México e do Mar do Caribe. Suas montanhas, florestas, pântanos, costas e áreas marinhas são ricas em plantas e animais, algumas não encontradas em nenhum outro lugar.

E desde a imposição do embargo em 1962, e especialmente com o colapso da União Soviética em 1991, sua maior benfeitora econômica, a economia cubana estagnou.

The New York Times 
Crianças são vistas próximas a lixo e resíduos de óleo na Baía de Havana, em Havana, Cuba

Cuba não ficou isenta de desenvolvimento, incluindo operações agrícolas e de mineração estatais ao estilo soviético e, nos últimos anos, uma expansão do turismo. Mas também possui uma abundância de paisagens que em outras partes da região foram prejudicadas, pavimentadas, envenenadas ou destruídas desde a época da revolução cubana, quando o desenvolvimento foi mais intenso. Assim que o embargo acabar, a ilha poderia se ver diante de uma enxurrada de investidores dos Estados Unidos e outros lugares, ávidos por explorar tais paisagens.

Conservacionistas, advogados ambientais e outros especialistas, de Cuba e outros lugares, se reuniram no mês passado em Cancún, México, para discutir os recursos da ilha e como continuar a protegê-los.

Cuba fez "o que devia ser feito -identificar os principais pontos de biodiversidade e deixá-los de lado", disse Oliver Houck, um professor de lei ambiental da Escola de Direito da Universidade de Tulane, que participou da conferência.

No final dos anos 90, Houck esteve envolvido em um esforço, financiado em parte pela Fundação MacArthur, para orientar as autoridades cubanas na elaboração de novas leis ambientais.

Mas, ele disse em uma entrevista, "uma invasão de consumismo americano, um futuro dominado pelos Estados Unidos, poderia passar por cima disto como um trator" quando o embargo acabar.

Segundo algumas estimativas, o turismo em Cuba está aumentando 10% ao ano. No mínimo, disse Orlando Rey Santos, o advogado cubano que liderou o esforço para elaboração de leis, em uma entrevista na conferência, "nós podemos imaginar que o turismo aumentaria de forma muito rápida" com o fim do embargo.

"Estima-se que poderíamos dobrar o turismo em um ano", disse Rey, que chefia os esforços ambientais no Ministério da Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente de Cuba.

Com cerca de 1.100 km de extensão e cerca de 160 km em seu ponto mais largo, Cuba se estende do oeste do Haiti até que a Península de Yucatán do México. A ilha oferece um habitat crucial para pássaros, como o tordo de Bicknell, que habita no verão as montanhas da Nova Inglaterra e do Canadá, e a mariquita da América do Norte, que pára em Cuba a caminho do sul no inverno.

O mangue de Zapata, na costa sul da ilha, pode ser notório por seus mosquitos, mas também é conhecido por seus peixes, anfíbios, pássaros e outras criaturas. Entre elas está o crocodilo cubano, que atualmente existe apenas em Cuba, mas que no passado estava presente das Ilhas Cayman até as Bahamas.

Cuba possui a população biologicamente mais diversa de peixes de água doce na região. Seus recifes costeiros submarinos relativamente grandes são cruciais para várias espécies marinhas, incluindo algumas cujas larvas podem ser carregadas pelas correntes para águas dos Estados Unidos, disse Ken Lindeman, um biólogo marinho do Instituto de Tecnologia da Flórida.

Lindeman, que não participou da conferência mas que passou muitos anos estudando a ecologia marinha de Cuba, disse em uma entrevista que algumas dessas criaturas eram importantes espécies comerciais e recreativas, como a lagosta, caranha e garoupa.

Como os corais de outras partes, os de Cuba estão sofrendo à medida que o aquecimento global eleva as temperaturas do oceano e os níveis de acidez. E como outros corais da região, eles foram abalados quando uma morte misteriosa de ouriços-do-mar os deixou com um excesso de algas. Mas eles em grande parte escaparam da poluição, do tráfego de barcos e de práticas destrutivas de pesca.

Mergulhar neles "é como voltar 50 anos no tempo", disse David Guggenheim, um organizador da conferência, ecologista e membro do conselho diretor do Instituto Harte de Pesquisa, que ajudou a organizar o encontro juntamente com o Centro de Política Internacional, um grupo privado de Washington.

Em um relatório no ano passado, o World Wildlife Fund disse que "em um contraste dramático" com seus vizinhos, as praias, mangues, recifes, campos de ervas marinhas e outros habitats de Cuba estavam relativamente bem preservados. A maior ameaça a eles, disse o relatório, era a "perspectiva de um crescimento repentino e imenso no turismo em massa no caso de uma suspensão do embargo americano".

Em preparação para tal dia, os pesquisadores de uma série de instituições e organizações americanas estão trabalhando em conservação ecológica em Cuba, incluindo o Harte, a Wildlife Conservation Society, universidades como Tulane e Georgetown, instituições como o Museu Americano de História Natural e o Jardim Botânico de Nova York, entre outros. Eles estudam a saúde dos corais, os cardumes de peixes, a abundância de tubarões, a migração de tartarugas e os padrões de uso de terras.

Os cientistas cubanos na conferência notaram que este trabalho mantém uma tradição de colaboração que remonta a meados do século 19, quando pesquisadores cubanos começaram a trabalhar com os naturalistas do Instituto Smithsoniano. No século 20, naturalistas de Harvard e da Universidade de Havana trabalharam juntos por décadas.

Mas atualmente os relacionamentos colaborativos são cheios de problemas, eles disseram. O próprio encontro em Cancún representou um.

"Nós gostaríamos de poder realizar isto em Havana ou nos Estados Unidos" disse Jorge Luis Fernández Chamero, diretor do ministério de ciência e meio ambiente cubano e líder da delegação cubana, por intermédio de um intérprete na abertura do encontro. "Mas não podemos fazer isso." Apesar do governo americano conceder licenças para alguns cientistas americanos (mas não todos) viajarem para Cuba, ele rotineiramente nega autorização para os pesquisadores cubanos que desejam vir para os Estados Unidos, disseram pesquisadores de ambos os países.

Assim, os organizadores do encontro se voltaram para Alberto Mariano Vázquez De la Cerda, um almirante aposentado da marinha mexicana, um oceanógrafo com doutorado pela Texas A&M e um membro do conselho diretor do Harte, que supervisionou os arranjos para os conferencistas cubanos.

A situação de viagem é potencialmente ainda pior para os pesquisadores de instituições estaduais da Flórida. Jennifer Gebelein, uma geógrafa da Universidade Internacional da Flórida que usa sistemas de posicionamento global para monitorar o uso de terras em Cuba, falou no encontro sobre as restrições impostas pelo Legislativo da Flórida, que proibiu as faculdades estaduais de usarem recursos públicos ou privados para viajar para Cuba.

Em conseqüência desta medida e das restrições federais, disse Gebelein, "nós não sabemos ao certo o que acontecerá" com seu programa de pesquisa.

Por outro lado, John Thorbjarnarson, um zoólogo da Wildlife Conservation Society, disse ter tido dificuldade para obter permissão de Cuba para visitar algumas áreas daquele país, como a área de habitat do crocodilo cubano próxima da Baía dos Porcos.

"Eu tenho que caminhar por uma linha delicada entre o que os Estados Unidos me permitem fazer e o que os cubanos me permitem fazer", disse Thorbjarnarson, que não participou da conferência. "Não é fácil caminhar em tal linha."

Mas ele só tem elogios para seus colegas cientistas de Cuba.

Como outros pesquisadores americanos, ele os descreveu como realizando um trabalho altamente competente com recursos escassos. "Eles são um grupo notável de pessoas", disse Thorbjarnarson, "mas meus pares ganham em média provavelmente menos de US$ 20 por mês".

Os cientistas, fundações e outros grupos americanos estão prontos para ajudar com equipamento e suprimentos, mas são impedidos pelo embargo. Por exemplo, María Elena Ibarra Martín, uma cientista marinha da Universidade de Havana, disse por meio de um intérprete que as organizações americanas forneceram etiquetas e outros equipamentos aos pesquisadores cubanos de tartarugas e tubarões. Eles os enviaram via Canadá.

Outra questão espinhosa são as embarcações.

"Se você pretende realizar ciência marinha, em algum momento você terá que sair com alguma embarcação", disse Robert E. Hueter, que dirige um centro para pesquisa de tubarões no Laboratório Marinho Mote, em Sarasota, Flórida, e participou do encontro em Cancún.

Mas, disseram ele e outros, o governo americano não permite a entrada de embarcações nos portos americanos caso tenham estado nos últimos seis meses em águas cubanas, e o governo cubano não permite embarcações americanas de pesquisa em águas cubanas.

Uma resposta poderia ser embarcações já presentes em Cuba, mas atualmente elas costumam estar ocupadas nos esforços ligados ao turismo, disseram os cubanos no encontro em Cancún.

E mesmo dispondo de uma embarcação, disseram vários pesquisadores americanos na conferência, é difícil obter permissão do governo cubano para viajar a locais como a costa noroeste da ilha, o trecho mais próximo dos Estados Unidos. Como resultado, aquela região é a parte menos estudada da costa cubana, disseram Guggenheim e outros.

Outro grande problema é a falta de acesso em Cuba a uma fonte de informação que pesquisadores de toda parte consideram certa: a Internet.

Os críticos culpam o governo Castro, dizendo que ele limita o acesso à Internet como uma forma de censura. O governo cubano culpa o embargo, que ele diz deixar o país com largura de banda inadequada e outros problemas técnicos que o obrigam a limitar o acesso à Internet às pessoas que mais precisam.

Seja como for, "nós descobrimos que não temos acesso", disse Teresita Borges Hernández, uma bióloga da área de meio ambiente do ministério de ciência e tecnologia de Cuba, por meio de um intérprete.

Ela apelou aos americanos no encontro para que façam "qualquer coisa para ajudar a melhorar esta situação".

Guggenheim repetiu a preocupação e disse que até mesmo chamadas telefônicas para Cuba freqüentemente custam até US$ 2 por minuto.

"Estes detalhes, apesar de parecerem banais", ele disse, "são centrais para nossa capacidade de colaborar".

Gebelein e vários dos cubanos no encontro disseram que alguns sites americanos barram o acesso a pessoas cujos endereços eletrônicos as identificam como sendo cubanas. Ela sugeriu que o grupo organizasse um site em um terceiro país, um site onde todos poderiam postar dados, trabalhos e coisas do gênero, para que todos pudessem ter acesso.

Para Guggenheim, as melhores lições para os cubanos meditarem enquanto contemplam um futuro mais próspero podem ser encontradas a 145 quilômetros ao norte, nas Keys da Flórida. Lá, ele disse, muitas pessoas ingressaram em um ecossistema frágil demais para sustentá-las.

"À medida que Cuba se torna um resort turístico cada vez mais popular", disse Guggenheim, "nós não queremos ver e eles não querem ver os mesmos erros, no qual você literalmente ama algo até a morte".

Mas há pessoas céticas de que Cuba resistirá a tal tipo de pressão. Uma delas é Houck.

As leis ambientais que ele elaborou possuem "uma estrutura muito forte", ele disse. "Mas todas as leis apenas dão para você a oportunidade de conter a coisa errada. Com o tempo, é possível vencer a lei pela persistência."

Isto vale particularmente para Cuba, ele disse, "onde não há cidadãos armados com fortes grupos científicos pressionando na direção oposta. O que eles carecem é da pressão contrária de grupos ambientais e de ativistas ambientais".

Como Rey e Daniel Whittle, um advogado da Defesa Ambiental, colocam no livro "Cuban Studies 37" (University of Pittsburgh Press, 2006), "a elaboração de políticas em Cuba ainda é centralizada e de cima para baixo". Mas, eles escreveram, "muito precisa ser feito para melhorar a voz da população na autoria das políticas".

Rey disse na entrevista que os cubanos devem ser encorajados a usar suas leis ambientais. Por "algum tipo de hábito cultural", ele disse, as pessoas em Cuba raramente recorrem à Justiça para contestar decisões que não gostam.

"Não há litígio, apenas alguns poucos casos aqui e acolá", disse Rey. "Na maioria das situações que envolvem a comunidade, se um cidadão tem algum problema ele escreve uma carta. Tudo bem, mas isto não esgota as possibilidades."

Rey acrescentou: "Nós temos que promover mais envolvimento, não apenas no acesso à Justiça, mas na participação no processo de tomada de decisão".

"Eu sei que o Estado conta com um bom sistema do ponto de vista legislativo", disse Rey. Mas como ele e Whittle notaram em seu estudo, "a questão agora é se os líderes do governo podem fazer e farão o que for necessário para implementar o plano". George El Khouri Andolfato

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